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Bad Bunny no Brasil: 8 momentos que marcaram a primeira vez do artista em São Paulo

Porto-riquenho entregou mais de duas horas de show, homenageou o país com camisa da seleção, se emocionou em português e transformou o Allianz Parque em festa

Por Beatriz Magalhães 21 fev 2026, 16h00 • Atualizado em 25 fev 2026, 10h31
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 (@irisalvesc/Live Nation Brasil/divulgação)
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  • Por muito tempo, o Brasil pareceu ser o ponto cego nas rotas das grandes turnês hispânicas. Enquanto nossos vizinhos pulsavam no ritmo de Benito, nós assistíamos de longe, separados por uma barreira linguística que, na noite de sexta-feira (20), provou ser apenas uma formalidade.

    O estranhamento não é por acaso, e sim um reflexo de um país que ainda se enxerga como uma ilha cultural dentro da própria casa. Pesquisas do Centro Brasileiro de Análise e Planejamento (Cebrap) e da USP, de 2023, mostram que apenas 4% dos brasileiros se definem como latino-americanos, isso porque, muitos preferem se identificar estritamente como brasileiros.

    Essa percepção isolada tem explicações históricas: a independência brasileira seguiu um caminho distinto, mantendo laços próximos com a coroa portuguesa; o idioma nos separa da maioria dos países continentais; e a dimensão de “país-continente” reforça uma autossuficiência cultural que dispensa aproximações com os vizinhos.

    Foi nesse cenário que Bad Bunny, aos 31 anos, decidiu enfrentar o mercado brasileiro sem concessões: sem feats em português, sem abrir mão do espanhol, sem adaptar seu discurso político sobre Porto Rico para agradar plateias locais.

    E funcionou.

    Na noite de sexta-feira, 20 de fevereiro, o Allianz Parque recebeu cerca 49 mil pessoas para o primeiro show da turnê Debí Tirar Más Fotos no Brasil, com ingressos esgotados para duas datas, um feito raro para um cantor que nunca havia pisado no país. Entre a multidão, bandeiras de Porto Rico dividiam espaço com as da Colômbia, Venezuela, Equador e Argentina. Abaixo, listamos 8 momentos que marcaram essa estreia histórica do artista no Brasil:

    1. Banda porto-riquenha Chuwi abre a noite

    O grupo, que já vem acompanhando Bad Bunny em turnê, assumiu a abertura para aquecer o público. Formado pelos irmãos Lorén (vocal), Willy (percussão/produção) e Wester Aldarondo (guitarra/produção), junto do amigo Adrián López (teclados/percussão), a banda integra ritmos caribenhos, plena e bomba em um som que já havia aparecido na faixa “Weltita”, do álbum Debí Tirar Más Fotos. Em São Paulo, os integrantes subiram ao palco visivelmente emocionados com a recepção brasileira.

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    2. Curta exibido no telão com atriz brasileira

    Antes do estádio ecoar a primeira música da setlist, o telão apresentou um curta-metragem estrelado pela atriz brasileira Lili de Siqueira, de 17 anos. Sentada ao lado de um amigo, a personagem fala sobre o sonho de ver uma apresentação do cantor no Brasil, e juntos entoam “palavras mágicas” para trazê-lo para cá. O vídeo funciona como um introdução ao universo do álbum, e paralelamente, um sinal de acolhimento. Ao colocar um rosto brasileiro no centro da narrativa, Bad Bunny sinalizava que a noite era também nossa.

    3. O momento em que o artista se emocionou com a plateia 

    Logo no início do show, o porto-riquenho permaneceu longos minutos em silêncio sobre o palco, apenas contemplando o estádio lotado e recebendo o carinho dos fãs. Visivelmente emocionado, disse: “Não sabia o que esperar. Não sabia que teria tanta gente linda”. Mais tarde, arriscando o português, declarou: “Estou muito feliz. Finalmente realizei meu sonho de visitar o Brasil. Muito obrigado por isso”.

    4. Sequência de BAILE INoLVIDABLE e NUEVAYoL

    A sequência das músicas revelou uma das dualidades mais interessantes do repertório recente do artista. “BAILE INoLVIDABLE”, construída sobre uma atmosfera festiva (e quase nostálgica), remete a encontros, pista de dança e memória. No palco, ela é interpretada em meio a corpos em movimento e refrão coletivo, reforçando a ideia de que música é lugar de pertencimento.

    “NUEVAYoL”, por sua vez, carrega outro peso. O título já indica o cruzamento entre Nova York e a identidade latina, referência direta à forte presença porto-riquenha na cidade e à experiência da diáspora. A música fala sobre deslocamento, orgulho cultural e permanência simbólica, mesmo quando o território muda. É sobre sair sem deixar de ser.

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    Colocadas em sequência, as duas faixas constroem um contraste delicado: primeiro a festa, depois a afirmação. Primeiro viver o agora, depois deixar que a memória sustente a celebração.

    5. O solo de “Garota de Ipanema”

    Ainda no começo do show, José Eduardo, um dos músicos de Bad Bunny, surpreendeu o público ao tocar “Garota de Ipanema” com um Cuatro Puertorriqueño, instrumento de dez cordas nacional de Porto Rico. O solo instrumental foi um aceno à música brasileira, que levou o público a cantar em coro animado com a surpresa. Em outro momento, também foi possível ouvir acordes de “Mas, Que Nada”, com o famoso ritmo de Jorge Ben Jor.

    6. La Casita e a camisa do Brasil

    No segundo ato, Bad Bunny migrou para “La Casita”, estrutura montada no meio da pista que replica uma casa típica porto-riquenha. Ali, cercado pelo público, o artista reduziu a distância física e ampliou a sensação de intimidade. Foi neste momento também que surgiu vestindo a camisa da seleção brasileira de 1962 (a do bicampeonato de Pelé no Chile).

    Entre jogos de luzes e fãs convidados a ocupar a estrutura ao seu lado, a sequência de “Tití me preguntó”, “Neverita”, “Yo perreo sola”, “Safaera” e “MONACO” conduziu o estádio a um perreo coletivo. No meio da euforia, Benito reforçou o significado daquela noite: “Obrigado por permitir trazer nossa cultura aqui para São Paulo, com todos vocês, minhas irmãs e irmãos latinos. Só por esta noite, nós somos brasileiros e vocês porto-riquenhos.”

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    7. Arquitetura do palco: múltiplos pontos de vista

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    (@irisalvesc/Live Nation Brasil/divulgação)

    A estrutura do show foi pensada para aproximar o Benito do público. Além do palco principal, havia uma arquibancada posicionada atrás do palco, apelidada de “Los Vecinos”, e a já mencionada “La Casita” no centro da pista.

    Ao longo da noite, Bad Bunny percorreu todos esses pontos, alterando constantemente o foco visual. Esse deslocamento físico criou uma sensação de espetáculo em 360 graus e ampliou ainda mais a percepção de proximidade, mesmo em um lugar com quase 50 mil pessoas.

    A dinâmica também reforça a ideia de comunidade: não há um único centro fixo, mas múltiplos momentos de encontro. Para um artista cuja obra frequentemente aborda coletividade e identidade cultural, a arquitetura do palco opera como extensão do discurso.

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    8. Sapo Concho: personagem, humor e crítica 

    Enquanto Bad Bunny se preparava para retornar ao palco principal, o sapo Concho, mascote animado criado para a promoção do álbum, apareceu no telão para interagir com o público. Arriscando um português, ele disse ter comido feijoada, pão de queijo, churrasco e até parmegiana de carne. O momento descontraído serviu como ponte para o ato final.

    Mas Concho não é apenas um mascote fofo. Sua espécie, Peltophryne lemur, é a única nativa de Porto Rico e está na Lista Vermelha de espécies ameaçadas. Acreditava-se extinto até ser redescoberto no final dos anos 1960. Hoje, sobrevivem entre 500 e 3.000 indivíduos em estado selvagem, pressionados pelo desenvolvimento imobiliário e pelas mudanças climáticas.

    Ao escolhê-lo como protagonista da estética de Debí Tirar Más Fotos, o artista fez uma escolha muito bem pensada, quase como se o sapo representasse os porto-riquenhos que, como ele, lutam para existir em uma ilha pressionada pela gentrificação e pela especulação imobiliária.

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