Avatar do usuário logado
Usuário
OLÁ, Usuário
Ícone de fechar alerta de notificações
Avatar do usuário logado
Usuário

Usuário

email@usuario.com.br

Por que “Cidadão Kane”, de Orson Welles segue nas listas de melhores filmes de todos os tempos

Inventividade formal e narrativa são as chaves que fizeram o filme se destacar e ocupar a 1a posição no ranking de "100 filmes essenciais" da Bravo!

Por Redação Bravo!
Atualizado em 25 ago 2025, 09h59 - Publicado em 25 ago 2025, 07h00
cidadao-kane-filme
Cena do filme "Cidadão Kane", considerado um dos melhores de todos os tempos (Divulgacão/acervo rede Abril)
Continua após publicidade

Só mesmo um talento de fora do cinema para revolucionar a linguagem cinematográfica quando essa já se encontrava próxima de ter meio século de existência. Ator desde adolescente, diretor de teatro e de programas de rádio em seguida, Orson Welles encarna todos os estereótipos do gênio precoce. Para arrematar a fama, es treou no cinema aos 25 anos, dirigindo Cidadão Kane, obra que ocupa a posição de Deus no céu da cinefilia.

Segundo palavras do próprio Welles, o filme “conta a investigação feita por um jornalista para descobrir o significado das últimas palavras de Kane [um magnata da imprensa livremente inspirado no milionário e dono de jornais William Randolph Hearst]. Na visão do repórter, as últimas palavras de um homem devem explicar sua vida. O que talvez seja verdade. Ele nunca chega a descobrir o que Kane quis dizer com a palavra ‘Rosebud’, mas o público descobre. Sua investigação leva-o a se aproximar de cinco pessoas que conheceram bem Kane, que o amaram ou o detestaram. Elas lhe contam histórias diferentes, cada uma de um ponto de vista parcial, de tal modo que a verdade sobre Kane só pode ser deduzida pela soma de tudo o que foi dito sobre ele, como aliás qualquer verdade sobre um indivíduo”.

O roteiro engenhoso traz a assinatura de Welles e de Herman J. Mankiewicz. A sobreposição de diferentes focos é resolvida, na estrutura do filme, por meio da ruptura com padrões bem estabelecidos da indústria, como a narrativa linear, a definição clara da psicologia dos envolvidos e a sobriedade no recurso a simbolismos e extravagâncias visuais. E é essa atitude de desobediência a códigos definidos e a invenção visual e narrativa que transformam o filme numa fabulação cinematográfica
da vida de seu personagem em vez de simplesmente uma crônica de fatos pessoais narrada com início, meio e fim.

Além disso, vários elementos formais identificam sua singularidade: o uso dramático da profundidade de campo, o recurso do flashback para narrar distintos pontos de vista de um mesmo indivíduo e a presença visual do teto nos cenários em contraponto à posição baixa da câmera cujo efeito é ampliar a estatura e o significado dos personagens. As soluções visuais são atributos do genial diretor de fotografia, Gregg Toland.

Já experiente em recursos sonoros depois de seus trabalhos no rádio, Welles também acentuou o visual da obra com efeitos dramáticos, como o barulho da chuva batendo num telhado de vidro, os passos no silêncio da biblioteca e a sobreposição de vozes que transforma em cacofonia as diversas falas que se misturam no tempo.

Continua após a publicidade

Nem tudo, porém, se explica pela genialidade de seu diretor. Welles se preparou para a tarefa de sua estréia em Hollywood estudando a linguagem dos clássicos, em visitas freqüentes ao acervo da Cinemateca de Nova York. E por todo um ano antes de começar as filmagens, ele visitou bastidores de outras produções para aprender segredos técnicos. Com essa experiência, ele importou recursos visuais e narrativos que haviam sido usados por outros cineastas, mas deu a eles uma personalidade, uma caligrafia única; em resumo, um estilo.

Depois de alcançar o apogeu instantâneo em sua estréia, a carreira de Welles no cinema tomou um rumo errático. O problema maior do artista não foi a falta de talento, mas o excesso. Apesar de elogiado, Cidadão Kane deu prejuízo a seu estúdio, a RKO. A discordância entre ambição artística e baixo desempenho de mercado determinou dificuldades nos passos seguintes de Welles, que ficaram marcados pela interferência dos produtores em sua concepção autoral.

Continua após a publicidade

Seu filme seguinte, Soberba, feito em 1942, teve sua montagem original completamente modificada enquanto Welles encontrava-se no Brasil filmando It’s All True. Irritado com suas más relações com Hollywood, o diretor exilou-se na Europa em 1948 e nas décadas seguintes produziu irregularmente, contando com a ajuda de amigos e admiradores.

O que não impediu que mesmo aquém dos resultados de Cidadão Kane, Welles tenha prosseguido sua revolução em títulos indispensáveis, entre os quais Mr. Arkadin (1955), A Marca da Maldade (1958), O Processo (1962) e Verdades e
Mentiras (1974).

Lançado nos Estados Unidos em 1941, o sucesso de estima de Cidadão Kane só começou de fato a partir de 1946, quando chegou à Europa (cujo mercado só se reabriu para produções norte-americanas após o fim da Segunda Guerra).

Continua após a publicidade

A partir de 1952, com a iniciativa da prestigiosa revista inglesa Sight & Sound, as principais publicações começaram a produzir suas listas de melhores filmes de todos os tempos, feitas com base em consultas a centenas de diretores e críticos de cinema de todo o mundo. A cada dez anos, ela refaz sua enquete, que mantém o posto de a mais tradicional. Curiosamente, na lista de 1952, o filme de Welles não se encontra nem entre os dez primeiros. Mas, em 1962, conquista a primazia, lugar que manteve até a última publicada pela revista, em 2002.

A própria Sight & Sound aponta os motivos: “Ainda é rebelde frente a Hollywood, irônico no tratamento da reali-
dade e da celebridade, reflexivo ao jogar com as convenções cinematográficas e perspicaz na combinação de gêneros, desde a comédia maluca até o primeiro noir”.

Cidadão Kane / Citizen Kane
Diretor Orson Welles
Estados Unidos (1941)

Continua após a publicidade
bravo-filmes-essenciais
Especial Bravo! 100 filmes essenciais (Bravo!/arquivo)

*Esta matéria faz parte do acervo da Revista Bravo! e foi originalmente publicada em 2007 na edição impressa Especial 100 filmes essenciais – O ranking das melhores produções da história do cinema em textos sobre os principais trabalhos
de Orson Welles, Stanley Kubrick, Federico Fellini, Woody Allen, Alfred Hitchcock e muitos outros”

Compartilhe essa matéria via:
Publicidade