O lado seresteiro de Cazuza, antes da fama
Pedro Luís lembra da criação do Circo Voador e do cantor carioca ainda antes do Barão Vermelho, um ator que cantava bem e tinha humor escrachado
Pedro Luís conheceu Cazuza antes da fama, em 1981, como ator de um grupo de teatro nascido do curso de férias dado por Perfeito Fortuna no Parque Lage. Pedro fazia a direção musical do grupo. “Caju era um bom cantor. Pelas coisas que ele cantava nos ensaios, identificava ele com Vicente Celestino (1894-1968), como uma espécie de seresteiro moderno. Ele era muito divertido, fazia umas marchinhas impublicáveis”, conta.
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No esforço coletivo de arrecadação para comprar uma lona para o que viria a ser o Circo Voador em sua mítica primeira temporada no Arpoador, Caju vendeu uma linha telefônica, que na época era um bem valiosíssimo. Uma travessura que Lucinha só ficou sabendo em 2024, a partir da pesquisa do livro Protegi Teu Nome por Amor.
Meses depois, ele começou o trabalho no Barão Vermelho. Pedro ouviu e estranhou Caju naquela linguagem rock’n’roll, como se estivesse se apropriando de algo muito distante de sua praia. “Ele me chamou para um show e ficou um pouco ofendido porque eu não fui. ‘Pô, maestro, quero que você veja minha banda, ouça minha banda’, falou. Eu não fui ver.”
Só bem depois, alertado pela irmã Margot, é que Pedro foi apreciar o que chama de “construção de poeta rock’n’roll foda”, expandida depois para canções de assinatura própria na MPB.
Hoje, Pedro lamenta não ter ficado mais próximo daquele roqueiro que, no fim das contas, também era um pouco seresteiro. E professa sua admiração pelo legado extramusical de Caju: “Ele se jogou tanto nesse rock’n’roll sem rede de proteção e, com sua postura, acabou virando uma rede de proteção para todos os portadores do HIV”.
Publicado em BRAVO! de agosto de 2026, edição nº 193