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Centenário de Maria Tallchief: a bailarina que eternizou “O Pássaro de Fogo”

2025 completa 100 anos de nascimento de um dos maiores ícones do balé clássico do século 20

Por Ana Claudia Paixão
7 fev 2025, 08h00
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 (Enciclopédia Britânica/reprodução)
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A importância de Maria Tallchief na dança clássica é uma das que faz do ballet algo culturalmente tão importante: uma das primeiras dançarinas de origem osage na história, ela foi musa de George Balanchine e uma das mais reverenciadas bailarinas do século 20. No dia 27 de janeiro de 2025 se lembra o centenário de seu nascimento. Por isso o NYC Ballet vai remontar um dos espetáculos mais importantes da carreira de Maria: O Pássaro de Fogo.

Além do clássico de Stravinsky, a companhia terá na temporada de janeiro outras obras de Balanchine criadas para Maria Tallchief: Scotch Symphony, que faz homenagem à paisagem dramática e à atmosfera das Terras Altas da Escócia, assim como a revisão do pas de deux de Sylvia, este fora do repertório por 30 anos. Falaremos de cada um separadamente, mas é para se comemorar em particular o resgate de O Pássaro de Fogo que contam com cenários e figurinos de Marc Chagall que foram frutos de muitas discussões de bastidores. Acima de tudo, O Pássaro de Fogo é uma das peças que contribuiu para a lenda de Tallchief na dança.

Maria Tallchief: exotismo e talento

Em 2023, Martin Scorcese lançou o elogiado Assassinos da Lua das Flores, inspirado em uma assustadora história real de crimes ocorridos nos anos 1930s, em Oklahoma, contra os indígenas do povo osage, uma vez que os nativos receberam direitos da Justiça sobre os lucros obtidos com os depósitos de petróleo encontrados em suas terras. Motivados pela fortuna gerada no local, e a brecha que a lei permitia, brancos praticamente aniquilaram uma família inteira, expondo para o mundo o absurdo que ganância poderia provocar.

Na mesma reserva estava o a família de Alexander Joseph Tall Chief, um indígena osage de 1,80 metro que de um dia para o outro ficou milionário.Segundo suas filhas relembram, ele “era o dono da cidade”, com vários imóveis, uma mansão e muito – mas muito dinheiro – no banco. Viúvo, Alexander se casou com a escocesa Ruth Porter, a irmã de sua cozinheira e governanta. As duas filhas do casal viriam a ser bailarinas clássicas famosas, sendo que uma delas, Maria, é considerada uma das melhores do século 20. Uma história que me surpreende ainda não ter sido resgatada pelo cinema e uma que vale relembrar.

Nascida em 1925, em tese Elizabeth Marie Tall Chief não seria a escolha mais óbvia para ser uma bailarina clássica, especialmente naqueles tempos em que o racismo não era tratado como crime, mas não apenas ela, como sua irmã Marjorie Tallchief, vieram a ser uma das cinco que superaram o preconceito, sendo as outras Rosella Hightower, Moscelyne Larkin e Yvonne Chouteau. Rosella e Maria se destacaram ainda mais.

Maria teve aulas de dança e piano desde cedo e contemplou inicialmente ser concertista, mas o balé logo tomou seu coração. Algo que ia de encontro com o sonho de sua mãe que de olho nos musicais de Hollywood, levou a família para Los Angeles, onde teria maiores oportunidades à meninas. Em sua biografia, Maria reconta que foi por sorte que sua mãe recebeu a recomendação de quem seria o melhor professor na cidade, mas não deve ter sido bem assim. Logo percebeu que teria que praticamente recomeçar do zero, uma vez que seu treinamento em Oklahoma havia sido potencialmente desastroso para seus membros, mas a dedicação valeu a pena.

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Em pouco tempo passou a estudar com Bronislava Nijinska, ex-coreógrafa dos Ballets Russes de Diaghilev, que tinha se estabelecido na Califórnia. Com toda sua vivência, a professora logo percebeu o potencial de Maria e a incentivou a se profissionalizar. Em tempos de Guerra, a companhia do Ballet Russe de Montecarlo estava baseada temporariamente em Nova York e, em 1942, a jovem Maria fez um teste e entrou para o corpo de baile.

Foi nesse momento, que Elizabeth Marie foi encorajada a adotar um nome artístico e, como era comum naqueles anos, sugeriram algo mais francês ou russo, mas ela queria manter sua herança osage e passou a ser Maria Tallchief (unindo os dois nomes – Chefe Alto – como uma única palavra). Ainda que com o tom de pele mais claro, ela fez questão de manter sua identidade pessoal e fez escolhas baseadas em sua origem.

Musa de Balanchine

George Balanchine já era uma lenda quando conheceu Maria, apenas dois anos depois da chegada dela à Nova York. O encontro aconteceu nos bastidores de um musical da Broadway, onde o Ballet Russe de Monte Carlo participava em um quadro criado por ele.

A partir dessa oportunidade, ele passou a ser o coreógrafo fixo da companhia e passou a escalar Maria para suas criações, como Danses Concertantes, Le Bourgeois Gentilhomme, Ballet Imperial e Le Baiser de la Fee, uma parceira que foi unindo os dois, mesmo que ela tenha ficado surpresa quando ele a pediu em casamento.

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Maria refletiu muito antes de aceitar e virar a Sra. Balanchine em 16 de agosto de 1946 e disse mais tarde, em sua biografia, que “guardamos nossas emoções para a sala de aula”. Ela tinha 21 anos e ele, 42. Foi como ‘primeira dama’ que a solista acompanhou o marido na aventura de criar uma companhia própria e ela foi a primeira grande estrela do Ballet Society, a base do que é hoje o New York City Ballet.

A lista de obras que ele criou para a esposa, cuja velocidade e energia no palco rapidamente viraram sua assinatura, é de deixar o queixo caído pois até hoje estão no repertório do NYCB, como O Quebra-Nozes, O Lago dos Cisnes, O Pássaro de Fogo, Allegro Brillante, Pas de Dix e Scotch Symphony, entre outros.

Tendo sido a primeira em quase tudo: a primeira americana a dançar no Opera de Paris, assim como na Rússia, e comparada à Galina Ulanova, Maria Tallchief era grande como seu nome e não ficaria limitada à ser apenas mais uma no NYCB.

O casamento era amigável, mas como Balanchine era conhecido por ignorar os limites entre o pessoal e o profissional, se apaixonando por suas “musas”, Maria – a esposa número três – foi trocada por Tanaquil LeClercq. O casamento com o coreógrafo foi anulado em 1952 (na base de que ele não queria ter filhos), mas Maria ficou no NYCB até se aposentar, em 1965.

Como a grande estrela que era, não ficou apenas em Nova York. Apareceu em programas de televisão, no cinema (interpretando Anna Pavlova no clássico de Esther Williams, A Rainha do Mar (Million Dollar Mermaid)) e também fez temporadas com o American Ballet Theatre dançando Miss Julie e o papel principal de Jardin aux Lilas, de Antony Tudor. Rodou o mundo se apresentando com os lendários Rudolf Nureyev e Erik Bruhn, com vários clipes eternizando esses momentos. Uma lenda americana.

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Filhos e uma Companhia de dança para chamar de sua

Em 1965, com apenas 40 anos, Maria Tallchief se aposentou dos palcos e passou a treinar a próxima geração de bailarinos. Com sua irmã, fundou o Chicago City Ballet, uma escola de balé e companhia de dança.

Ela se casou mais duas vezes: uma com Elmourza Natirboff, piloto de uma empresa privada de fretamento de aviões, de quem se divorciou em dois anos até que, em 1956, se uniu com Henry D. Paschen Jr., executivo de uma construtora de Chicago, com quem teve sua única filha, a poetisa Elise Paschen.

Até o fim de sua vida, no dia 11 de abril de 2013, ela se manteve ativa nas causas indígenas de seu país. Sua lenda é inspiradora e espero, realmente, que novas gerações a descubram logo. Seu pioneirismo tem sempre que ser lembrado.

O estrelato não como Cisne, mas um Pássaro de Fogo

A relevância de O Pássaro de Fogo em um cenário tão criativo como o de Balanchine nos anos 1940 e 1950 é incrível, por isso é tão interessante sua remontagem em 2025. Sua estreia em 1949 foi um dos marcos fundamentais na história do balé clássico, tanto pela sua abordagem inovadora quanto pela sua importância cultural, combinando a música de Stravinsky com a coreografia de Balanchine e a extraordinária performance de Tallchief, virando imediatamente uma das produções mais influentes e admiradas de todos os tempos.

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Embora o balé não seja encenado todos os anos, O Pássaro de Fogo tem sido uma parte importante da tradição do NYCB e como Maria Tallchief mesmo lembrou anos depois, foi o primeiro grande sucesso do New York City Ballet e, como orgulho, ela lembra que anos depois, o coreógrafo comentou com a filha dela: “sua mãe era maravilhosa nele”. Ninguém poderia negar, não é?

 

 

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