Avatar do usuário logado
OLÁ,

Por amor aos nossos filhos, isso não é brinquedo não!

Em nova coluna, Elisa Lucinda discorre sobre os males geracionais do vício precoce em telas, celulares e tablets

Por Elisa Lucinda
13 jan 2025, 08h00
elisa-lucinda-colunista-bravo-crianca-celular-coluna
 (Imagem criada com auxílio da ferramenta de Inteligencia artificial generativa Midjourney/Redação Bravo!)
Continua após publicidade
Quando meu filho Juliano nasceu, o que nós queríamos, eu e o pai, o Zanandré, era garantir para ele quintal. Quintal. A maravilha da natureza bem à mão de uma infância. O que o ameaçava, o grande monstro que assustava essa verde realidade, era o apartamento. Como ele poderia correr? Onde? Muita gente perdeu quintal, e pra muita gente quintal virou o playground dos prédios.
Muitos da cidade grande não puderam mais brincar na rua, como tinha sido o caso de minha infância: pipas, brincadeira de fazer comidinha de folha, chão de terra, desenhar no chão com graveto, desenhar no cimento com pedra, subir em árvore, se apoiar entre um galho e outro e pegar a fruta com a boca, ver o ovo que a galinha botou e conhecer a galinha, ver o cágado devorando alface, os porcos no chiqueiro de minha avó, a comida do cachorro, o uivo dele na noite. Tudo isso a vida de apartamento veio para tirar. E as crianças ficaram sem espaço pra correr, como os cachorros grandes criados em quitinetes, tensos, querendo zarpar, pular, caçar e agir como cachorro. Esses lugares de lazer para crianças costumam ser um conjunto acimentado que poucas vezes oferece brincar em poças de lama, por exemplo. Conseguimos dar chão de terra sem quintal pra ele.
Mas agora o vilão, ao qual venho aqui denunciar para nos alertar, é muito maior do que o vilão apartamento. O efeito de se morar em um caixote pode receber redução de danos com algumas caminhadas na praia, praças gramadas, jardins públicos, parques, roças, que ajudariam a equilibrar a aridez dos condomínios e suas prisões, com a liberdade desses passeios. Mas este não, este mal é mais qualificado para a vilania, mais destrutivo, com maior poder de estrago geracional, e é levado a acompanhar a pessoa por toda parte.
Eu estou falando do celular, das telas, dos tablets. Estudos e mais estudos brotam de todos os lugares, escolas do mundo inteiro refletem sobre a limitação e até cogitam o banimento do aparelho na sala de aula. Países mais evoluídos, educacionalmente falando, estão tendendo a proibir o seu uso antes dos 16 anos. Há recomendações explícitas dos criadores de várias plataformas digitais como WhatsApp e Facebook.
Vi um filme em que os gênios dos softwares aparecem confessando que não deixam seus filhos usarem as redes sociais antes dos 16 anos. Ora, só esta informação bastaria para me deter — caso meu filho fosse hoje pequeno. Nós é que nutrimos nossos filhos e muitas crianças, parentes ou não, que passam sob a asa de nossa educação.
Antes de prosseguir, devo dizer que compreendo sim, o desespero das mulheres mães solos que não têm tempo pra nada, não tem ninguém que as ajude ou marido que com elas compartilhem o cuidado, porque é isso que ter a guarda quer dizer: Cuidar. Ela, a mãe sozinha, assoberbada e sem poder se dividir a contento entre tantas demandas, parte para o mais radical, a exemplo da babá eletrônica do passado como era chamada a televisão…Então, ela enfia a telinha na mão do pequenino e está feito o aliciamento.
O celular tem o poder de paralisar a criança, como um aparente calmante, um sossega leão, cujo mal só aparecerá na consequência. Na hora, a criança fica aparentemente calma, eu diria hipnotizada. O dano não é visto no primeiro momento a olhos vivos. Eu sei que esperneiam quando já estão viciados. Mas não se pode desistir. Como alternativa, sugiro sempre, de alguma maneira, envolver a criança na tarefa adulta, tão logo ela possa, lavando um vegetal, botando os pedaços cortadinhos dentro do potinho, desenhando ali perto da gente no caderno, ou mesmo numa parede que a gente separa na casa só pra ser de rabiscos e criações dos pequenos.
Continua após a publicidade
Além do mais, há muitos brinquedinhos atraentes, educativos, para nenéns, antes de poderem ser nossos “assistentes”. Bichinhos que miam, latem, interagem, instrumentinhos musicais e livrinhos falantes. Há inúmeros objetos da vida que podem ser brinquedo: panela, colherzinha de plástico e de pau, copos e outros utensílios. O mundo todo é brinquedo para elas. O certo é que nós somos seus nutricionistas, porque decidimos o que vai comer aquele corpo e aquela alma e o oferecemos a eles. Será que estamos oferecendo drogas? É certo oferecer coca-cola a uma criança? E todo dia? Elas não sabem ler, elas confiam em nós. Se repreendemos quando alguém dá um cigarro para uma criança fumar ou cerveja e vinho pra uma criança beber, também temos que repreender a ingestão de outros venenos, afinal a questão aqui é saúde, não uma proibição moral.
Me sinto uma super heroína disfarçada de atriz simpática, de passageira cuidadosa, de companheira de viagem que gosta de crianças, pois na verdade o que quero é salvá-las. Elas estão nas mãos dos adultos, mas os adultos estão nas mãos de quem? Temo pelas criancinhas. Outro dia vi uma, muito acima do peso, com 4 anos, uma visível dificuldade de andar, e comentei com a mãe: “O que o médico diz, já que ele está tão acima do peso para tão pouca idade, minha querida?” Não era um menino gordinho, era um menino com obesidade mórbida, com dificuldade de se locomover. E a mãe me disse: “Ah, minha filha, esse aqui só come porcaria. Comida, só gosta de pizza e macarrão. Hambúrguer tem que ser todo dia de noite. E o tempo todo, tome porcaria. Uns cinco pacotes de biscoitos por dia. É, minha filha, é uma luta.” E quem compra?”, perguntei. Ela me olhou, flagrada, perdida, constrangida e meio sem saída, coitada.
Uma das coisas que envolvem uma educação é a construção do limite. O limite dá um norte, um caminho. E não precisa ser com violência, pode ser com palavras, com alternativas práticas, tipo: “Vamos dar um mergulho com o papai?”, para tirá-lo do transe da tela. Comparo os limites às margens de um rio. Sem as margens não tem rio, tem água espalhada. São elas que garantem a direção da correnteza. Uma margem não contém um rio, uma margem margeia, guarda, orienta. E é isso que somos como educadores, escolhemos que comida vão comer os pequeninos, que não trabalham ainda, que não sabem ler, que não compreendem o que quer dizer “substância cancerígena” escrita no rótulo, “gordura saturada”, “excesso de sódio” e, repito, eles são os que confiam em nós.
A música que toca em nossa casa na infância nunca mais vai parar de tocar nas almas da gente. Todo mundo tem uma trilha sonora da infância e são as músicas que os pais gostavam. os avós, as mães, as tias, os que criam. Há infância com poesias, há infâncias com teatro. Minha grande amiga e sócia no Instituto Casa Poema, Geovana Pires, é filha de uma dona de casa, minha amada Janice, com um trocador de ônibus, meu querido senhor Giovani. Moravam em Belford Roxo, numa infância simples. O seu Giovani procurava peças teatrais, espetáculos, circo, shows que tivessem sendo exibidos gratuitamente na cidade e levava a filha pra ver. Ninguém me tira da cabeça que foi desse “quintal”, dessas viagens lúdicas teatrais que surgiram a atriz que ela é hoje, a diretora, a iluminadora e a dramaturga.
Portanto, o assunto na verdade é: qual comida que estamos oferecendo e que ficará marcada como conteúdo na infância de nossos filhos? Que suporte ético há na educação que a elas oferecemos? Estamos traindo as crianças? Tornando-as doentes, ansiosas, nervosas, sem gastar sua energia de criança?
Continua após a publicidade
Isso que estou falando até agora poderia ser apenas um conselho, e algumas pessoas podem me achar impertinente e até retrógrada por essa posição. Mas acontece que não. Acontece que estudos comprovam o não desenvolvimento intelectual de crianças devido à superexposição de telas. É científico. Os estudos não têm dúvidas da destruição cognitiva causada pelo não estímulo de áreas importantes a serem desenvolvidas. A internet, no caso das crianças, não oferece nenhuma possibilidade de evolução da coordenação motora fina, porque tudo é plano, tudo é com os dedos naquela aparentemente mágica superfície. Tudo é não tridimensional. Tudo estimula e estraga não só a visão como a mente. E os gestos são todos digitais, sem exercício real.
Não se dá nó ali, não se faz um laço, não se enfia um fio de nylon numa miçanga, não se corta folhas com faquinha de plástico, não se pega num lápis e se organiza a psique numa folha de papel entre traços, símbolos e cores. Excesso de gasto mental sem desenvolver áreas importantes da criatividade e da imaginação não dá em boa coisa. Programas sendo ouvidos e desfrutados na velocidade rápida, o corpo paralisado e um mundo imenso na cabeça programado para conteúdos que ninguém escolheu, nem os pais, são uma ameaça para o desenvolvimento dos pequenos.
Alguém já reparou ou leu algo sobre os códigos, os símbolos usados pelos pedófilos? São sinaizinhos, símbolos com cores infantis, que passam despercebidos entre um site e outro, e levam a criança, orientada pelo pedófilo oculto, a acessar uma página que ela não desejou e nem teria capacidade para tanto. Minha amiga, jovem mãe, veio apavorada me dizer: “Meu filho, de 8 anos, me chamou pra me dizer que tinha um homem na internet ensinando a sentar no colo de um adulto. ‘O moço mandou eu passar a mão em mim’, me contou. Fiquei tão apavorada Elisa, que na hora entrei no celular no lugar do meu filho e digitei que eu era da polícia. Fui impulsiva, burra, e ele desapareceu. Quando denunciei, o site já não mais existia.” 
Introduzir nossos filhos na vida digital dessa maneira irresponsável, é como aliciá-los e soltá-los na rua do mundo cibernético onde a última coisa que descobrimos, se dermos sorte, é a cara das pessoas. Vilões sem rosto estão esperando apenas que a gente dê o primeiro celular. Eles contam com nossa cumplicidade para destruir nossos filhos. Pesado. Eu sei que é pesado ouvir isso, mas ainda mais leve do que o que vem acontecendo com nossos meninos e meninas, sedentários, ansiosos até o limite. Virou uma fábrica de deprimidos mirins e adolescentes desesperados. São medicados precocemente muitas vezes, do ponto de vista da psiquiatria, têm problemas de pressão alta, aumento do colesterol ruim e até, pasmem vocês, artrites.
Vinda de Itaúnas, há duas semanas, trouxe uma mala de manga espada. Eu que plantei. Que honra receber da terra a sua gratidão. O fruto é a gratidão da terra. Oitenta mangas, nenhum agrotóxico, nenhuma estufa, nenhum hormônio, nada. Pois nenhuma estragou. Quando acabaram de amadurecer fora do pé, porque muitas caíram de vez, ficaram bem conservadas na geladeira, mas observei que não estragaram — e são muito mais cheirosas do que as que eu compro na cidade e muito mais saborosas.
Continua após a publicidade
Comparo essas crianças criadas com celular às mangas sem gosto compradas na cidade. O conteúdo do celular e suas práticas paralisantes do corpo comem sua ingenuidade, envelhecem por dentro as criancinhas, devoram a beleza da inocência.  Uma vez devoradas, se transformam em blogueirinhos adultos vendendo tudo. Crianças deformadas. E perecem sem perfume e sem sabor. Estamos gerando um tipo de criança depressiva, sem sonhos. Como se fossem filhos de desistidos. Crescem “educadas” pelas guerras que os joguinhos perversos ensinam, pela violência e hiperssexualização dos conteúdos que até elas chegam sem parar.
Perdoem. As notícias são trágicas, e eu não as inventei. Suicídios de adolescentes que se apaixonam pela IA e preferem morrer a serem interrompidos do delírio. Inúmeros problemas de relacionamento, medo de conviver ao vivo e na presença do outro, dificuldade imensa de lidar com uma simples rejeição tem apavorado os pequenos seres humanos que nem sabem que nasceram para se relacionar. A internet nos conecta e nos põe em profunda solidão ao mesmo tempo, em graves isolamentos. Por tudo isso, internet não é coisa pra criança e não pode ser considerada brinquedo.
A bola é um brinquedo, porque eu vou brincar com a bola, porque eu vou chutá-la, sentar nela, equilibrá-la, lançá-la ao outro. Ela é o objeto e eu o sujeito. No caso do celular não. É ele quem dá as ordens, é ele quem está no comando pautando o cotidiano. Minha afilhada adolescente me pediu pra fazer um vídeo do meu celular, que era melhor que o dela. 14 anos, menina do interior do Espírito Santo, ingenuidade rural.
“- É para quê este vídeo, minha querida?” 
“- Ah, um moço que pediu pra eu fazer um vídeo dançando de short e camiseta, porque vai ter um concurso”
Continua após a publicidade
“- Concurso de quê?”
“- É de dança?”
” – Onde?”
” – Não sei!”
“- Como é o nome dele?”
Continua após a publicidade
“- Ele falou que é seu Neném.”
Ela não sabia o nome do concurso, de que lugar do mundo o homem falava, mas estava prestes a fazer o vídeo. A ação foi interrompida a tempo. E graças a Deus o celular dela era ruim, e ao pedir o meu fiquei sabendo. Eu poderia acrescentar aqui uma outra face da educação torta em que pais estimulam os filhos a terem celulares potentes, modernos, para com esses se sentirem superiores aos que têm celulares menos caros. Parece bobagem, mas isso alimenta silenciosamente o mundo das guerras sociais, e faz um elogio explícito à desigualdade.
O que estou falando é que são os males da formação que impedem o desenvolvimento pleno e produzem doenças. Criamos nossos filhos entregues à sinistra introspecção destas máquinas, expomos suas vulnerabilidades ao mundo infinito, cheio de falsos perfis, com todos os tipos de vilões que tememos na vida real — e que existem ali, sob anonimato.
Ninguém tem coragem de deixar um filho de 7 anos numa rodoviária de uma grande capital sozinho durante três horas. Porém, dentro de nossas próprias casas, costumamos abandonar nossas vítimas mirins à própria sorte no deserto dos becos digitais. As crianças estão viciadas. Algumas delas, inclusive, nos primeiros momentos em que eram amamentadas no seio, já recebiam estímulos visuais do pernicioso aparelho para olhos tão novos ainda com a visão turva. É grave o uso indiscriminado de uma coisa feita e criada para os adultos trabalharem.
Não me queiram mal, mas precisamos falar sobre isso. Se sabemos que faz mal e não queremos que nossos filhos sejam pequenos drogados, com problemas de foco, e poucas expectativas de vitórias cognitivas, se não os queremos confusos, pirados, querendo ser a imagem com filtro dentro da realidade, se não os queremos deprimidos e suicidas pois foram arrastados pela mentira da perfeição estética, e, ainda assim oferecendo-lhes estas telas, é sinal de que não os amamos de verdade.
Somos cicerones. Sabemos mais da vida, sabemos das exigências contadas de um ser humano adulto. Portanto, não é justo conduzirmos com tamanha irresponsabilidade os que vão cuidar do planeta daqui pra frente. Deixar que o celular ensine é terceirizar a educação. É suprimir a tão necessária relação de ancestralidade saudável entre o velho e o novo.
Não tenho mais visto tantos brinquedos com as crianças. Parece que acabaram os brinquedinhos. Em casa, nos restaurantes, nos aeroportos, na rodoviária, só vejo pequenos hipnotizados. Comem sem olhar para o que comem. Não se relacionam. Estão abduzidos.
Eu uso celular para trabalhar, e também uso para meus afetos. Mas sou adulta. Adultos podem. Já estão formados. Desejo a todos um 2025 mais perto da natureza e menos aprisionado pela ilusão da vida postada freneticamente. Pois, creriam-me, penso que foi minha infância de quintal que me permitiu escrever essa crônica. Talvez esse quintal tenha sido meu primeiro caderno.
Elisa lucinda.
Verão janeiro inteiro, de 2025
Publicidade