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OLÁ,

Como “Trem das Onze” virou música-símbolo da capital paulista?

O samba paulista emerge do túmulo e crava o nome de um artista de muitos talentos na história da música brasileira

Por Redação Bravo!
Atualizado em 13 fev 2025, 12h17 - Publicado em 11 fev 2025, 08h01
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João Rubinato (ou Adoniran) na praça da Sé, em 1978 (Pedro MArtinelli / Bravo 100 canções essenciais/acervo rede Abril)
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Em 1964, a pecha a que Vinicius de Moraes condenou São Paulo precisou ser retificada: “túmulo do samba” não combinava mais com a terra que foi cantada aos quatro ventos por Trem das Onze, a composição mais famosa do paulista Adoniran Barbosa. A canção é a de maior repercussão nacional e internacional do repertório do compositor e já recebeu o título de música-símbolo da capital paulista.

Depois de ter estourado em sua terra natal, vendendo mais de 50 mil discos, a música conquistou ouvidos talvez mais exigentes, os da “capital do samba”. A crônica urbana dos amantes obrigados a se separar por causa do horário do trem venceu o concurso de Carnaval do Rio de Janeiro em 1965, rendendo a Adoniran um prêmio de 2 milhões de cruzeiros, entregue por Carlos Lacerda, então governador do Rio.

Trem das Onze seguia o sucesso de alguns sambas do compositor, como Saudosa Maloca (1951) e Samba do Arnesto (1952). À época da gravação, Adoniran já era bastante conhecido do público por outras artes: apresentava programas humorísticos em que vivia personagens marcantes como Charutinho e Barbosinha. Também foi cantor de rádio e ator de televisão e cinema.

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(Pedro Matinelli/acervo rede Abril)

A carreira artística de João Rubinato (nome de batismo do compositor) começara em 1934, quando, pela primeira vez, cantou em uma emissora de rádio, a Cultura, e passou a participar de um programa semanal, Hora do Calouro. Antes disso, havia trabalhado como garçom e entregador de tecidos e feito outros bicos. Aos 22 anos, em 1932, mesmo ano em que chegou com a família a São Paulo depois de passar por várias cidades do interior paulista, decidiu juntar os nomes de dois conhecidos — Adoniran Alves, amigo de boemia, e Luiz Barbosa, sambista famoso, criador do samba de breque — e adotou o pseudônimo pelo qual se tornaria conhecido. “Se eu soubesse que ia ser radioator, teleator e artista de cinema, não mudava meu nome, ficava João Rubinato mesmo. Mas cantar samba com nome italiano não dá!”, explicou depois o próprio Adoniran.

Compositor de sucesso, ele preferia deixar a interpretação para os Demônios da Garoa, grupo vocal-instrumental responsável pelas versões mais conhecidas de seus sambas. Os integrantes do grupo, criado em 1943, conheceram Adoniran dois anos depois, na Rádio Record, e em 1950 gravaram pela primeira vez uma canção dele, Malvina. O grupo é responsável por algumas modificações que resultaram na versão final de Trem das Onze. A versão original da letra teria sido bem mais extensa e complexa antes da “edição” dos Demônios, que, além disso, introduziram os “cariguduns” no começo e no fim do samba.

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A menção ao bairro paulistano do Jaçanã é da letra original de Adoniran — o que não significa, necessariamente, que o compositor o conhecesse. Não se sabe ao certo se ele já tinha frequentado a região ou se, como confessou ao cientista e também sambista Paulo Vanzolini, nem fazia ideia de onde ficava o bairro e só o escolheu por soar como um lugar muito distante. E também, é claro, para rimar com “amanhã de manhã”, o próximo horário de partida para quem perdesse o trem das 11 horas.

Escute a canção na íntegra abaixo:

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Trem das Onze, samba-canção de Adoniran Barbosa

Não posso ficar nem mais um minuto com você
Sinto muito amor, mas não pode serMoro em Jaçanã, se eu perder esse tremQue sai agora às 11 horas, só amanhã de manhã
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Não posso ficar nem mais um minuto com vocêSinto muito amor, mas não pode serMoro em Jaçanã, se eu perder esse tremQue sai agora às 11 horas, só amanhã de manhã
Além disso, mulher, tem outra coisaMinha mãe não dorme enquanto eu não chegar
Sou filho únicoTenho minha casa pra olharNão posso ficar
Não posso ficar nem mais um minuto com vocêSinto muito amor, mas não pode serMoro em Jaçanã, se eu perder esse tremQue sai agora às 11 horas, só amanhã de manhã
Além disso, mulher, tem outra coisaMinha mãe não dorme enquanto eu não chegar
Sou filho únicoTenho minha casa pra olharNão posso ficar
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Essa matéria faz parte do especial “100 canções essências!” da Bravo! e foi originalmente publicada em 2008
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