“Cazuza continua dizendo coisas importantes ao século XXI”, diz professor
Rafael Julião, autor de livro sobre o compositor, analisa como o artista segue dialogando com questões de liberdade, sexualidade e política
O carioca Rafael Julião, professor de literatura brasileira da UFRJ, lançou em 2019 Segredos de Liquidificador (Editora Batel), a partir de sua dissertação de mestrado da UFRJ, orientada por Eucanaã Ferraz.
Mais que um estudo de letras de Cazuza, investigando contexto e influências como a do desbunde dos anos 1970 e da obra de Clarice Lispector (1920-1977), o trabalho se propõe a ser “um gesto de pensar Cazuza vivo” — tanto que foi desdobrado em minicursos de extensão, audições comentadas e grupos de estudos da canção popular.
Adolescente no Méier, Zona Norte do Rio, durante os anos 1990, ele teve sua cabeça e visão de mundo impactados por Cazuza já depois da morte do cantor. Avançando mais 18 quilômetros a oeste, até a Lona Cultural de Realengo, tinha acesso a shows de tributo a artistas do rock dos anos 1980.
Assim, a obra do artista que já foi criticado como “filhinho de papai mimado da elite branca da Zona Sul” exerceu seu encanto sem fronteiras. “Como garoto do subúrbio, não havia contradição. Cazuza chegou pelo CD, que circulava em coletâneas baratas. E aquilo que ele dizia me parecia muito representativo de questões que eu estava passando, em relação ao desejo de liberdade e contestação do mundo”, observa o professor.
Ele lembra que o rock dos anos 1980 também se reportava a experiências como a Jovem Guarda, que não é de elite. E que ele se disseminou nos subúrbios e em outras classes, bebeu também no movimento punk. “É uma questão complexa esse atravessamento de classe. É importante estar atento aos recortes de classe, raça, gênero e sexualidade. Mas Cazuza tinha uma autoconsciência, uma autocrítica de classe. Como outros grandes artistas, poetas que chamam a atenção para esse lugar ambíguo, é um burguês que se torna crítico da burguesia”, completa.
Cazuza ficou mais importante e mais atual?
Ele continua importante e dizendo coisas. Gosto da frase do Italo Calvino (escritor italiano, 1923-1985), que diz que clássico é uma obra “que nunca terminou de dizer aquilo que tinha para dizer”. Cazuza tem a ver com os anos 1980, aquele arco entre a abertura política do Brasil e a crise da aids, está vinculado àquele contexto, mas continua dizendo coisas importantes ao século XXI. E apontando para lutas por liberdade, com o amor como saída. O amor a dois, a possibilidade de seduzir a vida, a poesia, todas essas coisas continuam sendo instrumentos de reação ao mundo caduco, ao mundo violento, ao mundo arcaico. Tem uma qualidade estética no trabalho do Cazuza como letrista que é impressionante. Tem uma produção em que ele foi brilhante mesmo, com essa potência de o tempo todo apontar, com uma dignidade grande, essa verdade sobre o Brasil.
Como a expansão do papel da cultura LGBTQIA+ na música brasileira afeta a relevância de Cazuza?
A visão sobre a sexualidade é muito diferente hoje, mas ele é fundamental nesse debate da representação. Não só pelo que ele manifestou em termos de liberdade comportamental, de afirmação da liberdade sexual e comportamental nas letras e na performance, como no posicionamento no momento decisivo da conquista de direitos e de visibilidade para essa população. No momento em que essa comunidade vivencia uma de suas crises mais terríveis, a crise da aids, Cazuza, em vez de retroagir, em vez de se assustar, ser coagido, vai para o front. Com uma coragem e uma dignidade raras, defende os valores que ele já vinha defendendo. Isso impacta todo mundo que vem depois, todo mundo que cresceu nos anos 1990, todo mundo que está nos anos 2000.
Como é ouvir Cazuza em 2026, “com o barulho do tempo presente”, como você fala, usando o conceito de clássico do Italo Calvino?
Eu penso no remake da novela Vale Tudo, é a canção do Cazuza que está ali, falando sobre essa releitura de Brasil, com todas as suas contradições. Era a voz da Gal cantando Cazuza em 1988, quando estava em debate a Constituição, em pleno processo de democratização. Era a voz da Gal cantando Cazuza no ano passado, atualizando todas aquelas questões. Penso no Frejat nas manifestações que os artistas puxaram em Copacabana (em dezembro de 2025) ao dizer: “O Cazuza estaria aqui protestando contra o conservadorismo e as manobras escusas do Congresso, da ala conservadora do Congresso”. Frejat cantando Ideologia e Pro Dia Nascer Feliz naquele momento bota em diálogo o Brasil dos anos 1980 com o Brasil de agora. As críticas ao conservadorismo que continuam, que estão aí inventando ou dando nomes novos a questões de gênero, a questões de sexualidade, a formas de relacionamento, todas essas coisas são movimentos do tempo presente que olham para alguma coisa daquele momento. O Cazuza está conversando com esse mundo de agora também. Quando Cazuza diz “Brasil, mostra a sua cara”, essa ordem se atualiza no momento em que a gente ouve ou canta a canção. É como se as canções do Cazuza vestissem o tempo presente e de alguma forma se atualizassem perante o contexto contemporâneo.
Publicado em BRAVO! de agosto de 2026, edição nº 193