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Everlane Moraes e suas revoluções

Estreante na Globo comandando um episódio de "Histórias Impossíveis", diretora surpreende com narrativas e práticas de vanguarda

Por João Victor Guimarães 17 abr 2023, 12h25 | Atualizado em 17 abr 2023, 12h30
Everlane Moraes
 (Everlane Moraes/divulgação)
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Há algum tempo temos refletido sobre o lugar da representação e da comunicação na nossa sociedade e educação. Mais especificamente movimentos sociais organizados têm conquistado diretos e espaço para avançar sobre aquilo que tange suas representações. Do conceito de lugar de fala elaborado pela filósofa Djamila Ribeiro à elaboração e apresentação de de justas representações, passamos e estamos passando por um longo e não-linear percurso. Como tudo o que nasce, esse diálogo também está submetido a passar por etapas importantes a fim de avançar em amadurecimento.

Passamos, por exemplo, pela concepção de que a representação em si era tudo. Hoje caminhamos em direção ao seu fundo, buscamos pela forma como tal figura é representada, qual a sua narrativa. Estamos começando a compreender que estar não é suficiente, é necessário ser. Ou seja, é necessário prestar atenção para que a representatividade em uma obra se faça de forma coerente com suas etapas de criação e produção, e não apenas com o que está diante das câmeras.

Everlane Moraes
(Everlane Moraes/divulgação)

Everlane Moraes é uma pioneira do nosso tempo também nesse sentido. Cineasta com especialização em Documentários pela Escuela Internacional de Cine y TV (EICTV, Cuba) e formanda em Artes Visuais pela Universidade Federal de Sergipe (UFS), Everlane compôs uma filmografia farta em documentários. Agora “estreia” na ficção participando na co-direção da série Histórias (Im)possíveis, criada e escrita por Renata Martins, Grace Passô e Jaqueline Souza. A produção é feita por Leilanie Silva e a direção artística é assinada por Luísa Lima, quem co-dirige todos os episódios da série junto com um time de diretores formado por: Graciela Guarani, Thereza Médicis e Fábio Rodrigo. A co-direção do primeiro episódio, que foi ao ar no último dia seis de março e está disponível no Globoplay, ficou a cargo de Everlane Moraes. O segundo episódio da série deverá ir ao ar no próximo dia 19 de abril, Dia dos Povos Indígenas.

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Embora em conjunto, sua estreia não está entre aspas por essa razão. Everlane há muito vem explorando o rompimento das fronteiras entre documentário e ficção. Na sua filmografia, curtas como o fidagal La Santa Cena (2016), o fabuloso Aurora (2018) e o merecidamente reconhecido Pattaki (2019) já foram definidos pela própria diretora como “doc-fic”. Também seus demais curtas alimentam a discussão e chegam a abalar essa muralha há muito contraproducente.

Everlane Moraes
(Everlane Moraes/divulgação)
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O Cinema Nacional felizmente tem realizado, ou tornado a fazê-lo, algumas obras que se posicionam nesse limiar entre documentário e ficção. Para citar algumas, em ordem de proximidade com o limiar: 5 Casas (Bruno Barreto, 2021), O Território (Alex Pritz, 2022), Jogo de Cena (Eduardo Coutinho, 2007) e Mato Seco em Chamas (Adirley Queirós e Joana Pimenta, 2022). Percorrer o istmo entre documentário e ficção, seja com o uso de elementos no roteiro, na atuação ou em todo o filme, já é algo que vem sendo feito e representa uma parte importante daquilo que de novo e particular nosso cinema pode vir a oferecer e usufruir.

O trabalho feito pela Everlane Moraes agrega elementos tradicionalmente dados à ficção a documentários que são como uma lupa apontada para questões, presenças e narrativas ordinárias, cotidianas como, por exemplo: a história da arte na vida (ou da vida na arte) do seu pai que é artista visual (Conflitos e Abismos: A Expressão da Condição Humana, 2014); a oferenda feita por uma família (La Santa Cena, 2016); a expressão estética de quem passa e/ou vive pelas ruas de Havana (Allegro Ma Non Troppo: la sinfonía de la belleza, 2016); a história da beleza na vida de mulheres pretas (Aurora, 2018). E essa lupa com que ela apresenta essas histórias é farta em intervenções de poesia e surrealismos. Porque poder sonhar é também se envolver em beleza. E beleza permeia os sentidos de uma plena humanidade.

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Everlane Moraes
(Everlane Moraes/divulgação)

E mesmo quem não tiver a chance de se deleitar com toda a filmografia da diretora, poderá perceber que Everlane Moraes tem uma marca: apresentar histórias de pessoas pretas, junto a elas que, no caso, não raro são mulheres. Everlane orquestra a apresentação dessas histórias e nelas tece a representação das pessoas pretas de forma a garantir-nos o direito a uma projeção que perceba, respeite e destaque nossa humanidade. Ela não busca colocar-nos enquanto seres universais e adeptos à lógica e estética que já nos é excludente desde a sua implementação. O que a diretora faz é, repito, tecer a representação e apresentação de corpos pretos de forma a apresentar-nos enquanto pessoas que têm iguais sonhos, direitos, complexidade, belezas e tudo o mais que é possível ter em todos os âmbitos de cada particular universo. Essa é uma mensagem presente em toda a sua filmografia e também, até muito mais nitidamente, no primeiro episódio da série Histórias Impossíveis, dirigido por ela e disponível no Globoplay. Não só a representação mas também a narrativa e o formato de produção são determinantes para alcançar esse glorioso objetivo.

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Há também um longo processo prático e teórico percorrido pela diretora até chegar à apresentação de um conteúdo artística, política e economicamente autêntico e coerente. Everlane Moraes propõe uma forma mais humana e relativamente rara de produção. Suas iniciativas vão desde exigir, quando possível, mais tempo no set de filmagem para se relacionar calma e profundamente com colegas, trabalho etc; até a busca do estabelecimento de uma relação mais responsável e “não-extrativista” com as pessoas que, em algumas vertentes, chegam a ser denominadas “objeto do documentário”. Everlane sabe e, enquanto professora ensina, que devemos tomar cuidado e prestar atenção àquilo que existe antes do filme e continuará a existir depois dele; que nem tudo deve ou precisa ser mostrado para ser compreendido; que é importante reutilizar e traçar novos significados para algumas coisas ou ideias; que Cinema é mais processo do que resultado, e é sobretudo projeção.

São ideias que podem parecer meramente teóricas ou artísticas, mas não. Nas mãos e na mente de Everlane Moraes, essas ideias encontram os mais amplos e humanos sentidos porque praticadas de forma coerente, digna e edificante. Atravessando as barreiras entre documentário e ficção, realismo e surrealismo, representação e narrativa, frente e atrás das câmeras, ideal político e prática artística, Everlane se apresenta como o Sol sobre a estrada que finalmente podemos percorrer.

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