‘Medéia’: uma referência cultural sobre vingança para a humanidade
Peça de Eurípides funde mitologia e realidade; conheça a história completa
Na mitologia grega, Medéia era uma feiticeira conhecida pelos seus poderes mágicos, que poderiam ser usados para o bem e para o mal. A lenda entraria para a história, porém, como a da mãe que mata os próprios filhos por vingança a um homem que não a quer, protagonista na peça do dramaturgo grego Eurípides, escrita por volta do ano 430 a.C.
A distância entre o mito e a realidade era tênue na sociedade grega da época. A oposição masculino/feminino se fundava no contraponto entre emoção e razão. Mas, se uma mulher nunca poderia aventurar-se a destruir famílias e exércitos sem ser punida, uma deusa – ou mesmo uma feiticeira, como Medéia – tinha como levar a cabo sua paixão, ceifando vidas e mudando o rumo da história.
Qual a história de Medéia, de Eurípides?
A tragédia se passa na cidade grega de Corinto, local onde se refugiaram Medéia e seu marido Jasão após terem fugido de Cólquida. Medéia era filha de Eetes, rei de Cólquida, que possuía o tão almejado velocino de ouro, que Jasão e os argonautas buscavam. Mantido num bosque guardado por uma temível serpente, o velocino só pode ser conseguido com a ajuda de Medéia, que, apaixonada, envenenou a serpente, ajudou Jasão a obter o velocino e fugiu com o amante.
Jasão, apesar de todos os esforços que Medéia fez para salvá-lo das provações divinas, acaba enamorando-se da filha do rei de Corinto. A ama das crianças começa a peça lamentando tudo o que aconteceu, pois agora Jasão largou Medéia e seus dois filhos para se casar com a filha do rei. Medéia se sente abandonada, humilhada depois de tudo que fez para ajudar Jasão. Mas ela não mediria esforços para se vingar.
Ao receber a visita do próprio rei de Corinto, que conhece seus poderes e teme pelo bem da filha, este acaba expulsando-a de seu reino. Medéia pede um dia para encontrar outro lugar onde possa viver. Creonte concede esse dia – exatamente quando a peça se desenrola rumo ao trágico fim.
Tendo acertado seu futuro exílio em Atenas com o rei Egeu em troca de favores, Medéia chama Jasão para uma conversa e o convence de que está arrependida pelas coisas que disse. Tanto que entrega os filhos para morar com o pai, que concorda feliz. Mas tudo faz parte de plano tecido sob a perspectiva da mais brutal vingança, e Medéia manda por seus filhos um véu e um diadema envenenados para a princesa de Corinto.
Morrem não apenas a princesa, com a pele dilacerada, mas o rei de Corinto, que a tenta ajudar e acaba preso na armadilha. E morrem também os seus filhos com Jasão – assassinados pelas mãos da própria mãe. Jasão corre para a casa de Medéia à procura dos filhos, mas, ao chegar, encontra-os mortos, e Medéia fugindo pelo ar, em um carro guiado por serpentes aladas. A vingança estava feita.
Mesmo passados milênios, sempre que a vingança ressurge como tema, é Medéia que volta à baila – seja nas pinturas de Eugène Delacroix ou de Paul Cézanne, seja até mesmo como personagem homônimo de telenovela – Eterna Magia, de Carlos Manga.
Essa matéria faz parte do especial “100 livros essenciais da literatura mundial”, publicado pela BRAVO! em 2007.





