André Dahmer: “Um país bom para um chargista morar é ruim para viver”
O quadrinista diz que não tem bloqueio criativo, detalha o seu medo de avião e relança livro de poemas sobre separação
André Dahmer, 51, tem medo de avião. Antes um pavor paralisante, hoje um temor controlado, que não o impede mais de embarcar na ave metálica. Ele nem perde mais o sono na noite anterior à viagem. Menos sobre aviões e mais sobre o amor e seu fim, o trajeto pela dor e pelo medo é a espinha dorsal do livro de poesia A coragem do primeiro pássaro (Lote 42 e Impressões de Minas, R$ 70,00, 80 págs.), que acaba de ganhar uma 2a edição.
Publicada em 2013, a obra ressurge agora com um projeto gráfico renovado, com ilustrações inéditas do autor e prefácio do poeta Fabio Weintraub. Os novos desenhos que se espalham pelas páginas evocam o mesmo tema aeroportuário, com aviões e esteiras de bagagem.
O evento de lançamento no Rio de Janeiro acontece neste sábado (23), a partir das 16h, na Livraria Janela, em Laranjeiras.
Rimas e desenhos
O escritor carioca também é artista plástico e quadrinista, criador das séries de tirinhas Malvados, Quadrinhos dos Anos 10 e Vida e Obra de Terêncio Horto. É vencedor de cinco prêmios HQmix e um Jabuti, além de publicar tiras diárias nos jornais O Globo e Folha de S.Paulo.
“O desenho sempre foi um lugar de conforto para mim. E a poesia sempre foi um lugar de insegurança. Já publiquei vários livros de poesia, mas sempre por editoras pequenas. Sempre publiquei os meus quadrinhos pela Companhia das Letras, que é enorme”, conta.
Seu livro de poemas mais recente, Impressão Sua (Cia. das Letras, R$ 77,90, 120 págs.), foi o primeiro publicado pela grande editora, sendo semifinalista do Prêmio Oceanos 2022 e finalista do Prêmio Jabuti do mesmo ano. “A minha poesia sempre foi muito concisa, como os meus quadrinhos. Até precária, no sentido bom da palavra, no sentido de improviso. Sempre foi assim no meu desenho, que é funcional, não é virtuoso. A minha linguagem é simples, rústica”, diz.
Entrando cada vez mais na literatura, Dahmer está trabalhando no seu primeiro romance. “A minha poesia é muito imagética, sou desenhista antes de tudo. Ela reflete a minha maneira de entender o mundo através de imagens”.
As crianças têm razão
O livro A coragem do primeiro pássaro fala sobre separação. “A minha primeira filha estava muito nova ainda. Foi muito sofrido, porque eu não sabia me separar, era a primeira vez. Hoje entendo que tive depressão. Não é um livro que denota raiva, é a mãe da minha primeira e segunda filha, minha amiga, temos uma relação de amizade desde sempre. Acho interessante relançar agora, porque já passou. Não tem mais dor”, detalha.
O artista é pai de três meninas. “A do meio, a Lola, desenha muito. É uma forma muito importante de ver o mundo. É uma ferramenta de compreensão do mundo externo e interno”, diz. No seu ateliê, a máxima é a mesma para as pequenas: liberdade total na criação. “O ideal é não ter nenhuma regra. É entrar na parada e falar ‘hoje vou fazer com giz de cera, hoje com nanquim’. Prefiro assim, porque a vida já é muito cheia de regra. É libertador”.
O desenho apareceu para Dahmer na infância. “É que nem a música. Se colocar um som para uma criança, ela dança. Os meninos e as meninas. Depois isso é retirado da gente”. No seu caso, a arte uniu o útil ao agradável. “Dei muito trabalho na escola, repeti dois anos, até que meus pais me colocaram em um curso de desenho. Parei de gritar, correr e falar sem parar. Ficava em silêncio, desenhando”, conta.
No seu perfil no Instagram, ele deixa em destaque uma frase do escritor polonês Witold Gombrowicz (1904-1969): A arte perturba os satisfeitos e satisfaz os perturbados. “O desenho me ajudou muito. Se você não tem um comportamento ou personalidade mais padrão, sem um violão, uma dança ou um pincel você sofre muito”.
Para o poeta, a vida do artista costuma ser acompanhada de dor. “As pessoas tendem a romantizar o fazer artístico. Não é maravilhoso como muitos imaginam, mas também não é tão duro quanto fazer asfalto. Tenho essa consciência. A maioria ganha muito mal, não tem reconhecimento. Dá pra fazer grande arte com alegria, mas normalmente e infelizmente não é essa a fórmula”, afirma.
De volta aos aviões…
O pavor de voar, hoje arrefecido, era um grande obstáculo na vida do escritor. “Recusei muitas viagens, perdi dinheiro, fiquei anos sem viajar de avião. Meu psicanalista dizia que a mesma força da imaginação que me faz construir coisas bonitas no meu trabalho é minha inimiga. Porque penso muitas coisas ruins também, é da minha natureza. Tenho um fatalismo que sempre me perseguiu”, diz.
A imaginação forte é a ferramenta que o ajuda a publicar todos os dias duas tirinhas inéditas em dois grandes jornais do país. São sessenta quadrinhos por mês. “Tenho uma gaveta de quatro a cinco dias, para, se eu ficar doente, poder descansar. Tem dias que faço dez, outros que faço uma, não tem regra”, diz, contabilizando cerca de 14 000 tirinhas feitas ao longo dos 25 anos de carreira.
Temas e criatividade não faltam. “Quando me perguntam de onde vem a inspiração, eu sempre digo: o boleto da escola das crianças. Não tenho bloqueio criativo. Tem tanto assunto, não posso reclamar. Aprendi a girar uma chave e fazer. Não tem a ver com dom, é rotina. Que nem sapateiro que trabalha há 30 anos. Tenho 51, publico desde os 27, é muito tempo fazendo a mesma coisa”, diz.
Entre as principais referências nos quadrinhos, Dahmer cita o francês Jean-Jacques Sempé (1932-2022) e os brasileiros Jaguar (1932-2025), Ziraldo (1932-2024) e Laerte. “Ela é a maior artista gráfica viva no planeta. Não só no Brasil. A capacidade que ela tem de roteiro, argumento, desenho… É completa”, afirma.
Seus desenhos sempre partem do papel, principalmente com nanquim, depois digitalizados e finalizados no Photoshop. Entre os seus próximos projetos está uma peça de teatro no Sesc Copacabana baseada em um dos personagens do seu livro Quadrinhos dos Anos 20 (Cia. das Letras, R$ 99,90, 240 págs.), o Algoritmo.
Além disso, claro, seguem as tirinhas diárias, sempre frescas e sagazes. “Em ano eleitoral a gente volta a pensar em todas as coisas boas e ruins que podem acontecer. Um país bom para um chargista morar é um país ruim para viver. Quem faz charge e humor político e mora no Brasil tem uma sorte enorme”, diz o sortudo.