‘Laços de Família’: conheça o livro de Clarice Lispector sobre a vida doméstica
Reunião de 13 contos sobre conflitos familiares, obra esmiúça os momentos de revelação de personagens aprisionados
A excelente construtora de contos Clarice Lispector atingiu seu melhor momento no gênero em Laços de Família (1960). Em 13 narrativas, os temas recorrentes explicam o título do conjunto: os conflitos da vida familiar e suas implicações sentimentais — ressentimentos, incertezas, amores, desconfianças, segredos e os planos de felicidade.
O universo da escritora, mais uma vez, estaria, aqui, vinculado a um plano existencial, moldado por um fluxo textual que foge às narrações tradicionais. O título não poderia ser mais adequado — e irônico — para representar o aprisionamento dos personagens do livro.
Laços de Família, de Clarice Lispector: o 22o melhor livro brasileiro segundo a BRAVO!
Tema bastante explorado pela literatura moderna, o mundo doméstico é visto como um lugar de sufocamento, microcosmo de círculos sociais mais amplos e não menos tensos.
- Devaneio e Embriaguez de uma Rapariga: Clarice enriquece essa abordagem com os mais variados e inusitados contextos: uma mulher — sugerida pelo texto como uma portuguesa moradora do Rio — que deixa de lado seus afazeres;
- O Amor: uma dona de casa que se aflige quando fica sozinha em casa, longe do marido e dos filhos: sua vida interior, seus sentimentos verdadeiros, surgem quando ela se depara com um cego em um bonde;
- Uma Galinha: uma galinha que foge do abate para não virar o almoço de domingo de uma família e, ao botar um ovo e chocá-lo na fuga, é poupada temporariamente e torna-se respeitada;
- A Imitação da Rosa: a insegurança e a fragilidade extrema de Laura, que hesita em enviar um buquê de rosas a uma amiga e reflete profundamente sobre esse ato;
- Feliz Aniversário: o aniversário de uma mulher de 89 anos, que lamenta a mediocridade e as convenções da família e aguarda a morte;
- A Menor Mulher do Mundo: as observações de um pesquisador francês sobre uma pigmeia grávida;
- O Jantar: um homem que vê outro comendo em um restaurante e descreve suas sensações;
- Preciosidade: uma menina de 15 anos que, antes fechada e avessa às pessoas, muda bruscamente de comportamento;
- Laços de Família: a distância e a frieza entre mãe e filha, genro e sogra e pai e filho em uma família típica;
- Começos de uma Fortuna: a preocupação de um garoto em empregar seu dinheiro para enriquecer e sua conversa com o pai;
- Mistério em São Cristóvão: as visões de uma menina depois de um jantar em família;
- O Crime do Professor de Matemática: um homem que é convencido pela família a abandonar seu cachorro quando tem de mudar de cidade;
- O Búfalo: uma mulher que, depois de ser deixada por alguém, tenta encontrar o ódio no olhar de algum animal no zoológico, mas reconhece apenas o amor neles em plena primavera — ela estaria presa, e os animais, livres.
O que une esses contos, além de relações familiares, seria o que a crítica identificou como “o instante decisivo” na obra de Clarice Lispector. É o momento em que o personagem se encontra com a razão da própria existência e enfrenta a necessidade de uma mudança abrupta de ação ou de pensamento. Seriam esses instantes a epifania, as revelações que têm fascinado uma legião de leitores de Clarice há décadas.
Este texto faz parte da coleção “100 livros essenciais da literatura brasileira” publicada pela Bravo! em 2009





