Cazuza ganha documentário íntimo sobre os últimos anos de sua vida
Produção 'Cazuza — Boas Novas' traz olhar do parceiro Nilo Romero para os anos mais dramáticos da trajetória do cantor
Uma visão importante para dar conta da humanidade de Cazuza no período mais dramático de sua trajetória (entre 1987, ano em que soube que tinha contraído o HIV, e 1989) chegou ao streaming em julho, na grade do Globoplay: Cazuza — Boas Novas, documentário dirigido pelo músico e produtor Nilo Romero em parceria com Roberto Moret, com montagem da craque Jordana Berg, colaboradora de Eduardo Coutinho (1933-2014) por décadas.
O filme, exibido nos cinemas no ano passado, traz um olhar íntimo, amoroso, mas nada edulcorado, do amigo e parceiro, coautor de Brasil e Solidão que Nada (ambas com George Israel e Cazuza), produtor do clássico álbum Ideologia e diretor musical da banda que acompanhou o cantor até o último show.
Nos registros ao vivo, Cazuza aparece “no auge”, como avalia, no filme, Leo Jaime (e parte da crítica concorda): mais contido, sob a direção de Ney Matogrosso, e com a voz afinada, ainda potente, apesar de debilitado pela doença. Em 2017, Nilo havia produzido e lançado duas inéditas de Cazuza: Dia dos Namorados, dueto póstumo com Ney, e Mina.
Em 2022, resgatou para o streaming o show completo de O Tempo Não Para, gravado no Canecão, com sete registros inéditos que estavam engavetados. No ano passado, lançou uma versão moderna de Um Trem Para as Estrelas com vocal de Gilberto Gil, novidade que pode ser ouvida em Cazuza — Boas Novas.
Nilo conta que fez o documentário para apresentar às novas gerações um Cazuza distante dos estereótipos e do registro anedótico, sem ser chapa-branca. “É um trabalho muito bonito, bem mais pessoal, com o relato de pessoas muito próximas. É um período em que ele estava muito frágil, mais necessitado do apoio dos amigos”, elogia Roberto Frejat.
Frejat ficou aliviado com a chegada desse filme e também da série documental Cazuza Além da Música, dirigida por Patrícia Coelho, “muito bem-feita”. “Sentia uma falta enorme disso. Cazuza merecia um documentário como Vinicius (2005, de Miguel Faria Jr., sobre Vinicius de Moraes). Cazuza e Vinicius tinham uma coisa em comum, eram muito agregadores, traziam as pessoas para perto, gostavam de ter muita gente em volta.”
“Cazuza juntava uma galera heterogênea, surreal”, conta George Israel, numa das primeiras cenas do filme. O fundador do Kid Abelha e parceiro frequente de Cazuza (em 2010 lançou o álbum 13 Parcerias com Cazuza) foi uma das almas do doc: forneceu imagens incríveis de seu casamento, com direito a Cazuza, padrinho, cantando à frente de uma banda com Herbert Vianna, Leo Jaime, João Barone e o próprio noivo.
Cazuza tomou uma transfusão de sangue na ocasião, para poder comparecer e, conforme disse à mãe, Lucinha, “botar pra quebrar”. Em 18 de outubro de 1988, no Canecão, no Rio, durante o show Ideologia, Cazuza cuspiu numa bandeira do Brasil que tinha sido jogada no palco, em episódio polêmico que gerou repúdio e represálias por parte até de veículos de imprensa — e foi respondido com uma carta contundente — que criminosamente só foi publicada dois anos depois, pelo jornal O Globo.
A cena está completa no documentário, em registro feito por George Israel. E fica mais interessante pelo que Cazuza fala um pouco antes, no palco, debochado. Conta que tinha conversado com Gilberto Gil, disse que andava numa fase de amor às pessoas, e que o baiano teria lhe respondido: “Não se empolgue com esse negócio. Estou com 45 anos, e tudo é uma merda mesmo”.
“Cazuza tinha esse suco de contracultura, de aceitar as pessoas como elas são, a tolerância com o diferente. No filme, a Lucinha fala que aprendeu com ele a parar de ser juíza das pessoas. Ele e o Ezequiel Neves viviam dizendo isso: ‘Ninguém presta!’ ”, conta Nilo. Por outro lado, desde os tempos de Barão, era dado a falar barbaridades no palco. Ocasionalmente, constrangia os músicos, xingava o público. “Ele mandava todo mundo tomar no cu. E as pessoas adoravam!”, atesta Frejat, no filme.
A preocupação com a saúde de Cazuza durante a última turnê gerou estresse geral entre os músicos. “Cada vez mais gente em volta, ele fazendo umas merdas… A gente fugia, mas ele queria ir junto à praia, ficar bebendo e fumando um. Só que, magrinho daquele jeito, depois não conseguiria fazer o show”, lembra Nilo.
No filme, ele chora, lamentando não ter continuado o trabalho e produzido o último álbum, Burguesia. “Só não me culpo porque o Cazuza odiava culpa.” No ano passado, o amigo Pablo Uranga, cineasta e guitarrista de mão cheia, o convocou para montar uma banda. Depois de encontrar a vocalista, Katia Jorgensen, nas conversas para montar repertório, Nilo mencionou que tinha prontas versões de músicas de Cazuza: Um Trem Pras Estrelas, Brasil, Desastre Mental. “Quando eu vi, estávamos de novo fazendo um show de Cazuza, né?”
Surgiu assim a banda Cazuza Lado C, com arranjos surpreendentes, distantes dos originais, e potencializada pelo fera Humberto Barros nos teclados, que tem feito shows no Rio desde o fim do ano passado. “Cazuza é um manancial muito grande. Não faltam músicas que as pessoas não conhecem, que não fizeram sucesso, como Cúmplice e Obrigado (Por Ter Se Mandado), e que incluímos no repertório”, conta.
Publicado em BRAVO! de agosto de 2026, edição nº 193