Carnavalesco da Mocidade fala sobre enredo de Léa Garcia: “Deusa negra que não teve destaque em vida”
Agremiação venceu o Carnaval de SP e levou para o Sambódromo do Anhembi o tema “Malunga Léa: Rapsódia de Uma Deusa Negra”, uma homenagem à atriz Léa Garcia
A Mocidade Alegre foi a grande vencedora do Carnaval de São Paulo em 2026. É a 13ª vez que a escola conquista o título. Neste ano, a agremiação levou para o Sambódromo do Anhembi o enredo “Malunga Léa: Rapsódia de Uma Deusa Negra”, uma homenagem à atriz Léa Garcia, celebrando a trajetória de uma das figuras mais importantes do teatro, do cinema e da televisão brasileiros. Com uma carreira iniciada no histórico Teatro Experimental do Negro e passagens marcantes por produções como o filme Orfeu Negro (1959), vencedor da Palma de Ouro em Cannes, Léa ajudou a ampliar a presença de mulheres negras em papéis de destaque.
A criação dos carros alegóricos e dos figurinos ficou a cargo do carnavalesco Caio Araújo, 35. Natural de São Paulo, ele estudou Artes Visuais e trabalhou como arte-educador antes de se dedicar integralmente ao Carnaval. Este é o segundo ano em que o artista assina o desfile da Mocidade Alegre.
Bravo! conversou com Caio sobre o longo mergulho na vida e na obra de Léa Garcia e os desafios de traduzir, para a linguagem monumental e simbólica do Carnaval.
Como foi o processo de tradução de um legado tão gigante em carros alegóricos?
O processo de traduzir o legado da Léa em alegoria foi, foi bem complicado, porque a Léa tem uma carreira muito extensa, de muitos sucessos, de muitos destaques, e a gente tinha que encontrar os pontos-chave para que a gente conseguisse passar a mensagem dessa construção de legado da Léa Garcia.
Então, começamos escolhendo ali o Teatro Experimental do Negro como esse lugar que letrou a Léa racialmente. E, e como esse letramento aconteceu, ela estava cercada de muitas pessoas, de muitos artistas, é, pretos e incríveis que estavam ali enquanto ela estava com 16 anos, iniciando a carreira. Então, esse abre-alas, esse teatro que se veste com essa arte preta brasileira.
Dessas pessoas que estavam cercando a Léa, como Mercedes Baptista, Abigail Moura, Emanoel Araújo, o Abdias Nascimento, que foi companheiro da Léa por muitos anos e, e um artista fundamental, tanto na dramaturgia quanto nas artes visuais aqui no Brasil. Então, o processo foi justamente de ir pegando essas referências que ajudaram a construir o legado da Léa.
E aí, a gente parte por Orfeu Negro, a deusa negra, que fala de como a Léa usou a ancestralidade africana como um meio de abrir ainda mais o leque de possibilidades. De falar que não somos descendentes de escravizados, somos descendentes de realeza, somos descendentes de intelectuais. E a gente fala desse papel onde ela interpreta e homenageia justamente por causa disso.
O que na vida da Léa mais te impressionou?
O que mais me impressiona na vida da Léa Garcia é a resiliência dela, essa luta dela, que ela foi construindo novos caminhos a cada passo, tijolinho por tijolinho, mas tudo trabalhado numa delicadeza muito grande, que foi um dos nossos desafios também: como transpor essa delicadeza da Léa, é, no seu processo de, de conquista por direitos, no seu processo, é, de conquista por, por espaços, como transpor isso com, com a delicadeza que ela carregava.
Então, isso foi o que mais me impressionou. O talento a gente já conhecia, os trabalhos a gente já conhecia, mas a gente entender a inteligência emocional e a delicadeza que essa mulher carregava dentro dela, foi o que mais me impressionou.
O que você aprendeu ou tirou de mais importante dessa experiência com esta edição do carnaval?
O que eu tiro de mais importante deste Carnaval de 2026 da Mocidade é o que aprendi com a vida da Léa Garcia. É a resiliência. É tentar encontrar delicadeza nesses momentos em que a gente precisa lutar, respirar fundo e encontrar o nosso centro, enquanto tudo ao nosso redor pode estar desfavorável. Com a Léa, a gente aprende isso. Lá nos anos 1960, essa mulher, que tinha tudo contra ela, conseguiu trilhar uma trajetória de sucesso baseada nessa resiliência, baseada nessa delicadeza. E isso é o que eu tiro de mais forte.
O que vc espera que o público preste mais atenção ou sinta durante o desfile da Mocidade?
No desfile da Mocidade, eu espero que o público tenha prestado atenção no quanto Léa Garcia é grandiosa. O Brasil é um país que tem grandes atrizes, a gente tem muitas mulheres boas fazendo arte aqui, e a Léa é uma delas — mas que não recebeu o destaque devido que merecia durante a vida.
E a gente sabe que esse reconhecimento não veio por conta da cor da pele dela. Então, eu espero que o público entenda a grandeza de Léa Garcia, a importância dela e como foi um fator de transformação fundamental para que, hoje em dia, a gente olhe para a televisão e veja mulheres pretas protagonizando produções, em papéis complexos.
Eu quero que as pessoas entendam isso: o quanto Léa foi grandiosa.
Qual foi o detalhe ou aspecto desse carnaval que vc mais gostou de criar?
O detalhe, o aspecto que eu mais gostei de criar neste carnaval, acho que com certeza foi a terceira alegoria da Mocidade Independente de Padre Miguel, o carro da Iemanjá — que é a Iemanjá ancestral, não é a Iemanjá miscigenada que nós cultuamos aqui no Brasil. É uma Iemanjá toda na madeira, nas conchas, na palha; um carro todo trançado em corda, em esteira de carnaúba, de taboa.
Acho que foi o detalhe, o carro que é a cereja do bolo do nosso desfile, sabe? Foi o elemento que eu mais gostei de projetar para este carnaval.
O que significa pra vc ganhar o carnaval de 2026?
Eu acho que ganhar o Carnaval de 2026 significa que o nosso objetivo foi cumprido ao escolher Malunga Léa Garcia como nosso enredo. É manter essa mulher no topo, é manter essa mulher no pódio.
Para mim, significa a celebração completa da carreira da Léa.