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The country is on the table

Por Bravo
17 out 2017, 14h29 • Atualizado em 22 set 2022, 12h25
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  • A happiness do seu filho está diretamente ligada à freedom do seu país, isn’t it?

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    William Shakespeare

    Jurandir chega mais cedo aquele dia em casa, talvez ainda pegue Kauê acordado.

    Em vão.

    Ao entrar na sala, a esposa posta o indicador sobre os lábios pedindo silêncio. Jurandir faz um pequeno muxoxo. Afrouxa a gravata, joga o paletó sobre uma cadeira e tira os sapatos.

    Penalizada, a esposa pega a mão de Jurandir e o leva, pé ante pé, até o bercinho do filho, que naquela semana completara duas primaveras.

    Os dois ficam mirando o rebento rosado ressonando, com grande orgulho, por algum tempo.

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    Em seguida, Kauê começa a se mexer. Vira-se de um lado para o outro, aninhando-se. Mas, no meio de um desses movimentos, abre os olhos e vê o pai.

    Imediatamente a fisionomia do bebê ganha uma alegria sem-par. Então ele abre um sorriso franco e diz:

    – Hi, daddy…

    Jurandir lança um olhar esbugalhado para a mulher.

    – Marta, ele está falando comigo em…

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    A esposa completa:

    – Sim, meu amor, ele está falando com você em inglês. Não é uma coisinha?

    Kauê então completa a frase:

    – …let´s play football in the garden with me?

    O casal se abraça, emocionado. Kauê insiste:

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    – Daaaaddy! Come with me, pleaaaase!

    São interrompidos pela buzina da perua escolar. Ela traz Diogo, o mais velho, de 6 anos. Mamãe deixa Jurandir e Kauê no quarto e vai até o portão receber o outro filho.

    Pega-o no colo, enche-o de beijos. Mas o menino vem cheio de mau humor.

    – Oh, mammy, leave me alone! I just want a warm bath with my toys. Is it possible?

    Parece roteiro de filme hollywoodiano. Mas o fenômeno se alastra por todo o Brasil. São as escolas de educação infantil com opção bilíngue.

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    Uma montanha de autidóres aponta a nova tendência. São ursinhos, cachorrinhos, elefantinhos (ou funny bears, happy dogs and small elephants) — todos mostrando a possibilidade de falar facilmente o idioma de Shakespeare.

    Os argumentos a favor são repetidos à larga. O mundo globalizado, a necessidade de um idioma comum, a competitividade cada vez maior no mercado. Ou o batido “seu filho precisa estar preparado para o futuro”.

    Para ajudar no debate, que tal um parecer não tão favorável assim?

    Pois bem.

    Não faz muito tempo, uma universidade norte-americana adquiriu por US$ 70 milhões o controle acionário de uma tradicional universidade privada de São Paulo.

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    É o caso de pensar com calma no momento das futuras matrículas.

    Afinal, a happiness do seu filho está diretamente ligada à freedom do seu país, isn´t it?

    ****

    – Como é teu nome?

    – William Shakespeare.

    – Meio complicado pra um poeta, não?

    – Tem alguma outra sugestão?

    – Que tal Willy Shake, mais pop.

    – Humm, talvez.

    – O que é esse calhamaço aí?

    Hamlet, uma peça de teatro.

    – Teatro? Ih, cara, palco não tá com nada. Que tal fazer uma sinopse de uma série pro Netflix?

    – Posso tentar.

    – Volta quando tiver pronto a storyline, beleza?

    – Ok.

    – Ah, me diz uma coisa, tem quantos seguidores no Instagram?

    – Não tenho Instagram.

    – Opa, então deu ruim. Publica então esse teu Hamlet aí no site da Amazon. Teu lance é autoedição, Will.

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