Os 60 anos de Romeu e Julieta de MacMillan
Um dos mais importantes espetáculos do mundo do ballet tem uma história tão dramática como das personagens, e se mantém um dos mais populares da dança

Tenho que abrir a coluna com uma confissão envergonhada. Quando nova, por muitos anos, considerava a música de Prokofiev para Romeu e Julieta feia. Amava Tchaikovsky e na comparação das melodias russas, nada como a peça que ele escreveu, mesmo que não fosse um balé completo. Minha opinião começou a mudar quando vi o filme Momento de Decisão, cuja cena mais icônica de todas mostra Mikhail Baryshnikov e Leslie Browne ensaiando o pas de deux do balcão e se apaixonando ao mesmo tempo.
Em seguida, fora da ordem cronológica, consegui ver duas versões completas em filme: a de Márcia Haydée e Richard Cragun, que nos anos 1980s foi remontada no Theatro Municipal do Rio, e a gravação de 1965 com Margot Fonteyn e Rudolf Nureyev, ambas versões que contribuíram para que revisasse minha rejeição.
Curiosamente, só descobri anos depois, as duas versões de Romeu e Julieta estavam conectadas pela amizade dos dois coreógrafos, John Cranko e Kenneth MacMillan, mas é a versão de MacMillan a mais popular (e a que estava no filme Momento de Decisão). Ela foi criada há 60 anos e se mantém popular e atual, ganhando montagens ao redor do mundo, incluindo, claro, o Royal Ballet, para quem ele criou o balé.
Romeo e Julieta de MacMillan, como chamamos para diferenciar, tinha duas versões a se comparar, a de Cranko, criada para Márcia Haydée e o Sttugart Ballet, e a original do Balé Bolshoi, de Leonid Lavrosky, criada para Galina Ulanova. Só que diferentemente do que imaginava, não foi para Margot Fonteyn que MacMillan pensou cada passo, nem Rudolf Nureyev: ele criou para dois outros bailarinos que foram virtualmente “apagados” de quase qualquer registro filmado, um drama dos mais lendários do mundo da dança: Lynn Seymour e Christopher Gable. E para quem gosta de lágrimas e polêmicas, essa é uma história inesquecível.
John Cranko já era um nome de prestígio quando foi para Stuttgart e fez de Márcia Haydée sua musa. Em 1962, seu Romeu e Julieta fez enorme sucesso, combinando sensualidade e tensão emocional, estabelecendo um estilo de interpretação mais visceral, tornando Márcia uma referência definitiva para a Julieta.

Inspirado nessa ousadia, MacMillan encontrou em Lynn Seymour uma parceira artística fundamental, que o ajudou a destacar o tratamento psicológico dos personagens e uma construção coreográfica que reforça a tragédia da história. Em 1964, ele criou para ela Gable o pas de deux do balcão. Como a peça foi bem recebida, teve o aval da direção de embarcar numa versão completa da obra para o Royal e continuou a desenvolver a coreografia em cima dos dois, enfatizando a fisicalidade e construção dramática detalhada, tornando o balé completo uma experiência imersiva. Mas nunca houve uma história tão triste e marcante como a dos bastidores da produção porque os negócios atropelaram a arte.
A montagem do balé completo passou a ser um dos investimentos mais aguardados do Royal Ballet em 1965, justamente porque a companhia estava para embarcar para uma nova temporada nos Estados Unidos naquele ano, e o mundo queria ver de perto a recém parceria de Margot Fonteyn e Rudolf Nureyev, já com toques lendários. Nada melhor do que um ballet original com os dois não acham?
Se você tem as maiores estrelas da dança no elenco, claro que quer veículos para mostrá-los e foi o empresário Sol Hurok desempenhou um papel crucial na projeção de Romeu e Julieta para o mundo. Como um dos mais influentes promotores de dança do século 20, Hurok era o gerente da turnê e não aceitou discussão: a estreia do novo ballet, tanto em Londres como em Nova York, teria Fonteyn e Nureyev.
Mas e Lynn Seymour e Christopher Gable? Ela chegou a interromper uma gravidez para se dedicar aos ensaios! Sol Hurok bateu pé: nem pensar em apostar em dois desconhecidos com a obras mais inovadora e importante do acervo. A decisão gerou tensões, mas o resultado foi um dos momentos mais emblemáticos da história do balé.
Sabendo disso, quando revejo o filme de 1965 sinto um aperto no coração. Fonteyn, que já estava com 46 anos, tinha uma química intensa com Nureyev e a entrega emocional da dupla garantiu que a produção fosse um enorme sucesso. Eles tiveram nada menos do que 43 chamadas ao palco para os aplausos do público. Insuperável.
Tudo isso só aumentou a dor para Lynn Seymour e Christopher Gable, que, de forma esmagadora, não só foram excluídos da estreia como também se viram — devido a políticas internas complexas e antipáticas — relegados ao quarto elenco. Isso mesmo.
Sem surpresa, a dupla custou a se recuperar da humilhação. Ao terminar sua gravidez pelo trabalho, o casamento da bailarina com o fotógrafo Colin Jones não sobreviveu. Logo após o fim da temporada, ela e Christopher Gable saíram da companhia, sendo que ele praticamente deixou de dançar.
Há quem diga que a culpa não foi apenas de Sol Hurok, mas que Nureyev e Fonteyn também quiseram o destaque, ainda mais que era um veículo perfeito para a parceria que rapidamente virava lendária. Embora contrário e arrasado, Kenneth MacMillan aceitou a decisão das estrelas porque ele mesmo ainda estava começando como coreógrafo. Lágrimas para todos os lados.
Quem viu os quatro bailarinos e os comparou – mesmo com poucas imagens de Lynn e Christopher – diz que, embora incríveis, Fonteyn e Nureyev não conseguiram superar Seymour e Gable. Fica para nossa imaginação.
Ao longo desses 60 anos, Romeu e Julieta continuaum veículo de grande sucesso para as maiores estrelas da dança, um momento especial para todos os bailarinos. Além de Lynn Seymour e Margot Fonteyn como Julieta, Natalia Makarova brilhou no papel, assim como Alessandra Ferri, considerada uma das mais celebradas do final do século 20 e início do 21, famosa por sua expressividade e envolvimento emocional. Nesse aniversário de 60 anos, completados em 2025, Romeu e Julieta está em cartaz no Royal Ballet e segue fascinando novas gerações de bailarinos e espectadores, provando que sua história, quando contada pela dança, continua a emocionar como poucas obras do repertório clássico.
Além de Nureyev, Mikhail Baryshnikov foi um Romeu ágil e cativante, reforçando sua aura de superstar, assim como Anthony Dowell foi um dos principais Romeus do Royal Ballet após Nureyev, com uma interpretação sofisticada.
Sessenta anos depois de sua estreia, Romeu e Julieta de Kenneth MacMillan permanece uma das mais poderosas narrativas traduzidas para a dança, redefinido o papel da dramaturgia no balé clássico. Seja pela intensidade trágica de Lynn Seymour e Christopher Gable, pela química inesquecível de Margot Fonteyn e Rudolf Nureyev, ou pelo lirismo de grandes nomes como Alessandra Ferri e JulioBocca, que influenciaram o bailarino Marcelo Gomes, como ele mesmo lembra quando os viu dançando juntos no American Ballet Theatre.
“Eu estava nos bastidores com eles e senti todas as emoções desse balé perfeito”, ele diz. “Eles eram intocáveis para mim e me fizeram chorar muito no final do terceiro ato. A companhia inteira estava nas coxias para ver essa última cena, e foi emocionante”.
Marcelo, ele mesmo um dos Romeus mais destacados dos anos 2000, dançou seu primeiro Romeu e Julietano ABT com a bailarina Yan Chen, e, dias depois, com Paloma Herrera. Ele tinha apenas 19 anos. “Era tudo bem instintivo. Eu me jogava de cabeça na emoção, sem pensar muito nos detalhes. A juventude me dava uma espontaneidade que, de certa forma, tornava tudo muito verdadeiro”, ele ri ao lembrar.“Hoje, quase 20 anos depois, minha perspectiva mudou. Com a maturidade e as experiências da vida, percebo camadas que antes me escapavam. Aprendi a dosar a energia, a encontrar significado nos pequenos gestos e a equilibrar intensidade e controle. O que antes era puro impulso, agora tem mais profundidade.Se aos 19 anos eu sentia tudo de forma explosiva, hoje percebo que a força de Romeu está tanto na paixão quanto na sutileza – e isso é algo que só o tempo me ensinou”, comenta.
Tecnicamente, Romeu e Julieta de McMillan segue sendo desafiador para qualquer bailarino. “Não há nada mais difícil do que o primeiro ato para quem está dançando Romeu. Você chega à cena do balcão já completamente exausto, mas a história e a música te levam de uma maneira que faz qualquer um ver esse desafio como uma honra”, Marcelo explica avaliando uma das razões para a popularidade do balé ser referência. “É um balé que ainda respira diferentes interpretações artísticas de cada bailarino, então, depois de 60 anos, ainda continua evoluindo”, diz.
E é mesmo. E também é uma experiência arrebatadora para o público. Sua permanência no repertório global é prova de que a dança, quando aliada a uma história universal e uma música inesquecível, pode atravessar gerações sem perder a força emocional.