Adolescência: o desafio de compreender os jovens e o perigo das redes sociais
Uma análise sobre como a minissérie revela os dilemas da comunicação digital, da misoginia e das pressões sociais que marcam a juventude contemporânea

Assisti Adolescência há algumas semanas, antes que se tornasse um fenômeno amplamente comentado, causando um maremoto emocional que, de alguma forma, já coloca a minissérie como o tema obrigatório do momento.
E, se sou sincera, como tia de uma adolescente, senti uma mistura de preocupação e alívio, pensando que, felizmente, não enfrento esse desafio dentro de casa com filhos meus.
Mas, ao chegar ao final do quarto episódio, fui arrasada, tão devastada que não pude deixar de questionar: por que demoramos tanto para ter uma produção tão importante e relevante sobre esses temas, finalmente ganhando visibilidade em várias plataformas?

Não importa, graças a Stephen Graham, uma mega estrela na Inglaterra, que protagoniza a série e co-escreveo roteiro, estamos aqui falando dos temas mais urgentes da nossa sociedade: os desafios da comunicação digital e as pressões sociais que moldam os adolescentes hoje.
A história é relativamente simples: um adolescente de 13 anos é acusado de assassinato e sua família, atônita e despreparada para tal atrocidade, navega entre a investigação, a motivação e a confirmação do pior.
Estamos de mãos dadas com eles porque um dos brilhantismos da narrativa começa com a decisão de manter a trama em quatro episódios, todos rodados sem corte, num uso preciso e justificado dessa técnica. Sem prioridades dramáticas que nos deem as respostas antes do tempo, somos dragados no furacão e usamos basicamente nossos sentimentos, não há espaço para racionalização. É uma jornada intensa.
Nunca vemos como foi o crime, mas aos poucos vamos tendo contextos cifrados da tragédia anunciada. A cena principal, ou melhor, o episódio mais comentado tem sido o “jogo de xadrez” entre o adolescente e a psicóloga, onde o novato Owen Cooper dá um show.

Mas posso confessar? O que mais me assustou e marcou, além da escola carregada de adolescentes agressivos e assustadores, foi o rápido diálogo entre o filho do detetive e o pai quando o jovem “traduz” os verdadeiros significados dos emojis que a polícia estava lendo de forma errada. Ali estava o cerne de todo drama. E eu seria o detetive sem saber ler o obvio. Aliás, mesmo quem tem adolescente em casa: sabe mesmo ler os códigos atuais?
Códigos, símbolos e comportamentos são áreas que me atraem, pois estudo Psicanálise e observo de perto como esses elementos desempenham um papel fundamental na formação da identidade e nas interações sociais. Quando se trata de jovens, os símbolos ganham ainda mais relevância: eles ajudam na construção de um senso de pertencimento, permitindo que os adolescentes se comuniquem de formas que muitas vezes escapam aos olhos dos adultos.

Nesse cenário, um ‘simples‘ emoji, que muitos podem achar irrelevante, carrega um peso emocional imenso, tornando-se, paradoxalmente, o maior sinal de alerta para os pais. De simples, esse símbolo não tem nada.
A misoginia alimentada pelas mudanças culturais, refletindo comportamentos problemáticos e muitas vezes normatizados em algumas esferas masculinas, também se faz presente em Adolescência.
A violência decorrente dessas atitudes se infiltra nos relacionamentos e nas dinâmicas sociais dos adolescentes, tornando a série ainda mais impactante em sua autenticidade.

Stephen Graham, com sua visão perspicaz, destaca que mesmo uma família estável e amorosa está vulnerável aos mesmos problemas que outras, mostrando como, muitas vezes, a violência e o abuso não têm uma cara óbvia.
Adolescência cumpre seu papel urgente ao provocar uma reflexão necessária sobre a complexidade das relações adolescentes, especialmente em tempos onde a comunicação digital e as pressões sociais desafiam a compreensão e a conexão entre gerações.
A série não só aborda a dualidade entre ser vítima e algoz, mas também desafia os adultos a repensarem sua capacidade de interpretar os sinais e símbolos que os jovens usam para se expressar.

A maneira como essas complexas dinâmicas familiares e sociais se entrelaçam, permeadas pela misoginia, violência e as dificuldades da comunicação digital, coloca todos, pais e filhos, frente a uma realidade difícil de enfrentar, mas fundamental para entender.
A minissérie que se tornou a mais vista da Netflix não é apenas um reflexo da nossa sociedade, é um alerta e um convite à ação para que possamos ajudar os jovens a navegar nesse universo tão desafiador e construir um futuro onde a empatia, o respeito e a compreensão sejam mais que palavras, mas práticas concretas.