Como David Lynch e Angelo Badalamenti definiram o som do mistério
Juntos eles criaram identidades sonoras inesquecíveis para o cinema e para TV, transformando trilhas sonoras em protagonistas

A notícia da morte de David Lynch nesse 16 de janeiro de 2025 contribuiu para uma nostalgia inegável na véspera do feriadão no Rio de Janeiro. Lynch, que faria 79 anos no dia 20, faleceu aparentemente por consequência do enfisema depois de décadas como fumante. E coincidência, há dois dias estava reorganizando minha coleção de trilhas sonoras que nem eu mesma lembrava de ser tão completa depois de anos nem chegando perto dos meus CDs. Entre eles obviamente há Veludo Azul, Coração Selvagem (Wild At Heart), e um dos meus mais queridos: Twin Peaks.
Quem viveu os anos 1980 e os 1990 como eu, ainda formando toda base cultural, a dobradinha David Lynch – Angelo Badalamenti é sinônimo de um universo de mistério, de sobrenatural, de medo e de surpresas. Eles ganharam o Grammy por conta de “Falling”, a canção título da série que era completamente diferente de tudo que estava na TV na época. Quem matou Laura Palmer?

E aquela música? Noites de muitos pesadelos!
E todas essas sensações voltaram hoje, três anos depois da morte de Badalamenti porque é o fim de uma era de criatividade no mais puro senso da palavra. Algo que sempre foi raro, mas é ainda mais nos dias de hoje. E penso nessa parceria que lembra outras icônicas como Steven Spielberg e John Williams, Tim Burton e Danny Elfman, Christopher Nolan e Hans Zimmer, Darren Aronofsky e Clint Mansell, assim como Alfred Hitchcock e Bernard Herrmann, e como tudo, como todas lendas, nascem pelo “acaso”.
A colaboração entre Lynch e Badalamenti começou com o filme Veludo Azul, em 1986. Inicialmente, Angelo Badalamenti foi contratado para atuar como um coach vocal para Isabella Rossellini, ajudando-a a interpretar a canção “Blue Velvet”, mas o diretor ficou tão impressionado com a sensibilidade musical dele que o convidou para compor o restante da trilha sonora do filme. Badalamenti, que cresceu ouvindo os discos de ópera de seu pai siciliano e de jazz de seu irmão, nunca tinha trabalhado em um filme como o de Lynch. Empolgado, o diretor pediu que ele escrevesse algo original e que representasse “mistérios do amor” e que “deveria ser uma música que flutua no mar do tempo”. Você entendeu o que ele queria dizer? Não importa, Badalamenti sim.
Esse casamento artístico foi feito no céu: os dois lidavam perfeitamente com improvisações, onde Lynch descrevia as emoções e atmosferas que queria evocar e Badalementi captava perfeitamente. Foi nesse processo que eles desenvolveram o que muito chamaram de “uma comunicação quase telepática”, com Badalamenti traduzindo as visões surreais de Lynch em música. Assim, a música de Badalamenti tornou-se uma marca registrada do universo lynchiano. Seu estilo mesclava melodias nostálgicas e românticas com tons sombrios e perturbadores, criando um contraste que ampliava o surrealismo das obras de Lynch. Mas foi com o lindo e apavorante tema principal de Twin Peaks, o Laura Palmer’s Theme que definiu a série e se tornou um fenômeno cultural, eternizando a trilha sonora como um dos pilares do show. A voz da cantora Julee Cruise completou o trio, numa colaboração constante até o fim da vida dos dois artistas.
O processo criativo entre Lynch e Badalamenti era orgânico e colaborativo. Lynch frequentemente usava metáforas visuais para descrever o que queria, e Badalamenti respondia com improvisações ao piano. Um exemplo famoso é a criação justamente do Laura Palmer’s Theme, que o músico compôs ao vivo enquanto Lynch narrava a emoção que a cena deveria evocar. Queria ser uma mosca para ter testemunhado esse momento!
Lynch chamava o parceiro de “gênio musical” e sabemos que não estava exagerando. A música de Badalamenti fazia parte de sua narrativa, não era apenas um complemento, mas um elemento central para criar sua atmosfera singular. As músicas eram introspectivas, muitas vezes contrastando com a ação ou o diálogo, reforçando o surrealismo e a dualidade (por exemplo, beleza versus escuridão).
E dentro todas as colaborações, a trilha sonora de TwinPeaks influenciou artistas como Moby e Radiohead e inspirou séries como The X-Files, Stranger Things e True Detective, entre outras. Isso porque mudou a percepção do público sobre o papel da música na narrativa audiovisual. E transformou a parceria de Lynch e Badalamenti uma lenda.
Essa cumplicidade entre diretores e compositores não são apenas colaborações técnicas, elas constroem a alma dos filmes e o silêncio nunca será tão poderoso quanto uma melodia bem colocada. Especialmente quando falamos de David Lynch e Angelo Badalamenti.