Fluxo de pensamento: Maria de Médicis
Diretora da novela Beleza Fatal, disponível na Max, fala do desejo de revitalizar o gênero do folhetim e atrair novos espectadores

Assumir a direção-geral de uma novela no streaming pela primeira vez depois de 29 anos na TV Globo foi um enorme desafio. Inventamos uma nova maneira de fazer novela num novo lugar. É um mix de sentimentos: alegria, alívio, dever cumprido e aquele luto que rola no final de qualquer projeto. Afinal são meses de set e set… vicia! Essa experiência me deu a possibilidade de criar e recomeçar.
Se tem algo que eu conheço bem é o gênero novela. Em mais de 30 anos de carreira e agora com 17 produções no currículo, sinto que a narrativa de uma boa novela, independentemente de seu formato ou número de capítulos, é construída com base no melodrama e no folhetim.“”Beleza Fatal” não será como as tradicionais novelas que sofrem a interferência do público porque é uma obra fechada, de 40 capítulos, mas é uma novela para quem gosta de novela e sem vergonha de ser… novela. Com todos os elementos de um folhetim clássico: vingança, amor proibido, discussão familiar, mas com um componente de contemporaneidade marcante que o autor Raphael Montes traz no texto.
É o público quem escolhe como e quantos capítulos quer assistir, seja no Brasil, Estados Unidos, Portugal ou em qualquer país da América Latina, o que, de certa forma, muda completamente a dinâmica. A exportação de novelas sempre existiu, mas agora é possível assistir em tempo real e conectar espectadores de várias partes de forma imediata. Nessa equação global também torcemos para atrair um público mais jovem, a geração Tik Tok, que está acostumada com o ritmo de séries e a velocidade das plataformas digitais, além do público noveleiro, que anseia por assistir boas histórias, com tramas mais ágeis e que fujam da monotonia. Torço por essa oportunidade de revitalizar o gênero e atrair novos espectadores.

Sofia e sua nova família se unem na dor e na indignação contra os culpados pelas suas tragédias. Anos depois, já adulta, Sofia traça seu plano de vingança. Com ajuda da família Paixão, Sofia quer destruir Lola e todos aqueles que lhe fizeram mal. Em sua obsessão, Sofia reencontra um amor de infância, questiona os próprios passos e descobre que fazer justiça custa um preço muito alto. (Foto: Fabio Braga/Pivô Audiovisual, Rafael Miranda)DIVULGAÇÃO. (Fabio Braga/divulgação)
Outro aspecto importante é o papel social das telenovelas. As novelas brasileiras sempre foram um termômetro social refletindo as mudanças na sociedade. Muitas temáticas relevantes como a abordagem dos relacionamentos homoafetivos, transição de gênero, violência contra mulher, crianças e idosos, racismo, entre outros, foram assuntos debatidos nas novelas e que ganharam as rodas de conversas nas ruas e nas redes sociais.
É indiscutível a força da novela no Brasil e de como esse gênero ajuda a discutir questões atuais, traz à tona novos assuntos e gera conversas. Inseridos na ficção, mas não sob a forma de “vamos dar palestra sobre…”, proporcionam o envolvimento de toda uma sociedade, criam estatutos e mudam até leis. Quantas vezes também já ajudaram a desenvolver um canal de comunicação dentro de uma família? Não raro, em função da novela, os pais começaram a compreender melhor sobre a homossexualidade de um filho, por exemplo.
Até ser finalizada, o processo de produção de uma nova obra é sempre intenso e empolgante. Toda vez que piso num set de gravação é automático pensar no público que está do outro lado da tela. É uma conexão especial que se estabelece a cada novo trabalho. Como diretora, o meu desejo é sempre transmitir a emoção da história.
Comecei aprendendo a fazer TV como produtora e, ao longo dos anos, construí um caminho que me levou à direção depois de passar por inúmeras outras funções. Cada experiência, até mesmo os fracassos, me ensinaram muito. Tenho agora o desejo de contar mais histórias de mulheres, especialmente sobre mulheres maduras, e continuar a desenvolver novas novelas que se conectem com o público.
Sinto-me orgulhosa da minha trajetória. Percebo que houve um aumento na presença feminina na indústria, mas falta ocupar mais espaços de poder e de tomadas de decisões. O machismo estrutural ainda é um desafio e é fundamental continuar a luta por igualdade. É uma alegria poder inspirar outras mulheres a alcançar posições de liderança e mostrar que é possível conquistar o nosso espaço na indústria ou onde a gente quiser. E quero seguir contando muitas histórias!
Beleza Fatal está disponível na Max.