Uma viagem pelo mundo através de 15 livros curtos
Reunimos uma seleção de leituras curtas que capturam com complexidade as culturas e épocas em que foram escritas

A literatura é uma espécie de viagem por si só. Para quem deseja explorar a literatura mundial, a melhor maneira de fazer isso é se aventurar em uma seleção de obras curtas, que, apesar de seu tamanho reduzido, são capazes de condensar a complexidade histórica e cultural dos contextos em que foram escritas. Ao percorrer diferentes períodos e estilos, muitos desses livros foram capazes refletir as adversidades de seus tempos e, não por acaso, refletem sobre questões humanas universais. Clássicos como Sidarta, de Hermann Hesse, e Frankenstein, de Mary Shelley, seguem oferecendo debates profundos sobre a vida e a natureza humana. Obras contemporâneas, como Uma Mulher, de Annie Ernaux, que revisita a relação com sua mãe, e O Sol na Cabeça, de Geovani Martins, que retrata a realidade das favelas do Rio de Janeiro, também contribuem para o cenário literário atual, transportando o leitor para universos emocionalmente intensos e, mais importante, extremamente diversos. Confira a nossa seleção:
Sidarta (Record, 2019), Hermann Hesse

Publicado em 1922, Sidarta é um romance lírico de Hermann Hesse inspirado em sua viagem à Índia em 1911. A obra narra a trajetória de Sidarta, um jovem filho de brâmanes que, dotado de inteligência, beleza e carisma, embarca em uma busca espiritual profunda. Embora siga os ensinamentos de Buda, ele se mantém fiel à sua própria alma, enfrentando conflitos entre individualismo e iluminação. Ao longo de sua jornada, Sidarta se torna um asceta e vive um caso amoroso com uma cortesã, experiências que o levam a uma autocompreensão mais profunda. Este clássico de Hesse destaca-se por explorar dilemas humanos universais e pela sua influência na contracultura, abordando temas como autodescoberta e transcendência.
Frankenstein (Darkside, 2017), Mary Shelley

Publicado pela primeira vez em 1818, Frankenstein, de Mary Shelley, é um marco do romance gótico e um clássico essencial tanto para o terror quanto para a ficção científica. Criado durante um verão de 1816 na Suíça, enquanto Mary Shelley, seu marido Percy Shelley, Lord Byron e John William Polidori desafiaram-se a escrever histórias de terror, o livro narra a história de Victor Frankenstein, um cientista obcecado que dá vida a uma criatura feita a partir de partes de corpos humanos. Inspirada por diversas influências, como Paraíso Perdido e o Gênesis, Shelley construiu uma obra que explora questões morais, científicas e existenciais, tornando-se o primeiro mito dos tempos modernos e sendo continuamente publicada desde então.
A revolução dos bichos (Companhia das Letras, 2007)

A Revolução dos Bichos, publicada em 1945 após ser recusada por diversas editoras, é uma poderosa fábula de George Orwell que expõe, com ironia e precisão, os mecanismos de poder e opressão. Orwell traça paralelos explícitos: o autoritário Napoleão representa Stálin, enquanto o banido Bola-de-Neve simboliza Trotsky. A narrativa retrata expurgos, a criação de um estado policial e a manipulação histórica, espelhando os eventos políticos que ocorriam na União Soviética. Ao usar animais como protagonistas para denunciar os abusos e distorções do poder, Orwell revela de maneira magistral a crueldade e a corrupção que podem contaminar qualquer ideal.
A metamorfose (Companhia das Letras, 1997), Franz Kafka

A Metamorfose, de Franz Kafka, narra a perturbadora transformação do caixeiro-viajante Gregor Samsa, que desperta certo dia metamorfoseado em um gigantesco inseto. Essa mudança repentina e inexplicável não altera apenas sua existência, mas também o mundo ao seu redor. Confinado em seu quarto e rejeitado pela própria família, Gregor observa, com dor e perplexidade, as reações de seus pais e de sua irmã diante de sua nova condição. A repulsa e o medo que sua presença desperta expõem o abandono, a crueldade e a desesperança que moldam suas relações familiares. Enquanto luta para sobreviver e entender sua nova realidade, Gregor reflete sobre sua própria humanidade, seu isolamento e o peso da rejeição.
Noites brancas (Editora 34, 2009), Fiódor Dostoiévski

Noites Brancas (1848), de Fiódor Dostoiévski, conta a história de um jovem em São Petersburgo, que vive uma vida marcada pela solidão e pela fantasia. Em uma das noites brancas de verão, ele conhece uma jovem chamada Nástia, que está à espera de seu amado. Juntos, eles compartilham confidências e sonhos, mas o jovem acaba se apaixonando por Nástia, que, por sua vez, retorna ao seu noivo. A história explora temas como o amor não correspondido, o sofrimento emocional e a busca por significado na vida.
O conto da ilha desconhecida (Companhia das Letras, 1998), José Saramago

O Conto da Ilha Desconhecida, de José Saramago, narra a história de um homem que se apresenta diante do rei para pedir um barco e navegar até uma ilha desconhecida. Intrigado, o rei questiona como o homem pode saber da existência de tal ilha se ela é desconhecida. A resposta é simples e poderosa: todas as ilhas são desconhecidas até que alguém chegue nelas. Essa breve narrativa de Saramago funciona como uma parábola sobre a persistência, o desejo e a busca pelo inexplorado. Representa um hino ao sonho realizado, mostrando que a vontade e a determinação podem concretizar aquilo que inicialmente parece impossível. No entanto, o caminho para a realização do sonho é permeado por desafios e enfrentamentos com o estado consolidado das coisas, sugerindo que é da superação dessas adversidades que nasce o direito à concretização.
As cidades invisíveis (Companhia das Letras, 1990), Italo Calvino

Em As Cidades Invisíveis, Italo Calvino constrói uma narrativa onde Marco Polo, o explorador veneziano, descreve ao imperador Kublai Khan uma série de cidades que ele visita em suas viagens. No entanto, essas cidades não são concretas ou físicas, mas visões poéticas e filosóficas, manifestações de desejos, sonhos e realidades, e cada uma delas revela diferentes facetas da condição humana. Através de uma prosa lírica e sofisticada, Calvino entrelaça elementos de ficção, filosofia e reflexão sobre o tempo, a memória, o espaço e a identidade. Cada cidade apresentada no livro é única e, ao mesmo tempo, reflete uma multiplicidade de experiências e sentimentos humanos.
Ratos e Homens (L&PM, 2005), John Steinbeck

Publicado em 1937, Ratos e Homens é uma das obras-primas de John Steinbeck, um dos mais importantes romancistas do século XX. A história acompanha George e Lennie, dois amigos unidos pela amizade e pela exclusão social, que vagam pela Califórnia realizando trabalhos temporários durante a Grande Depressão. George é pequeno e astuto, enquanto Lennie é um homem forte, mas com a mente ingênua de uma criança. Sem família e vivendo na miséria, os dois sonham em conquistar uma vida melhor, mas encontram apenas exploração e situações que ameaçam sua frágil existência. Com personagens cativantes e realistas, Steinbeck expõe temas universais como a solidão e o desejo por uma vida digna, criando um clássico atemporal sobre o sofrimento e a resiliência humana.
Uma mulher (Fósforo, 2024), Annie Ernaux

A mãe de Ernaux, nascida no início do século 20, foi operária desde os doze anos e cultivava um orgulho imenso pelo seu ofício e pela sua busca pela independência. Ao lado do marido, abriu um café-mercearia onde trabalhou até a terceira idade. Leitora ávida e sempre estimulando os estudos da filha, tentava proporcioná-la o que ela própria nunca teve. Quando, viúva, passou a viver com Ernaux e seus filhos, as duas enfrentaram uma nova realidade: as diferenças sociais geradas pela ascensão da filha. Ernaux revisita os gestos, expressões e a inquietude de sua mãe, que manteve uma vivacidade imbatível até o fim da vida, quando foi acometida pelo Alzheimer e passou seus últimos dias em uma casa de repouso.
A hora da estrela (Rocco, 2020), Clarice Lispector

Publicado em 1977, A hora da estrela é o último romance de Clarice Lispector, marcado por uma escrita que desafia a realidade ao se afastar do tom intimista que consagrou sua obra. A narrativa conta a história de Macabéa, uma jovem nordestina miserável e sem consciência plena de sua própria existência. Após perder sua tia, único elo com o mundo, Macabéa se muda para o Rio de Janeiro, onde trabalha como datilógrafa e passa os dias ouvindo a Rádio Relógio. Ela se apaixona por Olímpico de Jesus, um metalúrgico que a trai com outra mulher. Em meio ao desespero, recorre a uma cartomante que lhe promete um futuro radiante — uma ilusão cruel diante da dura realidade que a aguarda.
O Alienista (Via Leitura, 2016), Machado de Assis

Publicado originalmente como folhetim na revista A Estação, O Alienista é um clássico de Machado de Assis que explora os limites entre loucura e sanidade com sua inconfundível ironia. A trama acompanha Simão Bacamarte, um médico renomado que funda um hospício chamado Casa Verde na cidade de Itaguaí, com o objetivo de aprofundar seus estudos sobre a mente humana. No entanto, sua busca obsessiva pela verdade científica leva à internação indiscriminada de cidadãos considerados insanos, espalhando terror e paranoia na pacata cidade. A revolta liderada pelo barbeiro Canjica contra o domínio do hospício revela o caos gerado por um homem obcecado por classificar e controlar a loucura. A obra já foi adaptada para o cinema, televisão, quadrinhos e teatro, permanecendo relevante como uma crítica sagaz à arrogância científica e às convenções sociais.
Olhos D’Água (Pallas, 2016), Conceição Evaristo

Olhos d’água, de Conceição Evaristo, reúne contos que revelam, com intensidade poética e realismo contundente, as dores e resistências da população afro-brasileira. A autora explora temas como pobreza e violência urbana por meio de personagens femininas poderosas: Ana Davenga, Duzu-Querença, Natalina, Luamanda, Cida e a menina Zaíta. Embora distintas, essas mulheres parecem formar um retrato múltiplo e caleidoscópico de uma mesma experiência coletiva. Suas histórias revelam mães, filhas, avós, amantes e seus desafios cotidianos, sempre equilibrando-se na “corda bamba do tempo”.
Um coração ardente (Companhia das Letras, 2012), Lygia Fagundes Telles

A coletânea Um Coração Ardente reúne dez contos de Lygia Fagundes Telles, publicados entre 1958 e 1981, cada um refletindo com precisão a complexidade dos sentimentos humanos e a relação, por vezes tortuosa, com o mundo ao redor. O título do livro é emprestado do primeiro conto, e a metáfora é fiel a toda a obra: um coração fervente, em busca de compreensão e, muitas vezes, de redenção. Em Um Coração Ardente, um jovem se apaixona por uma mulher sem saber de sua profissão, e tenta “salvá-la” com suas próprias idealizações. Em Biruta, a dor de um menino órfão é suavizada pela presença de seu cão, mas sua vida toma um rumo inesperado quando a família que o adota o trata como um fardo. Já em Emanuel, uma jovem solitária cria um amante fictício, mas sua invenção acaba ganhando vida e realidade de maneira surpreendente.
Quarto de despejo – Diário de uma favelada (Ática, 2015), Carolina Maria de Jesus

Quarto de Despejo, de Carolina Maria de Jesus, nasce do diário sincero e devastador de uma catadora de papel que relata sua dura realidade na favela do Canindé, em São Paulo. Com uma linguagem simples e poderosa, Carolina descreve sua luta diária pela sobrevivência enquanto cria seus três filhos em meio à fome, pobreza e exclusão. O livro emociona pelo realismo cru e pela sensibilidade de quem narra com autenticidade o que viu, viveu e sentiu, revelando as injustiças sociais de uma forma profundamente humana e universal.
O sol na cabeça (Companhia das Letras, 2018), Geovani Martins

Com O sol na cabeça, Geovani Martins trouxe uma nova voz ao realismo da literatura brasileira, explorando a infância e adolescência de garotos que crescem nas favelas do Rio de Janeiro. Em seus treze contos, o autor apresenta um retrato vívido e sensível da vida em meio à violência e à discriminação racial, mas também das alegrias e experiências típicas da juventude: o prazer dos banhos de mar, as brincadeiras de rua, as paqueras e os baseados.
Ideias para adiar o fim do mundo (Companhia das Letras, 2020), Ailton Krenak

Ailton Krenak, nascido na região do vale do rio Doce, um local profundamente impactado pela mineração, oferece uma crítica contundente à visão de humanidade como algo separado da natureza. Para o líder indígena, a ideia de uma “humanidade que não reconhece que aquele rio que está em coma é também o nosso avô” está na raiz dos desastres socioambientais que caracterizam a era do Antropoceno. Ele desafia a concepção de que todos somos iguais, argumentando que somente o reconhecimento da diversidade e a recusa da ideia de que o humano está acima dos outros seres vivos podem ressignificar nossas existências e frear a marcha insensata que nos leva ao abismo.