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Como Oasis definiu uma geração e se tornou um fenômeno global

Depois de 15 anos de afastamento, a banda Oasis está de volta numa turnê bilionária que vai terminar com duas apresentações em São Paulo, em novembro

Por Ana Claudia Paixão Materia seguir SEGUIR Materia seguir SEGUINDO
13 jun 2025, 07h00 •
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Liam Gallagher (2009)  (Ana Claudia Paixão/fotografia)
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  • Poucas bandas conseguiram capturar o espírito de seu tempo com tanta intensidade quanto o Oasis. Surgido em Manchester no início dos anos 1990, o grupo liderado pelos explosivos irmãos Gallagher tornou-se sinônimo de uma era dourada do rock britânico — marcada por arrogância, irreverência, refrões gigantescos e uma confiança que beirava o delírio messiânico. Enquanto o grunge americano mergulhava em angústia, o Oasis olhava para cima, para os Beatles, e perguntava: “Don’t you know you might find / a better place to play?” (você não sabe que talvez possa encontrar um melhor lugar para tocar?, em tradução livre).

    O álbum de estreia, em 1994, foi Definitely Maybe, que já mostrava o poder da banda, mas foi no ano seguinte, com o segundo álbum, (What’s the Story) Morning Glory? (1995), que o grupo se tornou um fenômeno global. Gravado em apenas 12 dias, inclui hits como Wonderwall”“Don’t Look Back in Anger”“Some Might Say” e “Champagne Supernova”. E com ele, o Oasis transformou-se na trilha sonora não apenas da juventude britânica pós-Thatcher, mas de jovens do mundo inteiro. O britpop tinha seu rei, e a arrogância dos Gallagher era quase um manifesto cultural: ser grande, ser barulhento, ser invencível.

    Como falei, em outubro de 1995, quando What’s the Story Morning Glory? chegou às lojas, o cenário musical internacional estava dividido entre resquícios do grunge — que perdera força após a morte de Kurt Cobain em 1994 — e o pop plastificado da MTV americana. O rock alternativo ganhava espaço com bandas como Radiohead e Smashing Pumpkins, enquanto o hip-hop explodia nos Estados Unidos. No Reino Unido, no entanto, o momento era outro: uma verdadeira batalha cultural e estética se desenrolava entre o Blur e o Oasis, símbolo máximo do que se convencionou chamar de “Britpop”.

    O britpop não era apenas um som — era uma afirmação de identidade. Sotaques regionais não eram mais escondidos em busca de neutralidade global; referências à vida cotidiana inglesa, pubs, futebol e resignação poética tornavam-se bandeiras. O Oasis era a vertente mais crua, arrogante e direta desse fenômeno. Em contraste com a ironia art-pop do Blur, os irmãos Gallagher traziam guitarras pesadas, letras emocionalmente ambíguas e melodias que flertavam com os Beatles, mas com uma alma mais suja — mais Manchester do que Liverpool.

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    What’s the Story Morning Glory?, lançado pouco mais de um ano após a estreia arrebatadora de Definitely Maybe, não apenas superou seu antecessor como se tornou o álbum que redefiniu a década para uma geração inteira. Foram mais de 22 milhões de cópias vendidas, várias faixas número 1 no Reino Unido e uma presença constante nas rádios e festivais do mundo todo — inclusive no Brasil, onde a banda viria a tocar três vezes entre os anos 2000 e 2009, antes de brigarem e se separarem.

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    Oasis (2009) (Ana Claudia Paixão/fotografia)

    As faixas mais icônicas e seus significados

    Entre as canções mais tocadas e celebradas do disco, quatro se destacam não apenas pelo sucesso, mas pela forma como cristalizam a alma do Oasis:

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    Wonderwall: A canção mais famosa do grupo, um hino tocado em festas, casamentos e shows até hoje. Especula-se que Noel Gallagher a escreveu para sua então namorada, Meg Mathews, embora ele depois tenha dito que era “sobre um amigo imaginário que vai te salvar de você mesmo”. O nome vem de um disco solo de George Harrison, e a influência beatle é explícita. “Wonderwall” virou uma metáfora para um amor idealizado, redentor e impossível — e talvez também para o próprio desejo de Noel de escapar de sua vida caótica.

    Don’t Look Back in Anger: Primeira música do Oasis com Noel nos vocais principais, virou uma espécie de mantra para tempos difíceis. Depois dos atentados de Manchester em 2017, por exemplo, a canção foi espontaneamente entoada por multidões como símbolo de resistência e união. A abertura ao piano é inspirada em “Imagine”, de John Lennon, e a letra convoca uma entrega à paz interior — uma ironia vinda de uma banda tão marcada por conflitos. 

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    Champagne Supernova: A faixa que encerra o álbum em tom quase psicodélico, com sete minutos de duração e uma estrutura que cresce em intensidade. As letras são enigmáticas, mas evocam um sentimento de transcendência. O título — que une um símbolo de luxo (champanhe) com um colapso estelar (supernova) — resume bem o espírito do Oasis: grandioso, explosivo, autodestrutivo e poético.

    Morning Glory: A faixa-título é agressiva e ruidosa, uma ode ao hedonismo e à energia das ruas. O riff marcante é um dos mais potentes da banda, e a letra (“All your dreams are made / When you’re chained to the mirror and the razor blade”) não esconde referências ao uso de drogas e à alienação da fama. É a face mais escura e provocativa do álbum.

    Outras faixas como Some Might Say e Cast No Shadow também merecem destaque. A primeira foi o primeiro número 1 da banda nas paradas britânicas e carrega uma energia otimista, enquanto a segunda é uma homenagem ao cantor Richard Ashcroft (do The Verve) e trata da luta interna de artistas que se sentem consumidos pela pressão.

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    Noel Gallagher em show de 2009 (Ana Claudia Paixão/fotografia)

    Uma crítica ambígua e a consagração popular

    Na época do lançamento, What’s the Story Morning Glory? foi recebido com certo ceticismo por parte da crítica musical. Alguns veículos acusaram o álbum de ser repetitivo, simplório ou derivativo — uma sombra do que o rock britânico já havia feito. Mas o público não deu ouvidos. O disco foi um sucesso instantâneo, e em poucos meses o Oasis se tornava um fenômeno global, arrastando multidões e vendendo milhões de discos.

    Com o tempo, as avaliações mudaram. Em 2010, o álbum foi eleito pela Q Magazine como o maior disco britânico de todos os tempos. E em 2020, entrou na prestigiosa lista dos 500 maiores álbuns da história da Rolling Stone. O que antes era acusado de excesso agora é reconhecido como síntese: Morning Glory captura o sentimento coletivo de uma juventude ansiosa por voz, autenticidade e catarse. Alguém duvida de como cantaremos o refrão a todo volume em novembro no MorumBis?

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    Liam Gallagher (2009) (Ana Claudia Paixão/fotografia)
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    Legado e expectativa: por que ainda falamos dele?

    Passadas quase três décadas, o álbum continua a reverberar. Ele representa uma época em que o rock ainda ocupava o centro da cultura pop, quando bandas moldavam comportamento, moda e política. E o Oasis, com toda sua rebeldia, arrogância e franqueza, se tornou a última grande banda a combinar sucesso comercial estrondoso com culto quase religioso por parte dos fãs.

    Em 2025, com a tão esperada reunião da banda e a turnê mundial, cresce a esperança de que, além da nostalgia, venha também um novo disco. E quem sabe, uma reconciliação definitiva entre Noel e Liam Gallagher, os “príncipes briguentos” do rock britânico, cuja relação conturbada é quase tão lendária quanto a própria música. E vou falar: as fotos que estão no artigo foram tiradas por mim no último show dos dois juntos por aqui, no Rio de Janeiro, em 2009. Foi virtualmente impossível conseguir capta-los juntos ou sequer olhando um para o outro. E tentei muito! 

    Nos anos seguintes, tanto Noel como Liam passaram por aqui. Liam inclusive, voltou primeiro com a banda Beady Eye e depois solo (e claro que vi todas as vezes, a última foi em 2022). Separados são ótimos, mas juntos? Impossível de perder. Assim, lembrar os 30 anos de What’s the Story Morning Glory? não é apenas um álbum. É um marco cultural. Um lembrete de quando o rock unia, inflamava e definia gerações — e ainda pode fazer isso de novo.

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