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OLÁ,

Complexidade da vida e carreira de Vivien Leigh, atriz de “E o Vento Levou”, é tema de nova biografia

Lyndsy Spence, autora do livro "Where Madness Lies: The Double Life of Vivien Leigh", conversa com exclusividade à Bravo! sobre os bastidores da publicação

Por Ana Claudia Paixão
Atualizado em 14 fev 2025, 18h52 - Publicado em 14 fev 2025, 07h00
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Vivien Leigh em Anna Karenina (1948) (IMDB/reprodução)
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Sempre fui fã de Vivien Leigh, desde que a descobri quando vi E o Vento Levou pela primeira vez em algumas das exibições na TV aberta. Tudo sobre o que ainda era “o maior filme jamais feito em Hollywood” era dramático, grandioso e cheio de lendas. Ela era linda, talentosa, inglesa e carrega o filme de 3 horas nas costas. Passados não sei quantos anos, sigo encantada com ela, mas por razões diferentes.

A primeira biografia que li sobre ela, assinada por Anne Edwards, revelou para o mundo pela primeira vez uma verdade que ficou omitida por décadas: nos bastidores, Vivien sofria de um transtorno ainda pouco conhecido nos anos 50s, na época chamado de psicose maníaco-depressiva. Hoje mais conhecido como transtorno bipolar, e que se caracteriza por alternâncias entre períodos de mania e de depressão. O tratamento na época? Choques elétricos em altas descargas. Um processo dolorido, doloroso e ineficiente, mas traumático.

Desde essa descoberta, a narrativa sobre Vivien sempre se volta para sua frágil saúde mental, muito mais do que seu inegável talento (tem dois Oscars de Melhor Atriz), o que é triste. Os fãs de Vivien têm uma característica de tentarem proteger sua memória, ressaltar a importância de seu legado e manter viva sua história.

Nesse cenário, em plena pandemia, fui abordada pela escritora Lyndsy Spence, que estava pesquisando sobre a passagem de Vivien Leigh pelo Brasil, em 1962. Na época, Vivien foi apresentada à atriz Maria Fernanda, que interpretava Blanche Dubois no teatro (papel pelo qual Vivien ganhou prêmios no teatro e o Oscar), mas reparou que a colega estava triste. Maria Fernanda, filha da poetisa Cecilia Meireles, estava preocupada com a mãe, internada e muito doente. Vivien, em segredo, descobriu o hospital e foi visitar a poetisa, que levou um susto ao acordar e ver “Scarlet O’Hara sentada ao seu lado no hospital”. Escreveu um poema para a atriz, um que Lyndsy cita no livro e que nem é muito conhecido, mas reflete exatamente quem Vivien era e o que sentia naquele momento de empatia.

Desde então, Lyndsy e eu ficamos em contato, a entrevistei sobre a biografia que ela escreveu sobre Maria Callas, Cast– a- Diva, que foi uma das fontes para o filme Maria. Nosso combinado é que nos falaríamos novamente quando o livro sobre Vivien Leigh ficasse pronto, o que levou mais uns dois a três anos. O livro se chamaWhere Madness Lies e chegou aos Estados Unidos agora no início de 2025. Ainda não tem previsão para ser traduzido por aqui (mas espero que seja logo!) e Lyndsy conversou com exclusividade para Bravo! sobre o que seu trabalho revelou sobre uma das maiores lendas do teatro de do cinema mundial.

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Bravo!: Prazer em te ver de novo! Tenho que te parabenizar. Eu li, como você, todas as biografias que eu consegui, eu vi todos os documentários que eu consegui ver, e ainda assim, eu fiquei muito tocada pelo seu livro. Não estava esperando [me emocionar], mas você atingiu um nervo, como se diz em inglês. Você tocou em algo muito profundo. Voltando para as pessoas que não conhecem a Vivien Leigh: como você a “descobriu”?

Lyndsy Spence: Como todo mundo, foi com E O Vento Levou, mas eu conhecia o nome Vivien Leigh, porque sua mãe, Gertrude, era parente do meu bisavô irlandês. Sempre tive interesse em saber quem era a Vivien por atrás de ScarletO’Hara e Blanche Dubois e do casamento com Laurence Olivier. Por isso, quando tinha 17 anos, escrevi um roteiro para um filme, e assim consegui despertar interesse de um agente literário e de produtoras.

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(IMDB/reprodução)

Bravo!: Mas o livro não foi escrito nessa época…

Lyndsy Spence: Não. Deixei de lado e fiz outras coisas focando nas irmãs Mitford [além de Maria Callas e Vivien Leigh, Lyndsy escreveu biografias de outras mulheres como as irmãs Mitford e a Duquesa de Argylle] , mas sempre me senti como se tivesse algo incompleto com a Vivien. Só que por ter sofrido trolagem por causa do livro de Maria Callas, não queria mais escrever outro [alguns fãs e autores se ofenderam que Lyndsy tenha revelado em seu livro o vício de remédios de Callas, algo que está no filme “Maria”]. Mas meu editor naquela época, disse, por favor, escreva outro livro e perguntou “O que aconteceu com o Vivien Leigh?, e quietamente, comecei a trabalhar em algo.

Bravo!: E qual foi o principal desafio?

Lyndsy Spence: Eu não queria terminar em uma nota triste. Pensei que ela tinha tanta tristeza, e eu acho que eu disse algo como, quando ela morreu, ela teve o privilégio de estar sozinha, porque tudo tinha acontecido em frente a milhões de pessoas e ela finalmente teve essa dignidade, mas eu também queria termina-la em um alto nível. Eu pensei, quando eu vou terminar esse livro? De que jeito eu deveria terminar?

Bravo!: E como encontrou a solução?

Lyndsy Spence: E eu estava ouvindo as gravações do seu último parceiro, Jack Merivale. Tenho que confessar que não gostava dele, sentia como se você está se aproveitando da Vivien”, mas quando eu li, percebi que ele era tão bom para ela, e ele era um cara legal. Escutando as suas gravações no Arquivo da UCLA, ele falou sobre o dia mais perfeito que teve com o Vivien antes dela morrer. E não vou dar spoiler, mas eu uso isso como final para explicar que depois de todo o drama, ela finalmente ficou em paz. E depois escrevi um adendo, mesmo que muitas pessoas digam que “isso é meio bizarro.

Bravo!: Por que essa escolha?

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Lyndsy Spence: Na minha cabeça estava escrevendo um roteiro de filme em vez de fazer uma biografia direta. Se alguém quisesse adaptá-lo podia só usá-lo, porque com Callas eu queria que o livro fosse quase como um libreto de ópera. Com a Vivien queria entrar na mente dela, quando você está tão mal e nada faz sentido, nada é linear. Por isso quis usar os gatilhos para unir sua história e colocá-la de volta no controle. Ela estava sempre tentando encontrar seu caminho de volta para casa.

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Vivien Leigh junto com Clark Gabçe em E o vento Levou (IMDB/reprodução)

Bravo!: E gostou do resultado?

Lyndsy Spence: Não acho que poderia ter feito isso com 17 anos [o roteiro original], mas obviamente estou mais velha, e espero ter conseguido. Sempre tem sempre aquela parte de você que pensa que os fãs vão ser tão horríveis, mas eles não foram. Que as pessoas vão pensar que isso é louco, e algumas pensaram. Mas, assim como você, a maioria das pessoas que já leu Where Madness Lies: The Double Life of Vivien Leigh sentiu que o livro ressoou com elas, especialmente as mulheres. Quase tocou um nervo, mas não quero traumatizar ninguém que estiver lendo essa matéria [risos].

Bravo!: Uma das surpresas que eu tive, o título do livro indica se alguém ainda não sabe, que Vivien foi diagnosticada com uma condição na época chamada de depressão maníaca, mas que hoje sugere que fosse Transtorno Bipolar, uma condição crônica que se caracteriza por alternâncias de humor. Na época não havia tratamento, e basicamente, Vivien foi tratada como uma pessoa louca.

Lyndsy Spence: Sim, o marido dela [Laurence Olivier] acreditava que Vivien era esquizofrênica e possivelmente estava certo. Até hoje, com o nível [frágil] de saúde mental dela, seria muito difícil tratá-la, porque, infelizmente, com algumas pessoas parece que remédios não funcionam, e isso é muito triste.

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Laurence Olivier e Vivien Leigh, por volta de 1939 (IMDB / mptvimagescom/reprodução)



Bravo!: E o fato de que ela era uma atriz em um estado tão frágil – atores têm que ter a sensibilidade aguçada para performar como outra pessoa – e ela nem sabia exatamente quem ela era.

Lyndsy Spence: Exatamente.

Bravo!: Como você disse, é triste. A tristeza permanece. Você se sente triste por ela, pela falta de controle que ela tinha, a compreensão e tudo mais. Mas uma das surpresas do livro foi que você vai direto no ponto. Abre quando estava numa crise das piores crises [nos bastidores de No Caminho dos Elefantes, quando teve um colapso e não conseguiu completar o filme]. Por que fez essa escolha?

Lyndsy Spence: Normalmente, quando eu escrevo meus livros de história, sempre estou interessada em o que acontece antes de uma guerra ou um conflito. Há aquele senso falso de segurança, de paranoia. Olhe os incêndios em Los Angeles: um minuto as pessoas estão nos Golden Globes, e no próximo tudo está destruído. Sou interessada sobre isso na natureza humana. E eu pensei em Vivien, quando em um minuto tudo é normal e previsível, mas no próximoestá girando fora de controle.

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Vivien Leigh em cena de E o vento levou (1939) (IMDB/reprodução)
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Bravo!: De certa forma, nós tendemos a pensar que o momento mais importante da sua vida foi conhecer Laurence Olivier, ou foi fazer Scarlet O’Hara, mas foi justamente um filme praticamente esquecido que mudou toda a narrativa dela e a expôs para o mundo…

Lyndsy Spence:… e para seus pares da indústria. Quando ela voltou para a Hollywood para fazer trabalho de estúdio, as pessoas achavam que ela estava sendo muito rude. As pessoas eram muito negativas e a julgavam. A partir do momento que seu problema não era mais privado, todo mundo passou a ter uma opinião. É quase como se ela estivesse completamente nua na frente de todo mundo que ela conhecia. A verdadeira essência dela era gentil, mesmo que falasse palavrão, ela era amável e generosa. Quando se recuperava da escuridão, percebia que as pessoastinham medo dela.

Bravo!: Confesso que em um momento ou outro do livro senti como se ela não fosse uma boa pessoa, e não estava pronta para não vê-la mal. Ou má. E confesso, que li as biografias de Laurence Olivier, apenas para saber mais sobre ela. Queria saber como falaria de Vivien, mas hoje também me incomoda na insistência da versão desse grande amor, que o final era uma relação tóxica e que foi uma grande paixão, mas longe de perfeito.

Lyndsy Spence: Pra mim, o primeiro marido de Vivien, Leigh Holman, é a grande história de amor da vida dela.  Senti que talvez se ela tivesse vivido um pouco mais, embora não fossem românticos de novo, certamente seriam companheiros. No final, Vivien parecia gravitar para ele em muitos momentos como Natal, aniversários, festas. Senti que eles poderiam ter voltado a ficar juntos.

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Em cena icônica de E o vento Levou, com Clark Gable (IMDB/reprodução)



Bravo!: Ele realmente a amou e mesmo esperando algo diferente, a deixou ser quem queria ser: uma atriz. Depois da separação, cuidou da filha deles, e ajudou a Olivier quando Vivien colapsou. O amor dele trazia um pouco de  


Lyndsy Spence:Paz, sim. Quando estava trabalhando no livro, ouvia muito Taylor Swift, só para entrar no mindset e ela tem essa letra que eu pensei que resume perfeitamente na qual diz tentando mudar o final, Peter perdendo Wendy [é a canção Cardigan]. Tem uma foto de Leigh e Vivien comorecém-casados, estão juntos segurando um cachorro e outra já como um casal mais velho, tirada antes de Vivienmorrer, com eles também segurando um cachorro. Senti como se tudo no meio tenha sido apenas barulho e aquele fosse o final do livro deles.  Jack Merrivale disse que Vivien nunca perdeu o controle em frente de Leigh, então ele nunca a viu gritando ou sendo violenta. Ele sabia que ela sofria, mas nunca foi o alvo. Ele era naturalmente um bom homem, e eu acho que ela foi muito feliz por tê-lo.

Bravo!: Durante a sua pesquisa, o que surpreendeu você?

Lyndsy Spence: Conhecia a história dela profundamente, por isso certamente foi o relacionamento com Leigh Holman. Sempre o vi como uma pessoa silenciosa, não importante, mas entendi que ele pode ter sido a pessoa mais importante de todas. Também não percebi até que comecei a ouvir coisas e ler coisas, que Olivier se ressentiu de Vivien por muito mais tempo do que eu sabia. Acho que ele disse que não poderia ter a amado todo esse tempo”.

Bravo!: Influenciada por Olivier, Vivien se dedicou mais ao teatro onde suas atuações, mesmo elogiadas, não foram imortalizadas…

Lyndsy Spence: Na verdade, depois de 1953 [quando teve o colapso nervoso], foi muito difícil garantir que os estúdios confiassem nela, e acho que é por isso também que ela ficou mais no teatro. Ela fez filmes menores como Deep Blue Sea, até que veio Blanche Dubois [Em Um Bonde Chamado Desejo, pelo qual Vivien ganhou seu segundo Oscar de Melhor Atriz]. Outras atrizes, se você pensar, como a Anne Bancroft, depois de ganhar o Oscar por O Milagre de Anne Sullivan (The Miracle Worker), continuou crescendo, mas Vivien pareceu regredir.

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Marlon Brando e Vivien Leigh em Um Um Bonde Chamado Desejo (1951), performance pela qual qla foi ganhou o oscar de Melhor atriz (IMDB/reprodução)



Bravo!: Talvez o papel de Blanche tenha sido muito perto da realidade para ela?

Lyndsy Spence: Talvez. É verdade, porque quando ela fez Titus Andronicus, estava muito mal. Alguém me disse que sabia da doença dela e todas as coisas que aconteceram, mas que ficou muito tocado depois de ler meu livro e saber que ela tinha trabalhado tão duro mesmo muito doente. Por isso Where Madness Lies também é um testemunho de sua força.

Bravo!: Não é incrível que Hollywood ainda não explorou a história de Vivien nas telas?  

Lyndsy Spence: Às vezes eu acho que há barreiras em algumas coisas. Gene Tierney é outra atriz, com a mesma doença e a mesma história de Vivien, que não foi “descoberta” pela Hollywood atual.  Às vezes é só precisa de alguém qie se interesse e tenha a paixão de dirigir e fazer isso de forma adequada para acontecer.

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Vivien Leigh em cena de E o vento levou (1939) (IMDB/reprodução)
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Bravo!: Quem você acha que pode interpretar Vivien hoje?

Lyndsy Spence: Bem, às vezes eu acho que fisicamente, como sua aparência, eu acho que a Rachel Weisz seria uma boa escolha, mas, em termos da emoção e da reserva inglês, além do drama, acho que a Kate Winslet teria essa variedade. Também a atriz que fez a Lady Sibyl em “Downton Abbey” [Jessica Brown Findlay]  parece coma jovem Vivien. Vivien tinha uma voz muito suave quando ela era mais jovem.

Bravo!: Julia Ormond a interpretou em Sete Dias com Marilyn (My Week With Marilyn)

Lyndsy Spence: Sim, a interpretou com autoridade. Tinha esquecido dela. Alguém a interpretou na série de Ryan Murphy [“Hollywood”, disponível na Netflix], como uma bêbada. Foi tão ofensivo.

Bravo!: Ainda sobre Vivien Leigh, como você vê a paixão dela por Peter Finch?

Lyndsy Spence: Quando eu comecei a pesquisar sobre ele, pensei que ele ia ser alguém sem sofisticação, mas fiquei surpresa que ele era muito educado, muito sensível, mas massivamentecomplexo. Era mulherengo e alcoolotra, mas Vivien certamente se sentiu atraída por ele, algo que ela tinha perdido com Olivier e isso foi, obviamente, a força dirigente. Peter Finch era bastante danificado e isso os ligou. Olivier era muito fechado e meio que escondia seustraumas anteriores, todas as coisas que tinham acontecido com ele na sua infância e fez Vivien se sentir histérica.

Peter e Vivien eram espíritos amigáveis. Quando se reencontraram nos anos 60s, ele estava pior e ela estava em outro nível espiritual, como se soubesse que seu tempo na Terra estava chegando ao fim. Ela tinha alcançado essa espécie de nirvana, tinha feito paz com si mesma, com seu passado e com sua família. Ele morreu jovem também, mas não conseguiu aquela paz interna que estava procurando em todos os lugares errados. O fato é que Vivien realmente amava Olivier. Eles eram mais “Twin Flames do que almas gêmeas. Na minha opinião, o fator mais importante, e é o mesmo com Callas e Onassis, é que não houve conclusão. Olivier não deu esse fechamento e ela estava sempre procurando “o que eu fiz errado?”, “posso me desculpar?”, mas ele a evitava. Quando não há um fechamento de ciclo, você continua voltando, não é?

Bravo!: Então, quem é a próxima a biografar?

Lyndsy Spence: Talvez Sibyl Leake. O que eu adoro sobre Sibyl Lake é que ela era uma bruxa famosa nos anos 50 e 60. Durante a II Guerra, ela fez horóscopos para os nazistas para enganá-los e atraí-los para a Inglaterra, onde eles foram capturados. Todo mundo pensava que ela era uma louca, mas foi para os Estados Unidos com 40 anos e virou uma celebridade, escreveu livros, deu entrevistas.

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