Quem foi Maria Callas? Conheça seu legado em 7 árias
La Divina dizia que tudo que precisávamos saber dela estava na música que cantava; Aqui estão sete árias mais icônicas na discografia do soprano

Em dezembro de 2023 completou o centenário do nascimento de Maria Callas, mas foi o fato de Angelina Jolie interpretá-la no cinema que sua historia despertou interesse em novas gerações. O soprano, uma das artistas mais influentes e significativas do século 20 foi um enigma para muitos fãs, e ela costumava dizer que tudo que precisávamos saber dela estava na sua Arte, na sua música. E é verdade.
A interpretação e alcance de Callas no auge eram únicos e sua dedicação e perfeccionismo ajudaram a popularizar a ópera fora de seu universo. Entre os especialistas, há que prefira outros sopranos, mas apenas Maria quebrou barreiras com seu talento e sua personalidade. Por conta dela, ópera passou a ser pop. Também passou a ser a referência da expressão “Diva”, com outra proporção: desde de divina, o que era, à difícil, que muitos também se queixavam ser.
Para Callas, a Arte vinha antes de tudo. Para Maria, a vida e o amor vieram depois. O filme de Pablo Larraín não explora (ou contextualiza) uma série de fatos que apenas quem já sabia da trajetória da artista poderia entender. Um deles foi a transformação física que fizeram de Maria Callas para que ela se tornasse uma referência fashion, embora muitos apontem à essa transformação como uma das causadoras do “fim de sua voz” ao longo do tempo.
A verdade é que enquanto estava no palco ela era La Callas e até hoje é inspiradora. Maria se apaixonou por Aristóteles Onassis, cuja personalidade detestável trouxe igual dor e insegurança como amor. O relacionamento instável dos dois é assunto de novela, mas para ela era o amor verdadeiro. Maria “morreu espiritualmente” em 1975 quando Onassis se foi e nos dois últimos anos de sua vida foram praticamente de reclusão e depressão. Quando foi encontrada sem vida em seu apartamento, em 1977, surgiu o mito de ter sido por amor. Uma ideia trágica e romântica, como Maria Callas sempre foi em sua essência, mas deturpada. Sua morte foi mesmo por problemas cardíacos e dependência de remédios.
O filme “Maria” tentou ser menos óbvio ao selecionar a parte musical, o que é uma pena. Há muita complexidade na biografia de Maria Callas. Mas sua música? É direta. E sim, para conhecê-la, é melhor a música. Aqui separei sete árias mais icônicas na discografia do soprano.
Casta Diva, de Norma
Há várias gravações de Maria Callas no papel principal, um de seus favoritos. “Casta Diva” com ela é uma conexão garantida com outra dimensão. Maria Callas interpretou “Norma” nada menos do que 89 vezes, sendo seu papel mais repetido em toda carreira, rivalizando em lembrança, claro, com “Tosca”.
Na ópera, Norma é a sacerdotisa chefe dos druidas que lidera seu povo em uma prece à deusa da lua, pedindo paz e, eventualmente, ajuda para conquistar os romanos, justamente antes da guerra que está prestes a estourar. É uma peça desafiadorae considerada uma das peças mais difíceis já escritas para uma voz de soprano. Ela requer uma voz com grande alcance, flexibilidade e a habilidade de cantar passagens emocionais dramáticas.
Ritorna vincitor!, de Aída
Na gravação de 1951, no papel principal, Maria alcança a impossível nota de Mi Bemol que é lendária. A versão mais ouvida é a de 1955, onde sua atuação também é considerada perfeita.
“Aída” é uma ópera sobre uma jovem escravizada que se apaixona por um herói militar que conquistou seu povo. “Ritorna vincitor” é famosa porque desafia os cantores tecnicamente como poucas.
Il dolce suono, de Lucia di Lammermoor
“Lucia di Lammermoor” é um de seus mais aclamados papéis, em especial, na da cena de loucura. A gravação de 1953 também registra seusparceiros mais famosos de palco: Giuseppe diStefano e Tito Gobbi. Um trio feito nos Céus.
A ária do 3º ato é quando Lucia desce à loucura e, na noite de núpcias, esfaqueia seu novo marido, Arturo. Sem saber o que fez, ela vagueia pelo Grande Salão, relembrando seus encontros com seu grande amor, Edgardo e imaginando casada com ele. Como era uma grande atriz, Callas fez dessa peça uma de suas mais famosas. Em geral, os fãs de cinema lembram dela no filme O Quinto Elemento.
Vissi D’Arte, de Tosca
De todos os papéis, o de Floria Tosca talvez seja “O” papel de Callas, em especial quando canta a ária “Vissi D’Arte” (Vivi para a Arte) cuja letra e lamento são como confissões pessoais do soprano.Como esperado, é o momento mais marcante no filme “Maria” e sempre – nos palcos ou filmes – é o hino pessoal do soprano, tanto que muitos dizem que Callas não “cantou”, mas “foi” Tosca.
“Vissi d’arte“ está no segundo ato e exige que a inérprete use suas notas mais altas, bem como as mais baixas, para descrever seus sentimentos de angústia e ódio, onde canta sobre as duas grandes forças motrizes em sua vida: amor e música. Assim como Callas.
Sempre Libera, de La Traviata
Personagens trágicas eram as favoritas de Callas, claro, e a romântica Violetta Valéry obviamente liderava seu ranking entre as mais famosas e icônicas. Foram 63 interpretações do clássico de Giuseppe Verdi, com seis das sete gravações registradas ao vivo. Ela mesma gostava mais da gravação (pirata) de 1958, em Portugal, mas alguns elegem a de 1953 como a melhor.
Além disso, a ária é respeitada por ser tecnicamente exigente com linhas vocais impressionantes, exibindo a virtuosidade e complexidade. É uma peça dramática e emocionalmente impactante tanto para a cantora quanto para o público. No caso de Callas, que mais tarde passou pelo mesmo dilema de escolher a liberdade e ser feliz, é especialmente marcante.
Ebben? Ne andro lontana, de La Wally
A ópera “La Wally” tem maior popularidade por ser uma das que Maria Callas amava. Gravou uma das versões mais conhecidas da ária “Ebben? Ne androlontana” em 1954, no auge de sua potência vocal. Sempre emocionante.
A história da ópera se passa no Tirol austríaco, onde a livre, mas vulnerável Wally está apaixonada pelo belo Giuseppe Hagenbach. No entanto, seu pai, Stromminger, quer que ela se case com Vincenzo Gellner. Ela se impõe e deixa a família (quando canta a ária famosa), mas no final Hagenbach e Wally são mortos por uma avalanche.
No caso da ária, as letras são sobre uma triste despedida, com Wally lamentando ir para longe e não voltar mais. Nos documentários, em geral, usam essa interpretação de Callas quando falam de sua morte.
Ah! non credea mirarti, de La sonnambula
“Ah! non credea mirarti” faz parte da ópera “La Sonnambula” e ganhou popularidade quando foi cantada por Maria Callas em 1955. Na peça de teatro “Masterclass”, é a trilha sonora para o momento em que Maria lamenta o fim do romance com Onassis, e chora por nunca ter sido mãe.
Essa ária, cantada pela personagem Amina, a sonâmbula do título, é do 2º título, quando sua condição é revelada e, embora “dormindo”, canta seu amor por Elvino. No século 19, o sonambulismo era algo que assustava as pessoas e estava presente em muitas óperas, balés e peças como “Macbeth”. Em “La Sonnambula”, a história ambientada em uma vila suíça, o hábito de sonambulismo de Amina assustou os moradores, que acreditam que há um fantasma assombrando sua vila. Pior ainda, uma noite ela se deita na cama errada e esse escândalo pode destruir seu relacionamento com seu noivo, Elvino. Quando canta “Non Credea” do alto do telhado, todos testemunham sua condição e isso leva à sua exoneração e ao feliz restabelecimento de seu noivado.
O que conecta a ária à Callas é a letra que é uma pérola para quem tem o coração partido como ela. A letra começa com “Eu não acreditava que te veria murchar tão cedo, ó flor”, simbolizando o amor perdido que nem lágrimas não podem reavivar. Perfeito. A frase também está inscrita no túmulo de Bellini na Catedral de Catania, na Sicília.