30 anos sem Tom Jobim
Ícone da bossa nova morreu em dezembro de 1994 deixando um legado musical imensurável

Em 1994 o Brasil sofreu a perda irreparável de dois grandes ídolos. Em maio, Ayrton Senna e quando ainda não tínhamos nos recuperado do choque, no final do ano, inesperadamente, perdemos Antônio Carlos Jobim. Três décadas depois, os dois seguem despertando paixões e respeito por todo o mundo, e o vácuo deixado por eles, não tem como ser preenchido.
Na minha memória fica um sentimento amoroso de lembrar o quanto era fácil andar por Ipanema, Gávea ou Leblon, no Rio de Janeiro, e esbarrar com o compositor brasileiro que fez a trilha sonora da cidade e do país. Tom Jobim, como era mais conhecido, foi um dos músicos mais influentes do século 20 e é, ainda hoje, um dos mais ouvidos. Apenas no Spotify, sua música tem cerca de 30 milhões de ouvintes mensais, entrando em dezembro de 2024, quando estamos completando 30 anos sem sua presença. Por isso afirmamos: ele faz muita falta. Afinal, poucos artistas conseguiram unir sofisticação musical, alcance popular e relevância cultural como ele. Mais do que um músico, Jobim foi um arquiteto sonoro que colocou a música brasileira no mapa global, transformando-a em um idioma universal.
Do nascimento da Bossa Nova ao reconhecimento internacional, suas contribuições vão além de melodias imortais. Ele personificou uma visão artística que mesclava poesia, ecologia e inovação, deixando um legado que resiste ao tempo.
Nascido em 1927, no Rio de Janeiro, Antônio Carlos Brasileiro de Almeida Jobim tocava violão e piano desde pequeno, circulando pela zona sul da capital carioca. Seus primeiros passos profissionais foram como Arquiteto (afinal, as expectativas familiares não eram as de que ele fosse boêmio ou músico), mas, segundo ele mesmo contou anos depois, a música e o estilo de Duke Ellington o fizeram mudar de ideia e se dedicar à música integralmente. Logo estava se apresentando em “inferninhos” cariocas e sendo identificado como um grande talento.
De tocar composições dos outros para criar suas próprias, foi rápido, e já no final dos anos 1940 ele já era compositor, também trabalhando como arranjador para uma grande gravadora brasileira, acumulando prestígio e reconhecimento por seu trabalho. No final dos anos 1950, já como diretor musical da Odeon Records, Jobim passou a colaborar com João Gilberto e Vinicius de Moraes, inventando um som que misturava samba e jazz e que foi batizado como bossa nova, um gênero que viria não apenas definir a música brasileira como elevá-lo ao estrelato mundial.

Suave e sofisticada: a Bossa Nova
Nos anos 1950, a música brasileira vivia um momento de transição, mas Jobim estava no auge criativo. Entre o samba tradicional e as influências internacionais, ele foi pioneiro em unir o samba tradicional ao jazz americano, com um som que tinha bossa e era novo. O gênero intimista e refinado uniu o melhor desses mundos, com o nome de Antônio Carlos Jobim sendo vital para “arquitetar essa revolução”.
Tudo começou com “Chega de Saudade”, composta por Jobim com letra de Vinicius de Moraes, gravada por João Gilberto em 1958. Essa canção é considerada o marco zero da Bossa Nova e destaca a delicadeza dos arranjos de Jobim e sua harmonia sofisticada. Foi sucesso imediato.
“Chega de Saudade” deu início a uma série de obras-primas que consolidaram o gênero. O estilo descontraído, marcado por melodias suaves e letras poéticas, refletia o Brasil de um período otimista e esperançoso.
A Bossa Nova também pintou um Rio de Janeiro idealizado, calmo, sexy, transformando bairros como Copacabana, Gávea, e sobretudo Ipanema, como referências pop e sofisticadas. O parceiro mais relevante desse período, além de Gilberto, foi o poeta Vinicius de Moraes. Juntos, criaram clássicos como “Garota de Ipanema” (que rendem um Grammy e é até hoje uma das músicas mais gravadas na história), “Insensatez” e “Águas de Março”, para citar apenas três. A colaboração dos dois foi crucial para a consagração da música brasileira. O sucesso da Bossa Nova se tornou tão forte que Frank Sinatra gravou dois álbuns com Jobim, popularizando a Bossa Nova mundialmente.

Trilhas sonoras marcantes
Antes da Bossa Nova, ou melhor, paralelamente ao movimento, a música de Jobim também deixou marcas no cinema brasileiro. O musical “Orfeu da Conceição”, de Luís Bonfá, tinha composições suas com Vinicius. O filme reconta o mito de Orfeu no cenário do Carnaval brasileiro, incluía o clássico “Felicidade” e, em 1959, quando foi transformado em filme (“Orfeu Negro”), venceu o Oscar de Melhor filme Internacional (foi considerado uma produção francesa) e a Palma de Ouro em Cannes. O sucesso do filme também ajudou a divulgar a música brasileira no exterior. Além disso, Jobim compôs a trilha sonora do curta-metragem “Agnus Dei”, em 1960, dirigido por Claudio Cavalcanti e para o filme “Gabriela”, em 1983.
Indiretamente, a música de Jobim está muito presente em Hollywood: “Garota de Ipanema” foi usada em filmes como “A Cor do Dinheiro” (The Color of Money – 1986), “Prenda-me se for Capaz” (Catch Me If YouCan – 2002), “V de Vingança” (2005) em ter outros.

As sinfonias e o ambientalismo
Além de canções populares, Tom Jobim investiu seu talento em projetos mais complexos, como Matita Perê (1973), um álbum que combina música brasileira, jazz e música erudita e Urubu (1976), um trabalho que reflete seu amor pela natureza e explora temas mais densos, com arranjos orquestrais sofisticados.
Apaixonado pela natureza e a diversidade da fauna e flora brasileiras, ele inseriu em sua obra sua visão romântica e ecológica, antecipando discussões modernas sobre a preservação ambiental, porque ele acreditava que a música era uma forma de celebrar e preservar a natureza.
Seu sítio em Poço Fundo era um refúgio onde ele encontrava inspiração. A conexão com o meio ambiente foi uma constante em sua obra, antecipando discussões sobre sustentabilidade e ecologia.
Documentário
Estou sendo tão breve o quanto possível para falar do impacto desse legado, mas a vida e a obra de Jobim também são exploradas em documentários como “A Música Segundo Tom Jobim” (2012), dirigido por Nelson Pereira dos Santos e Dora Jobim, que celebra sua contribuição não apenas à música, mas também à sua influência cultural. Vale buscar e conferir!
A morte inesperada em 1994
O Brasil estava no paradoxo de luto e festa quando 1994 estava chegando ao fim, após a morte de Senna, no futebol a Seleção Brasileira quebrou o jejum de 24 anos e voltou a ser campeã mundial. Nesse cenário, quando Jobim viajou para Nova York para um tratamento de artérias bloqueadas, ninguém noticiou ou se preocupou em especial. Seria uma cirurgia delicada, mas também um procedimento conhecido por isso, quando em 8 de dezembro ele morreu por insuficiência cardíaca no Mount Sinai Medical Center, em Manhattan, foi outro choque. Tom Jobim tinha 67 anos, muitas décadas à sua frente. Por isso, nesse triste marco, sua ausência ainda é muito sentida, mesmo que deixando um legado imensurável.
Sua música transcendeu fronteiras, unindo sofisticação e acessibilidade de forma única, mas, mais do que um músico, Antônio Carlos Jobim foi um embaixador cultural, que mostrou ao mundo a beleza e a riqueza da música brasileira. Seu nome permanece sinônimo de excelência artística, e sua obra, uma celebração da poesia, da natureza e da humanidade. E deixou muita saudade.
