Como Stravinsky e Prokofiev revolucionaram a música na dança e no cinema
Obras como "Romeu e Julieta" e "A Sagração da Primavera" desafiaram convenções musicais de seu tempo como inspiram compositores e diretores até hoje

Em 2024, ainda impactada pelo documentário A Música de John Williams, voltei às minhas trilhas sonoras preferidas e playlists também (que não têm nem a metade do que tenho em CD) porque nada como a maturidade para entender o passado. Tenho que confessar que nos tempos em que dancei balé, não curtia as músicas de Prokofiev ou Stranvinsky, preferia as “melodias fáceis” de Tchaikovsky, Adam, Delibes e Minkus, que – à parte de Tchaikovsky – não eram sinfônicos ou aparentemente complexos.
Na ópera a mesma coisa, mil vezes ouvir Puccini e Verdi antes de Wagner. Podem me xingar, mas peço para seguirem comigo um pouco mais. No entanto, há muitos anos, já mudei a minha opinião sobre Prokofiev justamente por conta do meu amor ao cinema e hoje considero suas melodias entre algumas das mais belas que ouvi. Foi uma jornada pessoal para chegar até aqui.
Cheguei atrasada, porque ao longo do último século, a música clássica moldou o universo das trilhas sonoras cinematográficas de maneiras profundas e inesperadas. Igor Stravinsky e Sergei Prokofiev não apenas desafiaram convenções musicais de seu tempo, mas também inspiraram diretores e compositores a criarem sons que capturam a complexidade e a intensidade das emoções na tela. Alguns deles bem próximos ao plágio, podemos argumentar. E das dissonâncias que aumentam a tensão ao lirismo que enriquece cenas de amor ou de perda, a herança desses mestres ecoa em filmes que vão de grandes clássicos a produções contemporâneas. Me proponho aqui explorar como a composição clássica transformou a forma como ouvimos e vivenciamos o cinema.
Prokofiev abriu o caminho
Uma vez que o cinema foi criado apenas em 1895, com os irmãos Lumière, até que o som entrasse efetivamente na narrativa se passaram outros 35 anos, e, nesse período, a música era tocada ao vivo nos cinemas, em um piano, sem peças específicas escritas para os filmes. Ou seja, estamos falando dos anos 1930 e nesse período, tanto Prokofiev como Stravinsky já eram compositores renomados e respeitados.

Em 1938, no auge da Segunda Guerra Mundial, o diretor russo Sergei Eisenstein filmou e lançou o épico Alexander Nevsky, uma produção considerada uma espécie de propaganda anti-alemã e cujo brilhantismo é tão arrebatador que é um dos filmes mais influentes de todos os tempos. Ele retrata a história do príncipe homônimo que, em 1242, liderou o exercito russo contra a invasão dos Cavaleiros teutônicos.
Eisenstein convidou Prokofiev para fazer a trilha sonora. O compositor aceitou e sua música passou a influenciar as trilhas sonoras desde então. Sim, são 86 anos ainda sendo moderna e inspiração para muitas séries e filmes que vemos até hoje. O trabalho dele em Alexander Nevsky é considerado uma das primeiras trilhas a combinar música e imagem de maneira mais integrada, com temas que servem não apenas como fundo musical, mas como uma extensão da narrativa visual. Prokofiev utilizou temas claros e memoráveis, mas com uma complexidade orquestral que dava profundidade emocional, influenciando diretores e compositores a usar a música para moldar o drama, a tensão e a ação na narrativa.
Seu estilo melódico e o uso expressivo da orquestra inspiraram compositores como Jerry Goldsmith, Patrick Doyle e James Horner, que incorporaram a sensibilidade dramática de Prokofiev em temas heróicos e momentos de introspecção nas trilhas sonoras modernas.
Por isso e muito mais que Sergei Prokofiev é, seguramente, um dos compositores mais influentes do século 20. Como já mencionei, o compositor tinha um talento único para criar temas claros e cativantes que comunicavam diretamente o caráter de uma cena ou personagem, mas, ainda mais importante, suas melodias são simples e memoráveis, algo que é essencial para trilhas sonoras. Um exemplo claro é o seu Pedro e o Lobo, onde cada personagem é representado por um tema e instrumento específico, de maneira muito visual e quase cinematográfica. Muitos compositores citam essa peça como uma das mais importantes em seus estudos.
Outra qualidade a destacar é que Prokofiev era um mestre em criar tensões dramáticas através da música. No balé Romeu e Julieta, ele capturou o conflito e a intensidade emocional dos personagens com orquestrações que oscilam entre momentos delicados e violentos. E mesmo ali sua música é altamente visual e capaz de evocar fortes emoções, algo que se adapta perfeitamente ao cinema. Essa capacidade de criar momentos emocionais tão impactantes foi uma das razões para seu sucesso em trilhas sonoras, como a de Alexander Nevsky, onde a música amplifica a narrativa visual e a torna ainda mais poderosa.
Uma das inovações também foi através da orquestração rica e variada, usando timbres e combinações de instrumentos de maneiras únicas. Ele utilizava o peso da orquestra completa para criar grandiosidade e impacto, mas também sabia explorar momentos mais íntimos e melancólicos.
Sua habilidade em balancear intensidade e sutileza permitia que ele moldasse cenas inteiras somente com a música. Compositores de cinema aprenderam com ele a usar a orquestra para acentuar a ação e as emoções dos filmes. Jerry Goldsmith, por exemplo, usou ideias orquestrais similares em trilhas como a de Planeta dos Macacos e Alien, onde a música cria tanto uma atmosfera emocional quanto uma tensão quase física.
Prokofiev também é conhecido por seu uso expressivo do ritmo. Ele muitas vezes usava ritmos fortes, pulsantes e irregulares, o que dava uma sensação de energia e movimento constante à sua música. Em obras como o Concerto para Piano No. 3 e a Sinfonia Clássica, ele explorou essa vivacidade rítmica, mantendo a música envolvente e cheia de “urgência”. Essa energia rítmica é especialmente útil em filmes de ação e aventura, onde a música deve acompanhar cenas de ritmo acelerado.
Não podemos esquecer outro aspecto brilhante de Prokofiev é seu uso de humor e ironia em suas composições. Ele frequentemente brincava com temas e estilos musicais, introduzindo uma leveza e um toque sarcástico em sua música. Esse lado de sua personalidade musical é evidente em peças como a Sinfonia Clássica, onde ele presta uma homenagem irônica ao estilo clássico de Haydn, mas com uma orquestração moderna e cheia de surpresas.
Esse senso de humor e ironia foi aproveitado no cinema para criar trilhas que vão além do simples acompanhamento e adicionam camadas de complexidade aos personagens e cenas. Compositores como Danny Elfman, que frequentemente cria trilhas excêntricas, são claramente influenciados por essa qualidade de Prokofiev.
As raízes culturais russas ultrapassaram fronteiras porque Prokofiev também era hábil em incorporar elementos de música popular e folclórica russa em suas composições, o que trazia uma sensação de autenticidade e familiaridade. Isso é especialmente notável em Alexander Nevsky, onde ele usa temas populares para dar à trilha um senso de herança cultural e patriotismo.
Essa abordagem de utilizar temas culturais e folclóricos para evocar o ambiente ou o contexto de uma história foi replicada por muitos compositores de cinema. Por exemplo, Ennio Morricone usou temas folclóricos e tradicionais para evocar paisagens específicas em filmes de faroeste e Patrick Doyle, espelhando a inspiração de Nevsky na direção de Kenneth Branagh em Henrique V, combina a técnica russa com melodias e temas essencialmente britânicos.
Pois é, a trilha de Alexander Nevsky foi efetivamente um marco na música de filmes. Não apenas porque era inovadora, mas porque Prokofiev escreveu a trilha em colaboração estreita com Eisenstein, e juntos criaram uma obra onde a música não é apenas um pano de fundo, mas uma força narrativa. Este modelo influenciou diretamente o modo como as trilhas sonoras começaram a ser vistas e trabalhadas e funciona assim até hoje.
Com a Sagração da Primavera, Stravinsky mudou tudo
Eu sempre associo modernidade ao som de Stravinsky, raramente conseguindo compreendê-lo e frequentemente sem saber cantarolar uma única música sua. Exagero, algumas eu consigo, mesmo que poucas.
Quando a estreia do balé A Sagração da Primavera causou tanta polêmica em 1913, o ‘fracasso’ ficou na conta do coreógrafo, Vaslav Nijinsky, mas muitos bailarinos consideravam que a partitura jamais poderia ser traduzida em dança para começar.
Os críticos olham para a música com fascínio por introduzir há 112 anos dissonâncias intensas, ritmos complexos e uma exploração ousada da orquestração que até hoje é copiado. Este estilo vigoroso e inesperado também inspirou trilhas sonoras que buscam causar impacto emocional e intensidade dramática. Bernard Herrmann, em Psicose e John Williams em Tubarão (citando apenas um título para cada) adotaram esses elementos para criar momentos poderosos e de suspense em suas trilhas, inspirando-se na liberdade rítmica e nos acordes dissonantes de Stravinsky para cenas de ação, horror e mistério.
Falando em trilhas sonoras, Stravinsky foi pioneiro na ideia de criar música com movimentos musicais autossuficientes, o que encorajou compositores de cinema a usar temas específicos para representar personagens ou emoções de maneira independente da narrativa direta.
O brilhantismo de A Sagração da Primavera reside mesmo em sua abordagem inovadora, ousada e disruptiva para a música clássica. Stravinsky apostou em quebrar as normas do ritmo tradicional ao introduzir compasso e métrica instáveis, alternando frequentemente entre tempos e assinaturas de compasso de maneira inesperada.
A peça é marcada por pulsos rítmicos intensos e complexos, especialmente no uso de ostinatos(padrões rítmicos repetitivos) que criam uma sensação de brutalidade e primitivismo. Esse uso inovador de ritmos irregulares criou uma energia visceral que evoca uma sensação de ritual ancestral e selvagem, que era o tema central da peça. Williams usou esse conceito tanto em Star Wars como Tubarão, por exemplo.
O compositor russo também usou harmonias extremamente dissonantes e clusters de notas para criar uma tensão quase palpável, uma característica rara em seu tempo. Essas dissonâncias não eram apenas “incômodas”, mas também criavam uma intensidade emocional única, associada ao conflito e ao estranhamento. Em vez de resolver as dissonâncias em consonâncias, como era comum, Stravinsky as mantinha ou intensificava, causando choque e surpresa na audiência.
A Sagração da Primavera também exige uma orquestra de grandes proporções e faz um uso criativo dos instrumentos, explorando registros incomuns, técnicas estendidas e combinações instrumentais que produzem timbres novos. Ele utilizou, por exemplo, a combinação de instrumentos de sopro e percussão para criar sonoridades cruas e orgânicas, evocando imagens de um mundo pré-histórico e ritualístico.
Como a peça retrata um antigo ritual pagão de sacrifício à primavera, onde uma jovem é escolhida para dançar até a morte, Stravinsky usou melodias simples, fragmentadas e repetitivas, que parecem quase “primitivas”, para representar o ritual e a ligação com a natureza e os deuses. Essas melodias não seguem as convenções ocidentais de desenvolvimento, mas sim um fluxo mais próximo da música popular russa e eslava, o que reforça a sensação de ancestralidade.
Foi justamente isso que me impediu por tantos anos, entender o brilhantismo da obra. Diferentemente da música romântica, que seguia uma progressão narrativa clara, A Sagração da Primavera não oferece uma narrativa musical convencional com uma “resolução”. Em vez disso, a música parece uma série de blocos sonoros, onde temas e ritmos se repetem e se entrelaçam, mais preocupados em evocar estados emocionais do que em contar uma história linear. Isso criou uma estrutura mais “circular” e quase ritualística, onde o desenvolvimento musical não é previsível, mas cíclico e pulsante.
Sem nenhuma surpresa, na estreia em Paris, o público reagiu com choque e até violência. A combinação de música agressiva e a coreografia disruptiva de Nijinsky, que apresentava movimentos abruptos e anti-naturais, foi tão provocadora que gerou vaias, brigas e debates acalorados. Esse impacto cultural instantâneo marcou A Sagração da Primavera como uma obra revolucionária que não apenas quebrou as normas da época, mas redefiniu o que a música poderia expressar. Ah sim, também marca um avanço da dança moderna.
Todos esses elementos combinados influenciaram profundamente os compositores de música para cinema. A intensidade rítmica e a orquestração inovadora inspiraram trilhas de filmes de ação e suspense, enquanto sua narrativa não-linear e exploratória ajudou a estabelecer uma nova forma de compor, onde a música serve para construir um ambiente psicológico ou emocional em vez de seguir uma estrutura previsível.
Ao explorarem harmonias arrojadas e ritmos vigorosos, sobretudo a desafiarem as regras e usarem música para criar imagens, Stravinsky e Prokofiev transformaram a música do século 20 e, por extensão, a trilha sonora cinematográfica. A influência deles transcende o tempo, inspirando compositores modernos a valorizar a complexidade emocional e a narrativa em suas obras. O legado de Stravinsky e Prokofiev na música para o cinema é um testemunho de como a composição clássica pode imortalizar cenas e ampliar o impacto visual, mantendo-se relevante e influente até hoje.