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‘Equilibrium’: a encruzilhada encantada de Anitta em seu novo disco

O poeta Ramon Nunes Mello mergulha no álbum duplo da cantora carioca: "Ouvi como quem atravessa um livro de fantasia brasileira"

Por Ramon Nunes Mello 29 jul 2026, 13h59 | Atualizado em 29 jul 2026, 17h27
Mulher de cabelos longos e castanhos, sem blusa, com um bracelete dourado no braço esquerdo, carrega um vaso de barro com flores vermelhas na cabeça, olhando para a frente. O fundo é uma parede clara e texturizada
Anitta em 'Equilibrium II': novo disco (André Nicolau/divulgação)
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‘Equilibrium’: a encruzilhada encantada de Anitta em seu novo disco Priorizar nos meus resultados Google

Este texto nasceu para ser uma crônica, uma tentativa de registrar a experiência de ouvir Equilibrium I e Equilibrium II, de Anitta, como quem atravessa as páginas de um livro de fantasia. À medida que as canções revelaram suas camadas de ancestralidade, fé, corpo, memória e transformação, a crônica encontrou uma encruzilhada e pediu outro caminho. O que era apenas uma impressão de escuta tornou-se um ensaio sobre Anitta diante de uma passagem simbólica: entre o global e o ancestral, entre o pop e a tradição, entre o corpo e o espírito, entre tudo aquilo que ela já construiu e os caminhos que ainda escolhe abrir.

“Exu matou um pássaro ontem com a pedra que atirou hoje”, provérbio iorubá

Porque algumas obras chegam para nos fazer pensar sobre os mundos que carregamos dentro de nós. Ao ouvir Equilibrium, acabei lendo Anitta. Ouvi como quem atravessa um portal. Porque toda grande fantasia começa quando aceitamos que existe algo além daquilo que os olhos conseguem ver. O mundo conhecido se abre e revela outras camadas da realidade: seres ancestrais, forças invisíveis, territórios mágicos, vozes que atravessam o tempo.

Foi assim que escutei os dois álbuns: como uma narrativa fantástica brasileira. Uma jornada em que a protagonista chega a uma encruzilhada e precisa escolher não entre dois mundos opostos, mas entre diferentes possibilidades de existir. Há discos que chegam para confirmar uma trajetória. Outros chegam para reinventá-la. Equilibrium pertence a essa segunda categoria. Os dois álbuns juntos funcionam como um rito de passagem: o momento em que uma artista revisita tudo aquilo que construiu para abrir novos caminhos.

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O mais interessante nessa obra não é apenas afirmar que o disco é bom. A questão mais profunda é perceber que Equilibrium propõe uma nova chave de leitura para a própria Anitta e para a música pop brasileira. Porque Anitta está diante de uma encruzilhada simbólica, entre a velocidade do mercado e o tempo profundo das tradições.

O movimento mais surpreendente do álbum é que ela não tenta negar nenhuma das versões anteriores de si mesma. Não abandona a artista pop, a mulher sensual, a performer, a figura que compreendeu como poucos as linguagens do seu tempo. Ela integra.

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E essa é a palavra central de todo o projeto: integrar.

Equilibrium aponta para um outro futuro de Anitta, aos 33 anos, no auge do sucesso de sua trajetória: não apenas como uma estrela internacional, mas como uma artista brasileira que compreendeu que sua potência também está na escuta das próprias raízes, na ancestralidade, na literatura, na espiritualidade e nas muitas vozes que formam este país.

Ao mesmo tempo, o álbum abre uma possibilidade para a própria música brasileira: um pop que não precise escolher entre o mundo e o Brasil; entre o contemporâneo e o ancestral; entre a tecnologia e a tradição. Um pop que compreenda que o futuro também nasce da memória.

Mulher de pele morena, cabelo escuro preso e flor branca na orelha, sentada descalça no chão de terra. Veste um vestido preto com detalhes coloridos e uma capa brilhante com franjas amarelas. Ao fundo, uma parede de nichos decorados com velas acesas, flores, fotos e objetos religiosos, evocando um cemitério ou altar festivo
Anitta lança álbum duplo: disco celebra a cultura brasileira (André Nicolau/divulgação)

A fantasia brasileira

A fantasia, na tradição ocidental, nunca foi escapismo. De Tolkien a N. K. Jemisin, os mundos imaginários surgem da percepção de que o mundo visível não é suficiente. Existe sempre uma camada escondida da realidade, um território invisível em que outras formas de existência e conhecimento podem aparecer.

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O Brasil nunca precisou importar seus mundos fantásticos. Nossa fantasia já existe. Ela vive nos encantados, nos caboclos, nas pretas velhas, nos exus, nos boitatás, nos curupiras, nos orixás, nas entidades das matas e nos saberes transmitidos pela oralidade. Talvez um dos grandes movimentos de Equilibrium seja compreender que o Brasil já possui sua própria mitologia. Não precisamos criar elfos ou magos. O extraordinário sempre esteve aqui.

O álbum nos lembra que a floresta, o terreiro, o corpo, a ancestralidade e a palavra também são territórios fantásticos. A magia brasileira não está separada da vida cotidiana. Ela atravessa a música, a dança, a comida, a memória e os encontros. Nesse sentido, Anitta realiza um movimento raro no universo pop: ela não olha para a fantasia como algo estrangeiro. Ela reconhece que o Brasil é um país de encantados.

Carmen Miranda: uma ancestral pop 

Há ainda uma ancestral fundamental desse imaginário: Carmen Miranda (1909-1955). Antes de Anitta, Carmen transformou o corpo, a música e a performance em uma linguagem capaz de levar uma ideia de Brasil para o mundo. Seus turbantes, cores, gestos e símbolos criaram uma estética que, mesmo atravessada por contradições e pelos olhares estrangeiros sobre o país, revelou a potência inventiva da cultura brasileira.

Essa aproximação com Carmen também passa pela literatura. Anitta contou que ganhou e leu Carmen: uma biografia (2005), de Ruy Castro. Ao conhecer sua trajetória para além do mito, encontrou uma mulher que também precisou equilibrar a identidade brasileira e a projeção internacional, o sucesso e as cobranças, o corpo e a criação.

O livro revelou uma ancestral artística: uma mulher que fez da própria existência uma linguagem. Carmen inventava possibilidades para o Brasil ao cantar. Ao revisitar essa história, Anitta reconhece uma linhagem de mulheres brasileiras que transformaram o corpo, a música e a imaginação em territórios de liberdade. Carmen Miranda criou uma fantasia brasileira para o século XX; Anitta parece reinventá-la no século XXI, ampliando esse imaginário com a ancestralidade afro-brasileira, os povos originários, a espiritualidade e a ideia de encantamento que atravessa todo Equilibrium.

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Mulher sorridente, com maquiagem e batom vermelho, usando um vestido preto de veludo com morangos e um chapéu de abóbora com folhas de palmeira. Ela está em um palco com um fundo azul e abóboras desenhadas, com as mãos levantadas em pose de dança
Anitta como Carmen Miranda: homenagem (André Nicolau/divulgação)

A mata, a encruzilhada e a sabedoria dos caboclos

A fantasia brasileira de Equilibrium não se limita às figuras mais conhecidas do imaginário afro-brasileiro. Ela também atravessa a sabedoria dos povos das matas: os caboclos, que carregam a memória da floresta, dos rios, das folhas e dos caminhos antigos. São vozes que guardam conhecimentos sobre cura, equilíbrio, proteção e relação com a terra. Não representam um passado distante. São presenças vivas.

Nos cantos para a Jurema, existe uma compreensão profunda de que a natureza não é cenário. A natureza é sujeito. A árvore tem memória. A folha tem força. A mata tem espírito. A Jurema é uma passagem entre mundos, um território de escuta e conexão com ancestrais, encantados e saberes que sobreviveram ao apagamento histórico.

Quando um caboclo canta para a Jurema, não está apenas entoando uma música. Está abrindo um caminho. O canto funciona como ponte entre o visível e o invisível, entre a experiência humana e os mistérios da floresta. Essa é uma das grandes forças de Equilibrium: compreender que a espiritualidade brasileira não está apenas nos templos ou nos livros. A conexão espiritual está também nos pontos cantados, nas rezas, nos corpos que dançam e nas vozes que atravessaram gerações.

Existe filosofia na mata, literatura no canto, memória na voz e futuro na ancestralidade.

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A floresta como território de memória

A floresta brasileira de Equilibrium não é apenas um território simbólico. Ela é também território ancestral, onde sobrevivem conhecimentos, línguas, cantos e cosmologias dos povos originários.

A presença indígena no álbum, especialmente na canção OKE, amplia a compreensão de que a fantasia brasileira não pode existir sem reconhecer aqueles que primeiro escutaram os segredos da terra. Com a participação do grupo indígena Brô MC’s e da cantora indígena Katú Mirim, OKE não aparece como uma referência superficial à cultura originária. A presença indígena está colocada como voz, pensamento, tecnologia, existência e resistência.

O canto se torna território de encontro. O ponto mais político da música é a enumeração rítmica de diversas etnias indígenas brasileiras: “Pataxó, Tikuna, Múra, Terena, Turuwara, Guajajara, Potiguara, Tapeba, Tupinambá, Ianomami, Kayapó, Munduruku, Ashaninka, Kalapalo, Makuxi, Xucuru e Guarani-Kaiowá”. A música lembra que a ancestralidade brasileira não é uma imagem congelada no passado, mas uma força viva que continua criando linguagem, arte e futuro. Os povos originários nos ensinam que a floresta não é somente paisagem. Ela é parente, memória, conhecimento e tecnologia.

Em OKE (saudação a Oxóssi), Equilibrium amplia sua mitologia brasileira: o encantado não está somente nos terreiros ou nas narrativas populares. Ele também está nas vozes indígenas que resistiram ao apagamento e continuam afirmando que a terra tem história, corpo e espírito.

O tempo dos ancestrais: Elisa Lucinda como preta velha

Existe ainda uma presença fundamental nessa fantasia brasileira construída por Equilibrium: a sabedoria do tempo. 

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No vídeo superproduzido de Equilibrium, a poeta Elisa Lucinda surge como uma preta velha, figura ancestral que carrega não apenas a memória da dor histórica, mas principalmente a força da permanência. Sua presença desloca a ideia ocidental de tempo como uma linha reta, marcada pela pressa e pela produtividade. A preta velha conhece outro tempo: o tempo da escuta, da cura, da paciência e da sabedoria acumulada pelas gerações.

Ela não aparece como uma personagem do passado. É uma presença viva. Uma guardiã de histórias que sobreviveram ao apagamento, uma voz que lembra que a ancestralidade não é uma lembrança distante, mas uma força que continua atuando no presente. A imagem da preta velha é uma das grandes invenções espirituais brasileiras: uma figura construída a partir das experiências das mulheres negras, transformando sofrimento em conselho, memória em cuidado, silêncio em palavra. Sua sabedoria não vem dos livros. Vem do corpo atravessado pelo tempo.

Ao colocar a poeta Elisa Lucinda nesse lugar, Equilibrium reconhece que o futuro não pode existir sem ouvir aqueles que vieram antes. A voz da preta velha é um portal: “Quando vier pra cá, você quer ter gasto seu tempo com o quê?”.

Ela ensina que o tempo não é apenas aquilo que passa. O tempo também é aquilo que permanece.

Mulher com cabelos longos e ondulados, usando top e saia de palha e miçangas, sentada em um búfalo escuro ricamente decorado. Um homem com máscara colorida e roupas claras guia o animal. O cenário é um terreno arenoso com rochas e vegetação seca, sob luz solar intensa
Ensaio de fotos de ‘Equilibrium’: disco com participações de Maria Bethânia e Alceu Valença (André Nicolau/divulgação)

A filosofia da encruzilhada: saber pedir licença

O mitólogo americano Joseph Campbell (1904-1987) fala do chamado da aventura: o momento em que alguém é convocado a abandonar uma antiga forma de existir e atravessar uma transformação. Muito antes de qualquer narrativa ocidental sobre heróis, Exu já ensinava que toda mudança começa com uma escolha.

A encruzilhada não é apenas um lugar físico. É uma filosofia. É o instante em que percebemos que não existe destino sem responsabilidade. Exu não conduz ninguém por um único caminho: ele abre possibilidades. Apresenta escolhas. Exige inteligência, movimento e consciência. Por isso também é senhor da comunicação, da linguagem e da astúcia.

Essa é uma estrutura invisível de Equilibrium. A artista chega a uma encruzilhada. Poderia repetir as fórmulas que lhe garantiram sucesso internacional. Poderia permanecer dentro daquilo que o mercado global espera dela. Mas escolhe outro caminho. Anitta não abandona sua história; amplia a própria narrativa. Exu ensina que equilíbrio não significa imobilidade. Equilíbrio é movimento.

Assim como pediu licença a Exu, no plano espiritual, para iniciar o canto de sua trajetória de encantamento com o invisível, Anitta também pediu licença, no plano terreno, ao babalorixá e doutor em Ciências Sociais Rodnei William, autor do livro O que é apropriação cultural (Pólen Livros, 2019). É ele quem a conduz no ritual do Ori, fundamento das tradições iorubás ligado ao cuidado da própria cabeça, do destino e da dimensão espiritual da existência. Sua presença revela que a cantora compreendeu que não bastava recorrer esteticamente aos símbolos das religiões de matriz africana: era preciso aprender com quem detém esse conhecimento, pedir licença a essa tradição e reconhecer a autoridade daqueles que a preservam.

Essa decisão fortalece a coerência ética de Equilibrium. Em vez de transformar o sagrado em mero elemento cenográfico, Anitta convida um sacerdote reconhecido e um intelectual que há anos pesquisa as relações entre racismo, cultura e poder no Brasil. O álbum, assim, se afasta da lógica da apropriação cultural e se aproxima de um gesto de respeito, escuta e responsabilidade. Mais do que responder ao debate sobre apropriação cultural, a presença de Rodnei William evidencia que o caminho escolhido foi o da licença, do aprendizado e do reconhecimento das tradições que inspiram a obra.

No universo de Exu, pedir licença não é um protocolo de cortesia, é reconhecer que nenhum caminho se abre sem diálogo com quem veio antes. Talvez essa seja uma das lições mais importantes de Equilibrium: toda verdadeira travessia começa pela humildade de aprender.

A Pombagira, o Malandro e a magia da rua

Se Equilibrium pode ser ouvido como um livro de fantasia brasileira, suas criaturas mágicas não vivem apenas nas florestas encantadas ou nos territórios ancestrais. Elas também caminham pelas ruas. Surgem na noite. Dançam nos terreiros, nos sambas, nos carnavais e nas esquinas. É nesse território ambíguo, entre o sagrado e o profano, que aparecem duas figuras fundamentais do imaginário brasileiro: a Pombagira e o Malandro.

A Pombagira é uma das presenças mais incompreendidas da nossa cosmologia espiritual. Durante muito tempo, foi reduzida pelo olhar colonial e moralista à ideia de pecado ou tentação. No entanto, nas tradições afro-brasileiras, ela representa potência feminina, autonomia, desejo, movimento, comunicação e liberdade.

No vídeo, a presença da cantora Valéria Barcellos, uma mulher trans, como Pombagira amplia justamente essa dimensão de Equilibrium: o corpo feminino não aparece como oposição ao sagrado, mas como um dos lugares possíveis onde o sagrado se manifesta. Ao incorporar essa entidade, Valéria desloca fronteiras historicamente impostas entre gênero, espiritualidade e representação. Em Equilibrium, o corpo trans não é apresentado como exceção, e sim como território sagrado de existência, memória e transformação — um corpo que também canta, cura e reinventa as possibilidades do divino.

Em outra esquina do álbum, surge o Malandro. O Malandro brasileiro não é só esperteza ou boemia. Ele é uma inteligência da sobrevivência. A presença da cantora Mart’nália como Malandro traz a memória do samba, da tradição carioca e de uma linhagem artística em que música, corpo e ancestralidade sempre estiveram misturados.

O corpo como território sagrado

A fantasia brasileira não está distante da realidade. Ela está nas esquinas, no terreiro, no samba, na festa, na noite e no corpo — o corpo que Anitta usa e celebra com a consciência de quem é senhora de si. Existe uma dimensão profundamente revolucionária nesse álbum: a recusa de uma antiga violência imposta às mulheres.

Durante décadas, a cultura ocidental tentou aprisionar mulheres em uma escolha impossível: ou a santa ou a sensual; ou o corpo ou o espírito; ou o desejo ou a transcendência. Equilibrium rompe essa separação. Anitta não pede desculpas pelo corpo que construiu sua carreira. Não apaga a sensualidade, a dança, o desejo e a potência erótica que sempre fizeram parte de sua linguagem. Ela harmoniza.

Nas cosmologias afro-brasileiras, corpo e espírito nunca foram inimigos. Dançar pode ser oração. Cantar pode ser oração. Amar pode ser oração. Celebrar pode ser oração. O corpo não é obstáculo para o sagrado; o corpo é sua primeira morada. Essa é uma das transformações mais profundas propostas por Anitta em Equilibrium: lembrar que espiritualidade não exige negar a matéria. Pelo contrário. É justamente por meio do corpo que experimentamos o afeto, o prazer, a dança, a criação e o encontro. O sagrado não acontece apesar do corpo; acontece através dele.

Mulher de costas, cabelos longos e ondulados, segura um vaso de barro na cabeça. O vaso transborda com flores vermelhas, antúrios e três velas acesas. Ela veste uma peça de crochê vermelha na cintura e braceletes dourados nos braços. O fundo é uma parede clara texturizada. No topo, EQUILIBRIVM PARTE II em letras pretas e vermelhas
A capa de ‘Equilibrium II’: disco lançado no dia 23 (Divulgação/divulgação)

A coragem da fé cantada

Existe ainda uma dimensão fundamental em Equilibrium: a coragem de cantar aquilo em que se acredita. Em uma época em que a imagem pública é constantemente calculada, Anitta escolhe revelar uma dimensão íntima de si mesma.

Anitta canta sua fé.

E esse gesto tem uma força particular. Porque a fé, quando transformada em arte, deixa de ser apenas experiência privada. Ela se torna linguagem, memória e encontro. Cantar aquilo em que se acredita é também uma forma de existência e resistência — ainda mais em um país marcado pela violência contra as religiões de matriz africana.

Essa coragem possui uma linhagem profunda na música brasileira: Clara Nunes (1942-1983), Rita Ribeiro, Glória Bomfim e Maria Bethânia, entre outras artistas que compreenderam a canção como território de encantamento. Uma linhagem que poderíamos chamar, em sentido poético e cultural, de “macumba popular brasileira”: artistas que fizeram da fé, dos orixás, dos encantados e das tradições espirituais brasileiras uma linguagem estética, política e poética.

Bethânia, ao participar do projeto recitando uma oração a Ogum, aproxima ainda mais Anitta dessa tradição: “Firme nesse trilho que corre. / Firme nessa crença que move. / A vida inteira, fé brasileira.

Sua presença não funciona como participação especial ou homenagem. Funciona como transmissão. Há um gesto simbólico de continuidade entre gerações de artistas que compreenderam que a música brasileira também pode ser lugar de reza, de encantamento e de memória.

Ao cantar sua fé sem transformá-la em espetáculo ou proselitismo, Anitta afirma que o pop também pode ser um território de escuta, de conhecimento e de reconexão com as raízes culturais do país.

O equilíbrio como encantamento

Essa é a grande magia de Equilibrium; o verdadeiro feitiço de Anitta. Não há a tentativa de escolher entre passado e futuro, corpo e espírito, Brasil e mundo; há, antes, a compreensão de que todas essas forças podem habitar o mesmo corpo.

“Morrer para renascer. Teria coragem?”, pergunta a cartomante. Equilibrium responde afirmativamente. Ao aceitar atravessar a própria encruzilhada, Anitta não renega a artista que construiu sua trajetória; integra suas muitas versões e transforma essa travessia em linguagem.

Como ensina o intelectual indígena Ailton Krenak, “o futuro é ancestral”. Anitta compreendeu profundamente essa ideia: o futuro não nasce do esquecimento da memória, mas da capacidade de escutar as vozes ancestrais, reconhecer os encantados, respeitar os povos originários, celebrar o corpo e permitir que a fé também seja uma forma de arte.

Talvez a verdadeira magia de Equilibrium seja lembrar que o Brasil nunca precisou inventar um mundo fantástico. Ele sempre esteve aqui: nas matas, nos terreiros, nas águas, nos povos originários, nos orixás, nos encantados, nos corpos que dançam e nas vozes que atravessam o tempo. Ao transformar esse patrimônio simbólico em linguagem pop, Anitta não só inaugura uma nova etapa de sua carreira. Ela amplia a imaginação brasileira.

Ao ouvir Equilibrium, compreendi que a boa fantasia nunca nos afasta da realidade. Ela nos devolve a ela com outros olhos. Faz enxergar que o extraordinário sempre esteve escondido no cotidiano, esperando que alguém lhe devolvesse a linguagem do encantamento.

Talvez seja essa a maior conquista de Anitta. Não apenas lançar dois grandes álbuns, mas recordar que a cultura brasileira já possui sua própria cosmologia, seus próprios heróis, suas próprias florestas encantadas, seus próprios portais e suas próprias formas de magia. Em vez de buscar referências em universos imaginários importados, Equilibrium revela que nosso maior épico sempre esteve aqui, esperando ser contado.

No fim, a encruzilhada não pertence apenas à artista. Ela também é oferecida ao ouvinte. Diante dela, somos convidados a escolher como queremos olhar para o Brasil: como um país condenado a esquecer suas raízes ou como uma cultura capaz de transformar ancestralidade em futuro. 

Equilibrium escolhe o segundo caminho. E a bela Anitta nos convida a atravessar essa encruzilhada bem acompanhados pelos mundos que podemos imaginar.

Laroyê, Anitta!

Homem de pele clara, cabelo castanho escuro e barba rala, vestindo camisa social vermelha, com um brinco de argola prateada na orelha esquerda, olhando diretamente para frente com expressão neutra
Ramon Nunes Mello, poeta, escritor e jornalista (Divulgação/divulgação)

Ramon Nunes Mello é poeta, escritor e jornalista. Doutorando em Ciência da Literatura pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), é autor de Vinis mofados (2009), Poemas tirados de notícias de jornal (2011), Há um mar no fundo de cada sonho (2016) e A menina que queria ser árvore (2018). Organizou projetos editoriais como Escolhas — autobiografia intelectual de Heloisa Buarque de Hollanda (2010), Ney Matogrosso — Vira-lata de raça (2018), Tente entender o que tento dizer — poesia + hiv/aids (2018), Do fim ao princípio — poesia completa de Adalgisa Nery (2022), Meu lance é poesia — Cazuza (2024) e Protegi teu nome por amor — Cazuza (2024).

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