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Da gastronomia ao design, Gerônimo Athuel reinventa madeira descartada

Chef fundador do restaurante Ocyá, o brasileiro de raízes argentinas criou o estúdio PATSÜ, que transforma materiais recolhidos na natureza em peças autorais

Por Fabio Codeço 24 out 2026, 12h36
Homem de cabelos longos e barba, com coque no topo da cabeça, sorri para a câmera. Veste camisa azul-esverdeada, em ambiente de oficina com prateleiras e ferramentas ao fundo
O chef Gerônimo Athuel: lançamento de coleção de design em madeira (Mollica/divulgação)
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O interesse pela matéria-prima e pelas possibilidades de transformação aproxima duas atividades aparentemente distantes na trajetória de Gerônimo Athuel. De um lado, a gastronomia, campo em que construiu sua carreira e fundou o premiado restaurante especializado em frutos do mar Ocyá, no Rio de Janeiro. De outro, o design, ao qual passou a se dedicar por meio do PATSÜ, estúdio que transforma madeira descartada em peças autorais.

Em ambos, o trabalho começa pela observação das características da matéria-prima e pela investigação de suas possibilidades, em vez da imposição de uma forma previamente estabelecida. “Começo eliminando o que é descartável e depois lapido a peça em harmonia com o próprio material. Não é possível repetir uma peça. Cada uma é única”, explica o criador, que exibe sua nova coleção deste sábado (24) ao dia 31 de outubro, na Galeria Objeto Particular, no bairro paulistano de Perdizes.

Tigela de madeira escura com borda irregular e pontiaguda, vista de cima, sobre fundo preto. O interior da tigela revela tons de marrom e laranja, com veios circulares e uma rachadura central, destacando a textura natural da madeira.
Criação do estúdio PATSÜ: uso de madeira descartada em peças autorais (Mollica/divulgação)
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Na gastronomia, Athuel é reconhecido nacionalmente por seu trabalho pioneiro com a maturação e conservação de pescados, além do uso de espécies nativas e menos comerciais. E por desenvolver uma prática atenta à origem dos ingredientes, aos processos manuais e ao aproveitamento de recursos, como se pode observar nas duas unidades cariocas do seu restaurante, uma na Ilha Primeira, na Barra da Tijuca, outra no Leblon. “Minha cozinha parte de peixes para os quais poucas pessoas costumam olhar. No design também trago um pouco esse universo”.

No estúdio, a madeira recolhida no mar e nas margens de lagoas – em grande parte nos trajetos para sua casa, na Ilha da Pesquisa, e para o restaurante –, determina os caminhos de criação. Fibras, marcas do tempo, irregularidades e outras particularidades não são corrigidas para se adequar a um modelo idealizado: tornam-se elementos que orientam o desenho de cada peça.

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Detalhe de uma bandeja de madeira escura com bordas claras, preenchida por pontos vermelhos vibrantes que formam um padrão abstrato sobre a superfície texturizada
Detalhe: design contemporâneo (Mollica/divulgação)
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Foram dois anos de pesquisas sobre ferramentas, pigmentos e botânica – para conhecer a espécie das árvores que originaram o material – até criar o PATSÜ, termo indígena que significa “feito a dois”. “A madeira cumpre um papel tão importante quanto o meu nesse processo. É ela que me apresenta a forma”. A duração do trabalho está relacionada à singularidade dos materiais. Como cada fragmento apresenta características próprias, o processo exige observação e decisões específicas, sem a repetição automática de um modelo. A madeira deixa de ser apenas um suporte para a criação e passa a participar ativamente da definição da forma.

O projeto ganhou visibilidade durante a última Design Week, realizada em março, em São Paulo, um dos principais eventos do setor na América Latina, quando as peças foram mostradas pela primeira vez ao público. Seu trabalho se insere no campo do design contemporâneo, com uma abordagem que combina pesquisa de materiais, técnica e produção artesanal. A relação com a madeira recuperada também envolve uma mudança de perspectiva sobre o descarte. Em vez de tratar o material como resíduo sem utilidade, Athuel procura identificar o que ainda pode ser explorado em sua estrutura e em sua aparência. O resultado são objetos que preservam vestígios de sua existência anterior e incorporam essas marcas à linguagem visual das peças.

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“Na natureza, quase nada se perde e, assim como fazemos na cozinha, o nosso trabalho com a madeira parte do resgate e reinvenção do que foi descartado”, afirma o designer e cozinheiro. A trajetória de Athuel, da cozinha ao design, encontra continuidade na busca por novas possibilidades para materiais existentes. Em vez de apagar os sinais do tempo, o estúdio os incorpora às peças e propõe outra leitura para aquilo que já havia sido descartado.

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