Os melhores livros nacionais do ano, segundo nosso júri
Revisitamos algumas das obras que marcaram o período e, para isso, convidamos quatro leitores vorazes atentos à literatura contemporânea
A melhor maneira de chegar a bons títulos é ouvir quem acompanha de perto a produção literária. Como de praxe no fim do ano, revisitamos algumas das obras que marcaram o período e, para isso, convidamos quatro pessoas — entre jornalistas, críticos, pesquisadores e leitores atentos à literatura contemporânea. A escolha foi livre, com apenas dois critérios: que o livro fosse brasileiro e tivesse sido publicado em 2025.
Os jurados foram: Adriana Ferreira, Fabiane Secches, Jamil Chade e Leonardo Piana.
Adriana Ferreira Silva
Adriana Ferreira Silva (@driferreirasilva_) é jornalista, escritora e curadora, com enfoque em questões interseccionais de gênero e racial. É colunista do Nexo Jornal e colabora com as revistas Numéro Brasil e Quatro Cinco Um.
Escolhas: Depois do Trovão (Cia. das Letras, 2025), de Micheliny Verunschk.
É uma obra impressionante por dialogar com o universo de Graciliano Ramos, sobretudo na forma como percorre o sertão, e também no trabalho com a linguagem. A autora fabula a partir de uma história real, a de um bandeirante que foi um dos responsáveis pela destruição do Quilombo de Palmares.
A autora cria um personagem fascinante que acompanha esse bandeirante e narra toda a trajetória até Palmares, detalhando a guerra. É uma história violenta e que surpreende também pela força da linguagem. Fiquei realmente impressionada, pois a obra ainda guarda uma incrível revelação.
Fabiane Secches
Fabiane Secches (@fabianesecches) é Mestre em Teoria Literária e Literatura Comparada pela USP, onde atualmente é doutoranda. Seu primeiro romance, Ilhas Suspensas, é uma publicação da editora Companhia das Letras e já está em pré-venda.
Escolhas: Na arca: Machado de Assis e os animais (Fósforo, 2025), com textos de Machado de Assis; Desterros (Todavia, 2025), de Natalia Timerman; e Horas azuis (Companhia das Letras, 2025), de Bruna Dantas Lobato.
Esse foi um ano muito rico para a literatura nacional, então é uma escolha muito difícil. Mas eu não poderia deixar de mencionar “Na Arca: Machado de Assis e os animais”, da editora Fósforo — embora eu seja organizadora da obra ao lado de Maria Esther Maciel, os textos de Machado realmente brilham. Gosto em especial da “Carta do Gatinho Preto”, em que Machado escreve e assina como se fosse um gato.
Também fiquei feliz com a reedição revisada de “Desterros: histórias de um hospital prisão”, de Natalia Timerman, publicado neste ano pela Todavia. Um relato precioso para refletir sobre o sistema carcerário no Brasil e sobre os direitos humanos, escritos com sensibilidade pela autora, que além de escritora também é psiquiatra e trabalhou por cerca de uma década no Centro Hospitalar do Sistema Penitenciário.
Já na ficção, destaco “Horas azuis”, publicado pela Companhia das Letras, um romance muito delicado escrito por Bruna Dantas Lobato, que trata de uma relação à distância, mas muito amorosa, entre mãe e filha. Bruna é imigrante, vive e trabalha nos Estados Unidos como escritora, tradutora e professora, e esse mesmo livro também foi escrito em inglês por ela. Para a nossa sorte, a própria autora o reescreveu e publicou em português.
Jamil Chade
Jamil Chade (@jamilchade_oficial) percorreu mais de 70 países cobrindo crises humanitárias, diplomacia e papas. Com escritório na ONU em Genebra, foi eleito o segundo jornalista mais admirado do Brasil em 2025, finalista do prêmio Jabuti quatro vezes, embaixador do Instituto Adus, membro do conselho do Instituto Vladimir Herzog e pesquisador da Comissão Nacional da Verdade.
Escolha: Memórias (Cebri, 2025), organizado por Monica Hirst.
Minha escolha de lançamento do ano vai para “Memórias”, mais de 350 páginas de entrevistas com o embaixador brasileiro Marcos Azambuja, organizado por Monica Hirst e publicada pelo Cebri.
Não se trata apenas de um esforço para recuperar a trajetória de um dos diplomatas mais importantes das últimas décadas no Brasil. O livro é uma biografia da própria política externa brasileira e sua constatação da força do diálogo, compromissos e negociações como forma de atingir os objetivos de desenvolvimento do país.
Num momento em que a ordem internacional criada em 1945 é encerrada, que a incerteza e tensão predominam e que as novas regras ainda sequer foram escritas, a obra revela a aposta de uma nação por se construir no mundo a partir de ideias e da diplomacia.
Em muitos aspectos, 2025 encerra o século 20, pelo menos no que se refere as estruturas de poder criadas após a Segunda Guerra Mundial e que organizaram a vida do planeta.
Azambuja tinha a convicção de que o Brasil poderia influenciar a agenda internacional a partir de seu envolvimento nos grandes temas do planeta. Sua soberania não vinha de um artefato nuclear. Mas, entre outros elementos, do poder da palavra.
Leonardo Piana
Leonardo Piana (@leonardopiana_), nascido em 1992 em Andradas (MG), é escritor e servidor público. Autor dos romances premiados “Sismógrafo” e “Tarde no planeta” e do livro de poemas “Escalar cansa”, vencedor do Prêmio Sesc de Literatura 2025.
Escolha: “Goiás”, de Marcus Groza (Editora Senac, 2025).
Publicado aos 45 do segundo tempo de 2025, “Goiás”, de Marcus Groza, é um dos romances mais inquietantes que li recentemente. Não pela urgência de incluir na ficção o colapso ambiental que atravessamos hoje, nem por seu inusitado protagonista, o cachorro caramelo que dá nome ao livro. O que cativa é sobretudo a forma, um fluxo de consciência que transmigra entre diferentes vozes, incluindo a do cachorro, “o bicho mais feliz que já conheci”. Escrito com os melhores ecos da poesia, o romance de estreia de Marcus, vencedor do Prêmio Sesc, nos revela um escritor sem medo das palavras. Uma pequena joia literária.