Qual o dia da mulher?
Em nova coluna para Bravo!, a autora divide uma crônica exclusiva sobre patriarcado, 8MM, feminicídio, ancestralidade e imaginários possíveis

Chegou em minha casa portando um sorriso luminoso, apesar de estar em estado de necessidade. Precisava. Tinha 23 anos, um menino com 4 que morava com a avó paterna que não gostava dela, e ainda trazia nos braços uma outra de um ano e meio, por aí. Leila, a Lelê. “Preciso muito trabalhar, dar de comer aos meus filhos. O pai não liga, não ajuda, até duvidou da paternidade. Pra mim esta acusação doeu como se enfiassem uma faca no meu peito… a menina é a cara dele!”.
Observei como aquela mãe pobre, residente numa comunidade extremamente violenta, escapada de tantas balas perdidas, preservava uma reserva de amor e cuidado para oferecer à sua menina, me lembro bem. A garotinha vestia um vestidinho bordado à mão, com rendinha na borda azul e rosa, um lacinho de cetim na cintura, o sapatinho combinando em cor e delicadeza com o vestido, mais o brinquinho de florzinha. E, sobretudo, a saúde física e a saúde emocional tão aparentes em uma criança, filha de uma mulher sem emprego… tudo me comoveu.
Onde Diamantina teria ido buscar tamanha reserva de afeto se sua mãe não lhe tinha sido amorosa, se seu padrasto era um violento estuprador de crianças, aliciador de meninas pobres? Onde Diamantina teria arranjado jeito de, ainda que desempregada, cuidar tão bem de sua filha? “Só tem uma coisa, se a senhora me aceitar, eu posso trazer minha filha? Não tenho com quem deixar.”
E claro que podia. “Onde houver mulher trabalhando tem que haver creche”, meu sábio pai dizia. Hoje eu ampliaria o conceito daquele homem à frente de seu tempo para “trabalhadores e trabalhadoras com filhos precisam de creches no trabalho”.
Ficamos logo encantadas uma com a outra. O jeito com o qual ela cuidava de minha casa, de meu filho, apoiando minha carreira, meus textos, minha poesia, cozinhando gostoso, me ajudando a preparar o café para as aulas de poesia falada em casa. Um dia eu disse: “Diamantina, por que você não arrumou a sala ainda, minha flor, até agora?”
Lembro que Lelê estava dormindo no meu colo quando Diamantina me respondeu: “A sala eu prefiro deixar por último, porque é a parte que eu mais gosto. Amo. Igual quando a gente separa a carne no cantinho pra comer no final por ser mais importante? Pois é, é assim que eu faço com a sala, guardo pro final porque eu amo arrumar”. Achei linda a resposta. E arrumava mesmo bem, tinha carinho, ideias de decoração. Estaria ali uma designer de interiores? O racismo e a pobreza não deixaram que soubéssemos.
Nossa história atravessou o tempo. Ela teve mais dois filhos. Mesmo quando não estava mais trabalhando em minha casa, nunca deixou de ser contratada para as festas, para cobrir férias, pra me apoiar em qualquer coisa que precisasse. Sua filha caçula, ela me deu ainda na barriga pra amadrinhar.
Morgana, minha afilhada querida que é hoje uma jovem boa leitora. Uma menina de ouro. Que orgulho dessa mulher trabalhadora, desse ventre resistente. Sonhava tanto em ser feliz que era até ingênua. “Diamantina, por que você continua namorando esse cara que nunca te deu um beijo de língua? Que quando te vê pelada vira o rosto? Ele te rejeita. Isso não é relação, não é amor”. Ela me olhava com seu pontual sorriso. “É , né? Mas ele vai mudar. Só tô esperando ele melhorar, se abrir mais, ele gosta de mim sim”. Passava. No outro dia já vinha ela, eu comentava: “Nossa, Diamantina, que sombra linda. Verde brilhante, que olhos! Ah, Elisa, queria tanto que o Gilson falasse comigo assim, reparasse na minha sombra, dissesse alguma vez na vida que eu sou bonita. Quem me dera!”
Quatro filhos, três maridos e pouquíssimo respeito recebido. Lembro de tê-la convencido, amigas que nos tornamos, de pegar o menino dela na casa da avó paterna, agora que estava trabalhando. Você sabe, Diamantina, que mais tarde ele vai te perguntar: “mãe, porque você não me criou e criou a Lelê?”
Você tem a resposta já? Uma lágrima caiu do rosto dela no balcão da pia entre as verduras. Também chorei. Não é fácil criar um filho, ela estava me ajudando a criar o meu, eu ajudando a criar os dela. Apesar da responsabilidade paterna impecável do pai do meu, naquele momento minha dor era também a dela por ser ancestral. De uma certa forma, Diamantina era também história da minha avó materna, que criou sozinha minhas tias gêmeas mais a minha mãe, se reinventou em uma profissão difícil pra uma mulher, a de alfaiate, e, abandonada por meu avô, criou as três meninas na pura dignidade, passando por cima do seu prazer, da sua necessidade de amor e carinho, da sua paz. Silêncio na cozinha.
Às vezes a gente vê nossos problemas com tantos tentáculos que nem se percebe as saídas que a situação tem. Só sei que ela acabou seguindo meu conselho, resgatou o garoto da casa da avó, o João Antônio, outro menino de ouro.
Passa o tempo. “Não acredito que você ainda está com esse cara, Diamantina, que tanto te faz chorar?! Esse cara escroto que jogou na sua cara o bolo de aniversário que você fez pra ele!!! Absurdo. Abuso. Você merece coisa melhor. Termina logo com ele. Arranje um melhor. Aproveita que este não é pai de nenhum filho seu, já facilita!”
“Não, não sei terminar com homem, nem adianta, fico sem graça. Prefiro que eles vão embora quando percebem que já não está bom. Sei lá. Não tenho coragem. Tive um – você não conheceu–, que se eu falasse qualquer assunto com ele na hora do jogo de futebol, ele dava um grito, xingava, ofendia, agredia verbalmente na frente de todo mundo. Mas mesmo assim quem terminou foi ele. Não sei o que é, não consigo”.
Agora, aos 51 anos, sempre esperando o amor que a valorizasse, que não a explorasse, que fosse parceiro, Diamantina morreu num hospital, com pneumonia. Talvez estivesse com imunidade baixa. Não tinha tempo pra se cuidar. Sempre incumbida do bem estar dos filhos e seu sustento. Isso ela conseguiu. Mesmo criando sua família em área de risco porque, abandonada pelo estado, conseguiu que ninguém fosse bandido.
Sua morte devastou meu coração. Sua história invisível e corriqueira é a do povo brasileiro pobre. É sobretudo a história da mulher preta, a grande invisível. Uma história com excesso de sacrifícios e poucos episódios de felicidade dentro de uma vida inteira. O abismo social, ou seja, a distância de minha vida para a dela torna ,para muitos como eu, inimaginável essa realidade.
A desigualdade garante a distância e o desprezo de uma vida sobre a outra se não quebramos o cordão da exclusão. Quem via Diamantina com sombras coloridas sobre os olhos, sempre perfumada, dentro de seu vestido estampado, a bunda dura dura, a pele preta brilhante, sua gargalhada alta, não pensava em tristeza.
Por isso, homens que me leem, estou tão preocupada com a necessária desconstrução que o conceito do masculino antigo tem exigido do homem moderno. Não teremos como seguir com alguma sanidade se continuarmos aceitando, plantando e desenvolvendo as sementes do ódio em nossos meninos. Isso é tão “encalacrador“, tão xeque mate quanto a crise climática.
O machismo tóxico fez muito mal aos homens, ao desenvolvimento de sua sexualidade, de sua sensibilidade, de sua delicadeza, de sua doçura… e consequentemente comprometeu – e compromete – a paz do mundo. O patriarcado passou com sua lâmina sobre as possibilidades dos homens doces, dos delicados, dos sensíveis.
Quantos poetas foram cobrados por não incitarem as guerras? Quantos pacifistas foram humilhados e constrangidos por não quererem brigas, socos de poder e outras violências? Gerações e gerações de homens foram deserdados da arte do cuidado, da arte de cuidar. Sobrou para nós, suas mulheres, suas irmãs, suas filhas! Suas vítimas. São muitas mulheres vítimas reais, violadas, assassinadas, agredidas, estupradas, desrespeitadas, ofendidas, abandonadas por estes seres que são o resultado da cultura perversa e machista à qual foram expostos desde sempre.
Mulheres que nos antecederam, principalmente as negras, mas não só, foram obrigadas ao casamento, ao sexo, aos filhos. As mulheres negras foram relegadas ao lugar de amantes como se fossem um feminino de segunda categoria, como uma pessoa que não merece respeito, nem amor, nem nada. Quantas dessas que, sabendo de suas poucas possibilidades matrimoniais, aceitaram ser parceiras de homens casados com outras para fugir da compulsória condenação à solidão?
Foi essa tampa que a morte de Diamantina destampou em mim. Lutou a vida inteira, trabalhou pelos filhos, acordou antes do sol pra arrumar a casa, preparar a comida para as crias, andou diariamente meia hora até o ponto de ônibus mais próximo, nunca contou com uma certeira pensão alimentícia, se escondeu inúmeras vezes com os filhos embaixo da cama para não serem baleados no fogo cruzado necropolítico entre polícia e bandido numa guerra onde sua vida vale nada, e partiu pra sempre sem desfrutar do amor que merecia e que sempre esperou. Amou cada pai de seus filhos, sonhou ser por eles escolhida, cuidada. Era muito romântica.
Sonhava em dividir a vida com um ser humano que pudesse chamar de companheiro, parceiro, e, principalmente, que a chamasse de seu amor.
Agora está chegando o dia da mulher e eu me pergunto: de que mulher? E me pergunto também pra onde vai mundo sem o espírito coletivista feminino no comando da civilização. Mesmo quando era o matriarcado nunca houve “clítoriscracia “ como existe a falocracia. Nossa natureza é fundada na empatia, na ética do cuidado, brincando de boneca, aprendendo a cozinhar, curar, zelar pelo outro. Por isso não fomos nós que inventamos as guerras e nem somos nós que estamos sentadas nas mesas do mundo decidindo-as.
Nesta crônica para nos homenagear, peço que reflitam, homens do meu tempo, para que cesse de vez o feminicídio e, para que cesse a rajada ininterrupta de opressão sobre os corpos e mentes femininos. Chega. Está claro que castigar uma mulher é castigar a Terra inteira. Você que me lê agora, como trata o feminino ao seu redor? Como sabe do que ela gosta? Como pode afirmar o que ela realmente quer? Na origem da humanidade estão a Terra e a África, como se fossem uma grande preta velha, a origem do mundo. E são.
Guardo em mim, até hoje, a imagem de Diamantina com Lelê no colo à procura de um serviço que a aceitasse com a criança. Tivemos a sorte de nos encontrarmos e cooperarmos uma com a vida da outra, mas eu nunca soube até hoje de nenhum pai que tenha ido pedir emprego com o filho no colo. O que será que isso nos diz? Se as mulheres cuidam até hoje de TODAS as fundamentais demandas dos dias da humanidade, porque não são todos os dias dias da mulher?