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Ruth Guimarães: novo livro revela sua faceta esquecida de poeta

Coletânea "Folhas soltas", lançada neste mês pela Primavera Editorial, reúne escritos inéditos e dispersos da autora

Por Redação Bravo!
22 out 2025, 09h00 • Atualizado em 23 out 2025, 20h17
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Ruth Guimarães (Acervo pessoal/reprodução)
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  • O nome de Ruth Guimarães desperta um afeto imediato. Pela escritora brasileira dedicada à prosa, pela grande contadora de histórias que foi e pela voz que soube traduzir com delicadeza a alma do interior paulista. Por muito tempo, porém, seu talento como poetisa permaneceu à sombra. Ainda que tenha sido justamente com os versos que ela se batizou na literatura.

    Muitos desses poemas voltam agora à luz em Folhas soltas, lançado neste mês pela Primavera Editorial, reunindo escritos inéditos e dispersos da autora. Dividido em cinco partes, o livro revela, em cada seção, uma dimensão da experiência da autora; do amor e do desejo à dor, à fé e à ancestralidade, até alcançar a aceitação do tempo e da vida.

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    Nascida em Cachoeira Paulista, em 13 de junho de 1920, Ruth publicou seus primeiros textos nos jornais A Região e A Notícia, sob o pseudônimo Anonyma, quando ainda era adolescente. Mais tarde, ela mesma contou que decidiu “aposentar” os versos, cansada das comparações com outros poetas de sua geração. Mas seguiu escrevendo, e foi além. Transitava com naturalidade entre contos, romances, crônicas, dramaturgia, ensaios e traduções, sem nunca abandonar a escuta atenta da oralidade popular. Foi também uma das primeiras mulheres negras a se afirmar no cenário literário brasileiro, e uma grande estudiosa do folclore e da cultura caipira, temas que marcaram sua obra e sua trajetória intelectual. Aos 88 anos, foi eleita para ocupar a cadeira número 22 da Academia Paulista de Letras.

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    Publicou mais de 50 obras. Entre seus livros mais conhecidos estão o romance Água Funda (1946), uma das grandes obras do regionalismo moderno, Os Filhos do Medo (1950), dedicado às crenças e superstições populares, e Mulheres Célebres (1960), em que reúne perfis de figuras femininas históricas.

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    Capa de Folhas Soltas, obra que reúne poemas de Ruth Guimarães (reprodução/reprodução)

    Abaixo, compartilhamos três poemas da autora: “Foi bom que não viesses”, “Olhos negros” e “Noite”

    Foi bom que não viesses

    Foi bom que não viesses

    meus braços estendidos.

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    Se te voltasses, comovido,

    talvez teus braços me enlaçassem

    e nunca mais se desatassem,

    e talvez não partisse.

    Talvez ficássemos unidos,

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    loucos de amor,

    de amor perdido,

    se soubesses.

    Mas foi bom que não viesses!

    Se os teus lábios

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    nos meus lábios pousassem,

    talvez tudo esquecêssemos.

    Mas foi bom que não viesses.

    Olhos negros

    Teus olhos são negros, negros,

    como as noites sem luar…

    são ardentes, são profundos,

    como o negrume do mar.

    Sobre o barco dos amores,

    da vida boiando à flor,

    douram teus olhos a fronte

    do gondoleiro do amor.

    Tua voz é a cavatina

    dos palácios de Sorrento,

    quando a praia beija a vaga,

    quando a vaga beija o vento.

    E como em noites de Itália

    ama um canto o pescador,

    bebe a harmonia em teus cantos

    o gondoleiro do amor.

    Teu sorriso é uma aurora

    que o horizonte enrubesceu,

    rosa aberta com biquinho

    das aves rubras do céu.

    Nas tempestades da vida

    das rajadas no furor,

    foi-se a noite, tem auroras,

    o gondoleiro do amor.

    Teu seio é vaga dourada

    ao tíbio clarão da lua,

    que ao murmúrio das volúpias,

    arqueja, palpita nua.

    Como é doce, em pensamento,

    do teu colo no langor

    vogar, naufragar, perder-se,

    o gondoleiro do amor!?…

    Teu amor na treva é um astro

    no silêncio uma canção,

    é brisa – nas calmarias,

    é abrigo – no tufão.

    Por isso eu te amo, querida,

    quer no prazer, quer na dor…

    Rosa! Canto! Sombra! Estrela!

    do gondoleiro do amor.

    Há floradas de luz pelos espaços,

    se chegas sorridente, sem saber,

    que, no enlevo de estar entre os teus braços,

    meu coração apressa o seu bater.

    Esses teus braços, meu amor, são laços

    humanos com que prendes o meu ser,

    e os teus beijos marcando vão compassos

    no ritmo encantado de viver.

    Se é pecado amar, impenitente,

    não me arrependo, pois teu beijo quente,

    teu beijo de um esplêndido calor,

    vai reflorindo no meu corpo moço,

    que eu liberto num trêmulo alvoroço

    à emoção nova do meu grande amor.

    noite

    Vem a janela,

    de onde se vê a noite

    e o céu de esplêndidos luzeiros.

    Contemplaremos encantados

    com quieto assombro

    os astros que caminham

    e todavia estão parados.

    ombro a ombro

    rosto a rosto encostado

    permaneceremos tão longe um do outro

    como aquelas estrelas

    que daqui nos parecem tão juntinhas.

    E quem nos vir da rua

    (lá fora a noite não é bela,

    mas cruel

    e o vento usa chicotes)

    há de pensar que somos bem felizes.

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