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Como são criados os figurinos dos grandes shows da música brasileira

Estilistas revelam os processos criativos e os detalhes por trás dos looks de Gilberto Gil, Marisa Monte, Djavan e outros astros

Por Erika Palomino 7 nov 2026, 08h00
Gilberto Gil, cantor e compositor, em close-up durante show, cantando com os olhos fechados, usando óculos e camisa vermelha com estampas de coqueiros brancos, tocando guitarra vermelha, contra fundo escuro
Gilberto Gil em 'Tempo Rei': figurino assinado pela Farm (Pridia/divulgação)
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Turnês recentes de grandes nomes da música brasileira vêm embaladas e interpretadas por nomes que traduzem em estética e vestuário as melodias e vozes que, por sua vez, ajudam a definir a cara do Brasil.

São processos criativos únicos, construídos por meio da colaboração entre artistas, estilistas, marcas e equipes das mais variadas. Tão ricos quanto a moda e a música brasileiras. Alinhados com o que há de mais cool e, portanto, contemporâneo, são figurinos que funcionam como desdobramentos da personalidade de quem sobe ao palco para cantar o país.

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Podemos olhar lá para 2022, quando Ronaldo Fraga vestiu Milton Nascimento para sua última turnê em mantos sob a influência de Arthur Bispo do Rosário (1909-1989), que serviram de inspiração para a coleção do estilista em outubro de 2025, seu retorno ao São Paulo Fashion Week, que fez todo o público chorar.

Gilberto Gil

Outro artífice da nobreza brasileira, Gilberto Gil, foi vestido pela Farm em sua derradeira turnê, Tempo Rei. Liderado por Nelson Camargo, diretor criativo do Estúdio Farm Rio, o projeto foi desenvolvido ao longo de quase um ano. “Foi um projeto muito especial, quase um presente”, conta Camargo à BRAVO!. “Queríamos que todos se sentissem felizes, confortáveis e representados em um momento tão importante quanto essa turnê.”

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Ilustração de uma pessoa em pé, com cabeça e mãos em tom de pele claro, vestindo um conjunto vermelho com estampa floral branca e amarela, e sapatos marrons
Desenho do figurino de Gil: turnê de despedida (Farm/divulgação)

Foram criados figurinos para Gil, quatro backing vocals e dezesseis músicos. Para o cantor, especificamente, também foram desenvolvidas versões de verão e inverno, considerando as diferentes estações, regiões brasileiras e apresentações internacionais do show que começou a rodar o mundo em março de 2025.

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Definido pela marca como “alfaiataria tropical”, o figurino prioriza linho, seda e algodão (a cartela de cores reúne branco, ocre e o vermelho-cereja favorito do cantor, enquanto nas roupas da banda predomina o off-white). A pesquisa iconográfica deu origem a elementos gráficos como o sol, palmeiras e outros signos tropicais que aproximam o universo do artista à bem definida identidade da Farm.

Marisa Monte

Diferentemente das passarelas e das peças que vão para as vitrines, os looks dos palcos devem privilegiar primeiramente a mobilidade. Caso das peças grandiosas criadas pelo estilista Vitor Zerbinato para Marisa Monte, que caiu na estrada, em outubro de 2025, com a turnê Phonica — Marisa Monte & Orquestra ao Vivo.

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Mulher de pele morena, vestindo um longo e volumoso vestido vermelho, sentada no chão com a cabeça erguida e o olhar para cima. Ela tem flores roxas no cabelo e uma mão no queixo, em pose pensativa, contra um fundo cinza claro
Marisa Monte: figurino da turnê Phonica (Leo Aversa/divulgação)

Segundo ele, o ponto de partida era unir leveza, volume e dramaticidade sem comprometer o conforto. Ao longo da turnê, a estrutura das peças precisou ser adaptada: as costas e as laterais receberam acabamentos em lastex, porque a expansão muscular que se dá durante o canto fazia com que os cortes ficassem apertados. “Fui adaptando essa coisa com cara de alta-costura para a realidade de um show”, explica Zerbinato em entrevista à BRAVO!. “Marisa já é emocionante. Acrescentei um pouco mais de glamour a essa deusa que ela é.”

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Para o show em que ela vem acompanhada de 55 instrumentistas, a cantora queria um figurino sofisticado, em tecidos nobres. “E alguma coisa com bastante movimento, bastante volume e um pouco de drama”, conta o estilista. “Pensamos em fazer uma espécie de camisola, só que um pouco mais estruturada. A parte de cima é como se fosse um corset e, depois, vem uma saia godê, para dar todo o movimento. A dramaticidade vem de uma máxi chemise que construímos com uma cauda bastante volumosa, mangas bem exageradas e uma espécie de quimono. Assim, ela poderia simplesmente desamarrar o laço da cintura e retirar essa parte rapidamente”, revela.

A brincadeira com as cores entrou em cena. Durante toda a turnê, em cada capital por onde passasse, ela queria misturá-las de maneiras diferentes. Para isso, as chemises e as bases usadas por baixo foram feitas em cinco cores. E Marisa começou a misturar tudo: em Porto Alegre, foi um visual inteiramente branco; em São Paulo, roxo com verde-pistache. “Não conseguíamos encontrar o tafetá nas cores que ela havia sugerido”, diz o designer. E, então, a própria cantora passou a comprar os tecidos em viagens internacionais, enviando por foto os tons das amostras. “Adorei o resultado, achei emocionante.”

Alceu Valença

Na turnê comemorativa dos 80 anos de Alceu Valença, o figurino do cantor e de sua banda vem assinado por Isabela Capeto. A principal inspiração foi o Movimento Armorial, criado por Ariano Suassuna a partir do encontro entre a cultura popular e a erudita e da valorização das tradições nordestinas. O trabalho se concentrou principalmente nas jaquetas, peças emblemáticas tanto para o guarda-roupa do artista quanto para a trajetória de Isabela Capeto.

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Homem de cabelos longos e escuros, chapéu marrom, óculos de sol redondos e boca aberta em um sorriso, vestindo uma capa de cetim laranja com estrelas douradas bordadas, em um fundo verde-oliva
Para compor o visual de Alceu, a principal inspiração foi o Movimento Armorial, criado por Ariano Suassuna (Leo Aversa/divulgação)

Para a turnê, foram criadas, então, a jaqueta Sacra; a jaqueta Estação da Luz; e a Bottons, modelo que já integrava o repertório da marca e recebeu outros broches com referências ao cangaço. Já a Tropicana é uma releitura de uma peça do próprio cantor e incorpora, por meio de bordados e aplicações, as famosas frutas citadas na música. O resultado é extremamente fiel ao estilo de Isabela e de Alceu.

Djavan

Para a turnê Djavanear — 50 anos, a stylist Suyane Ynaya assumiu a construção dos figurinos de Djavan. E, de novo, o palco deu o tom. Ela teve que levar em conta fatores como a iluminação do show, a temperatura em cena, o movimento do cantor e sua segurança: os sapatos precisaram ser adaptados para reduzir qualquer risco de escorregar.

Cantor Djavan sorrindo, com dreadlocks escuros, vestindo camisa preta e casaco cinza, segurando um microfone preto na mão esquerda, em palco iluminado por luzes vermelhas e azuis
Djavan escolheu os tons e Suyane Ynaya assumiu a construção (Iris Alves/divulgação)

A escolha das cores também foi essencial: azul-marinho, bordô, cinza e bege estavam entre os tons solicitados pelo cantor. Uma das marcas convidadas foi a Francesca, de Francesca Monfrinatti, responsável por desenvolver peças de alfaiataria a partir de referências muito precisas fornecidas pelo artista, que participou ativamente de todas as etapas, aprovando materiais, pontos de tricô, amostras de cor e acabamentos ao lado de Suyane.

Lenine

A parceria entre Lenine e Gilda Midani atravessa muitos anos e se estende para além do figurino: na fase mais recente, Gilda também assinou a direção criativa e as fotos do ídolo pernambucano para o álbum batizado de Eita. O guarda-roupa de palco desenvolvido por ela é marcado por silhuetas amplas e confortáveis, tecidos naturais, como linho e algodão, tingimentos artesanais e cores terrosas, bem a cara de Gilda Midani.

Cantor de cabelos longos e barba grisalha, sentado em banqueta, tocando violão e cantando em microfone, iluminado por luzes verdes e vermelhas em palco escuro
Lenine veste figurino de Gilda Midani: fluidez e conforto (Malu Freire/divulgação)

Gilda define Lenine por meio de encontros aparentemente improváveis: “Ele é essa mistura de João Cabral com Tom Jobim. Tem a pureza e a potência de um rio, de uma montanha, de uma árvore. E tem também a sensualidade do beat”, ela conta, no material de divulgação do trabalho. A ideia inicial para o figurino era criar “uma coisa de cangaceiro, de veludo preto”, meio rock, à la Jim Morrison. “No fim, é sempre uma conversa entre cor e tecido”, resume Gilda. ■

Publicado em BRAVO! de agosto de 2026, edição nº 193

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