Bravo! Especial Artes Visuais: por dentro do novo Masp
Capa digital da nova revista digital da Bravo!, o prédio Pietro Maria Bardi abre para o público com programação especial; Veja obras em primeira mão aqui

Um museu pode crescer a ponto de não caber mais na própria sede. É raro, mas acontece. Com o Masp, aconteceu duas vezes. Criado em 1947 pelo empresário Assis Chateaubriand, o Museu de Arte de São Paulo nasceu na rua Sete de Abril, na sede dos Diários Associados, no centro da cidade.
Mas ainda nos seus primeiros anos, o acervo chegou praticamente ao tamanho que rende à instituição, até hoje, o título de mais abrangente e importante coleção de arte da América Latina. Na época, a seu favor, o Masp tinha à frente um magnata da comunicação que, vindo da Paraíba, entendeu logo que a arte e a cultura seriam o caminho mais fácil para ser aceito nas rodinhas da elite paulistana. E Chatô não brincou em serviço. Tratou de usar toda a sua influência junto a potenciais doadores, a maioria empresários do setor privado, e aproveitou uma Europa quebrada pela Segunda Guerra para trazer obras-primas pro Brasil.
Logo ficou evidente que a sala de mil metros quadrados no segundo andar do prédio dos Diários Associados não dava conta do museu. O casal italiano formado pelo crítico Pietro Maria Bardi e pela arquiteta Lina Bo Bardi juntou-se ao projeto e, em 1958, Lina já tinha o desenho da nova sede do Masp pronto. E que sede! Dez anos depois, em 1968, o Masp ocupava sua sede na avenida Paulista, numa inauguração que é muito lembrada pela presença da rainha Elizabeth II, da Inglaterra, mas que simbolicamente, é muito mais do que isso.
Naquele novembro de 1968, São Paulo ganhou um de seus principais cartões postais. O bloco horizontal de concreto armado, com seus pilares vermelhos, é o coração da principal avenida da capital. E seu vão livre, imaginado por Lina para funcionar como uma praça aberta ao público, em pleno diálogo com a cidade, foi incorporado pela população não só como esse lugar de convívio social, mas também como um ambiente político, para reivindicações das mais variadas, ou seja, é um espaço vivo no melhor sentido da palavra.
Instalado no número 1578 da avenida Paulista, o Masp incluiu São Paulo na rota internacional da arte. Abraçado pelos paulistanos, o museu passou a atrair turistas do mundo todo pelo seu acervo e por sua estrutura: é uma joia da arquitetura moderna mundial do século 20. E, desde 2021, esse interesse aumentou ainda mais, já que Lina Bo Bardi foi reconhecida com o Leão de Ouro na Bienal de Veneza pelo conjunto de sua obra.
O Masp cresceu
Só que aconteceu de novo com o Masp. O Masp cresceu e não cabia mais na sua sede. Probleminha: não dava pra, dessa vez, simplesmente mudar de endereço. A sede agora é um ícone histórico da arquitetura mundial. Fazer uma expansão era uma necessidade mas também um risco. A saída que a presidência do museu encontrou tem tudo a ver com a própria história da instituição. Eles miraram alto e acertaram em cheio.

Finalmente, a partir de 28 de março, vamos todos poder circular pelo segundo prédio que passa a compor o Masp. Desde 2019, o público mais atento deve ter percebido uma construção vizinha ao museu, que passou boa parte desses seis anos coberta com tapumes e telas. Ali estava o edifício Dumont-Adams, que foi comprado nos anos 2000 pelo então presidente do Masp, o arquiteto Júlio Neves, já pensando nessa ampliação. O Dumont-Adams viveu uma verdadeira transformação para virar o Edifício Pietro Maria Bardi, incluindo o aumento do número de andares.

O projeto de reforma leva a assinatura do escritório Metro Arquitetos Associados, da dupla Martin Corullon e Gustavo Cedroni, que vem mantendo uma relação próxima com o museu nos últimos anos. Foi o Metro, por exemplo, que recuperou em 2016 os cavaletes de vidro originais pensados pela Lina para expor obras de arte, e que haviam sido aposentados nos anos 90. Corullon e Cedroni também pensaram várias expografias para mostras do Masp e implementaram melhorias no prédio original, que agora passa a ser chamado de Edifício Lina Bo Bardi.

O Masp protagoniza, portanto, um momento histórico tão significativo quanto aquele de 1968. Podemos falar num segundo marco em sua trajetória. O primeiro foi a ocupação do antigo Belvedere Trianon, na avenida Paulista, e a materialização do museu tão flutuante quanto sólido idealizado por Lina Bo Bardi. E agora a inauguração do seu segundo edifício, que corresponde em altura ao comprimento do prédio original, num diálogo orgânico e forte. Os dois endereços, em sua essência compostos por dois blocos retangulares, têm muitas outras conexões visuais entre si: com paredes de vidro nos andares inferiores, o Edifício Pietro Maria Bardi estabelece um diálogo de cara com o vão livre do Edifício Lina Bo Bardi, ambos também têm muitas partes de concreto armado expostas, e a fachada homogênea do Pietro não cria um ruído com toda a carga histórica do vizinho, funcionando mais como aquele cara mais novo que chega tranquilo, prestando uma homenagem ao colega mais velho.
Um novo ícone
Com 14 andares e 7.821m2, o Pietro aumenta em 66% a capacidade expositiva do Masp, que literalmente mais do que dobra sua área de atuação a partir de agora, indo de 10.485m2 para 21.863m2. São cinco novas galerias para exposições, duas áreas multiuso, salas de aula, laboratório de conservação, nova unidade do restaurante A Baianeira e ainda: café, depósitos, além de docas para cargas e descargas de obras de arte.

Com um revestimento feito com chapas metálicas perfuradas e plissadas, uma solução que controla a incidência de luz natural e reduz o aquecimento interno, o novo prédio ganhou o certificado LEED (Leadership in Energy and Environmental Design) por apresentar uma redução expressiva no consumo de energia.
Um volume monolítico e abstrato, num contraponto ao Lina Bo Bardi, o Edifício Pietro Maria Bardi segue uma tendência de museus de Nova York e se impõe como um novo marco arquitetônico da cidade: “Os visitantes vão ser impactados pelo conceito do museu vertical, que é comum no exterior mas pouco explorado no Brasil. É diferente das estruturas de museu que a gente conhece no país”, diz Paulo Vicelli, diretor de Experiência e Comunicação do Masp. “Depois tem a própria experiência da arquitetura do Edifício Pietro, muito contemporânea, arrojada, clean, que faz várias referências em detalhes de acabamento ao histórico Edifício Lina Bo Bardi. É um diálogo muito bonito e delicado que os visitantes mais sensíveis vão perceber.”

Para o segundo semestre está prevista ainda a inauguração de um túnel de 40 metros de extensão ligando os dois edifícios. A passagem subterrânea, sob a rua Professor Otávio Mendes, é uma obra complexa, mas que vai facilitar demais a circulação dos visitantes, além do transporte de obras de arte, promovendo um funcionamento ainda mais integrado dos dois prédios.
Cinco começos para um novo Masp
Coube à equipe da curadoria do museu pensar numa programação à altura dessa abertura. Cinco exposições nos aguardam em cinco andares do Edifício Pietro, todas feitas a partir de recortes do acervo. Num percurso de cima pra baixo, vamos ver:
“Histórias do Masp”, no 6ª andar: uma síntese de alguns aspectos mais importantes da história de 77 anos do museu. Paredes vermelhas, a cor do Masp, acolhem documentos, fotografias, artigos de jornal e obras de arte propriamente ditas, para, de uma forma dinâmica, pontuar uma trajetória que começou com Chatô e chegou até aqui.
“Renoir”, no 5º andar: mostra com 12 pinturas e uma escultura do artista francês. Essas obras foram adquiridas pelo Masp no fim dos anos 40, graças à mediação de Pietro Maria Bardi e Assis Chateaubriand junto a potenciais doadores privados e instituições europeias. Os trabalhos estão expostos numa versão contemporânea dos cavaletes de vidro que Lina Bo Bardi criou para o museu.
“Geometrias”, no 4º andar: um conjunto de 62 obras que usam formas geométricas em sua composição. Há desde peças dos anos 50, feitas por nomes como Amilcar de Castro, Lygia Pape e Lygia Clark, até artistas contemporâneos, caso de Daiara Tukano, Rodrigo Andrade, Paulo Pasta e Luisa Lambri.
Diante da seleção, vamos perceber que na década de 1950 a geometria era aplicada de uma forma rígida, com regras fixas, e que isso foi se flexibilizando com o passar dos anos.

Há também diferentes vertentes: para os indígenas, por exemplo, a geometria sempre teve um aspecto religioso. “Outra coisa importante para se notar aqui é que a coleção do Masp foi sendo construída prioritariamente com obras figurativas. Das 62 obras expostas agora, 57 delas foram incorporadas ao acervo nos últimos 10 anos. E, dessas 57, 21 obras foram doações feitas especificamente para esta exposição. Então, esta mostra tem uma importância também por ampliar o acervo em termos de lacunas históricas, de nomes contemporâneos e estrangeiros”, diz Regina Teixeira de Barros, curadora coordenadora e curadora do acervo do Masp.
“Artes da África”, no 3º andar: com expografia assinada pelo escritório da arquiteta Gabriela de Matos, a mostra reúne mais de 40 peças em madeira ligadas ao corpo e sua representação, vindas em sua maioria de países da África Ocidental. Duas delas, você confere aqui, em primeira mão: . Os artistas brasileiros biarritzzz e Cipriano apresentam trabalhos que foram comissionados especialmente para a exposição.

“Isaac Julien: Lina Bo Bardi – Um Maravilhoso Emaranhado”, no 2º andar: videoinstalação com nove projeções simultâneas que constroem uma narrativa não-linear sobre o legado de Lina Bo Bardi, principalmente sua visão vanguardista sobre a arte e a cultura popular no Brasil.
Há cenas gravadas no próprio Masp, no Teatro Oficina, no Sesc Pompeia e no MAM da Bahia. Esse andar promete ter fila já que é a atriz Fernanda Torres quem interpreta Lina na juventude, e Fernanda Montenegro quem faz Lina Bo Bardi na maturidade. Não dá para perder!
*Este é um trecho do texto de capa da nova revista da Bravo!. Leia o conteúdo completo a partir do dia 15/abril na nossa edição digital do Go Read.