Célia Sampaio: “O reggae não é moda, é filosofia de vida”, diz pioneira
A cantora maranhense lista referências como Marcia Griffiths, Judy Mowatt e Rita Marley e revela seu disco favorito de Bob Marley
Célia Sampaio é um nome fundamental do reggae no Brasil que merece ser lembrado quando se fala do gênero neste Dia Nacional do Reggae, celebrado nesta segunda-feira (11) em todo o país.
A cantora maranhense é reconhecida como uma pioneira do movimento musical, diretamente da “Jamaica brasileira”, a cidade de São Luís — uma voz feminina importante em uma cena majoritariamente liderada por homens.
Drão: conheça a história da canção do adeus de Gilberto Gil
Ela começou a carreira em 1984, no Bloco Afro Akomabu, e depois integrou a banda Guethos. Em 2000, lançou de vez sua carreira solo com o disco Diferente. A artista já atuou como backing vocal de cantores estrangeiros como Eric Donaldson e Judy Boucher.
A artista faz dois shows em São Paulo nesta semana, na quinta-feira (14), no Sesc 24 de Maio, e na sexta-feira (15), no Sesc Campo Limpo, com o repertório do seu EP mais recente, Eparrey (2025). O projeto é uma homenagem à orixá Iansã. Sobre sua trajetória e referências, leia o papo a seguir.
Quem são as suas maiores referências no reggae?
Minha maior referência é Bob Marley. Além de Peter Tosh, Gregory Isaacs… Sempre ouvi reggae, desde que chegou aqui em São Luís, desde a minha infância. Tenho grandes cantoras que me inspiraram muito. Uma delas é Marcia Griffiths, que tocava junto com ele. Judy Mowatt, Rita Marley, Hortência Ellis e Sonia Spence são as mulheres que mais me inspiraram. Eu peguei a chegada do ritmo aqui. Veio muita música do Caribe para cá, como salsa, merengue. O reggae foi só mais uma, e não sei por que cargas d’água ficou. O reggae veio nos buscar, e nós o acolhemos aqui.
Tem um disco favorito de reggae?
Quase tudo do Bob, mas em especial o Survival (1979). Gosto muito desse trabalho.
Você lembra onde costumava escutar reggae nos primeiros anos?
Cada um de nós tinha o seu acervo. Aqui é difícil encontrar alguém que goste de reggae e não tenha um acervo de discos. No começo, eu pedia para um DJ vizinho tocar os reggaes que eu ouvia na radiola. O reggae chegou aqui no final dos anos 70, no mesmo momento em que a Jamaica explodia para o mundo. O reggae era ouvido nas periferias, nos bairros pobres, no meio da negrada. Era discriminado demais. Se você quisesse o reggae, você tinha que correr atrás.
Como começou a sua relação com a música?
Tudo começou através da dança. Fiz parte de um grupo de dança popular, fiz dança afro e dança moderna. Quando cheguei ao movimento negro, através do bloco de afoxé Bloco Afro Akomabu, comecei a me desenvolver na parte da música, incentivada pelas minhas companheiras. Tinha muito homem cantando, então fizemos um grupo em que todas me incentivavam: “Célia, tu tem que cantar”. Minha vida musical nasce dentro de uma instituição do movimento negro. Então começo a interpretar músicas do bloco. Nesse movimento, fui convidada a entrar na banda Guethos, da qual fiz parte durante cinco anos, com um reggae black power que me consagrou como cantora.
A presença feminina no reggae sofreu uma grande transformação nas últimas décadas?
Sinto que o número de mulheres dentro da cadeia produtiva do reggae brasileiro cresceu muito. Hoje temos várias DJs, musicistas, pesquisadoras. Mulheres como Núbia, Regiane Araújo, Luciana Simões, Denise D’Paula, Regiane Cordeiro, Marina Peralta e Marietti Fialho. Fico feliz para caramba. A gente sozinha dentro do movimento é muito ruim. Porque, quando você chega, as pessoas não acreditam no seu trabalho. “O quê? Cantora de reggae? Cadê sua banda?”. Comecei devagarzinho, independente, em 2000, quando gravei meu primeiro CD.
Qual a importância de celebrar o Dia Nacional do Reggae?
É muito relevante para nós que vivenciamos o reggae todos os dias. Não temos o reggae como moda, e sim como filosofia de vida, de educação, de espiritualidade. Esse dia foi uma luta do povo regueiro em busca de políticas públicas para esse povo que tem o reggae como forma de educação e transformação.