Dé Palmeira revela a maior lição de vida que Cazuza deixou
O compositor e baixista do Barão Vermelho lembra briga e reconciliação com o ex-vocalista da banda; "Tenho saudade de telefonar para ele", diz
Certa quarta-feira vadia, à tarde, em 1981, buzinaram à porta da casa do adolescente Dé Palmeira, em Laranjeiras; era um cabeludo num Gurgel sem capota, vindo de Ipanema, que lhe daria carona para o ensaio da banda que estavam tentando começar, sem grandes horizontes e ambições, no Rio Comprido, Zona Norte. “Fomos conversando sobre música e vários assuntos. Ele era extrovertido, muito maneiro”, lembra.
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Naquele trajeto razoavelmente curto, mesmo antes de mandar bem no ensaio, Cazuza já tinha conquistado os meninos — Guto Goffi e Frejat, quatro anos mais novos que ele; Maurício Barros, seis, e Dé, sete anos mais jovem. “Ele tinha uma facilidade de ficar amigo, talvez por ele ser filho único”, lembra o baixista.
O choque cultural entre os rapazolas de classe média e o adulto Cazuza, 23 anos, criado no meio de artistas e famosos, viajado e acostumado a circular entre a elite carioca, foi atenuado quase totalmente por camadas de carisma e simpatia.
Dias depois, por alguns minutos, menos de meia hora, talvez, houve um impasse. Em um episódio hoje lembrado entre risadas, pelo ridículo da situação, os garotinhos foram ver Cazuza atuar e cantar na peça Paraquedas do Coração, no Teatro Cacilda Becker, no Catete (ou Tetecá, na gíria adolescente da área, na época), e ficaram levemente chocados porque, numa cena, ele pegava nas partes íntimas de outro ator. “Lembro de a gente andar do teatro até o chafariz do Largo do Machado e ter uma reunião ali, para deliberar se ele permaneceria na banda ou não”, conta Dé.
No show de estreia, já de cabeça feita, aos 16 anos, o baixista brigou com a própria mãe e soltou palavrões quando ela lhe perguntou, impressionada com a figura de Cazuza: “Vem cá, André! Ele é ou não é?”. Dé lembra que Cazuza começou com inseguranças na parte musical, mas que foi ganhando autoconfiança e logo se tornou um compositor muito versátil. “Ele compunha de tudo que é maneira. Você encontrava com ele no Baixo Leblon, ele às vezes fazia letra na hora ali, em cima de algo mostrado em fita.”
Quando Cazuza saiu do Barão, abruptamente, deixando o grupo na mão, com vários projetos, Dé ficou magoado, pensando que tinha sido um ato premeditado. “Ficamos brigados quase um ano. A gente se encontrava nos lugares, e ele me chamava: ‘Dé, vem falar comigo!’. Mas eu estava determinado a não falar mais com ele.” Até que um dia, no Baixo Leblon… “Cazuza insistiu, sentou na minha mesa, olhou na minha cara e pegou no meu braço. Eu topei, cheguei a falar que ele tinha sido um fdp, mas ele se explicou, e fizemos as pazes.”
Dé achava que seria um reatar de relações protocolar, mas uma amizade nova foi se formando de modo natural. “Ele passou a me tratar como um cara igual, não mais como aquele moleque que fazia parte da banda. E aí começou essa coisa de se ligar todo dia; um livro que eu comprei, um artigo do jornal, tudo era motivo para a gente se falar.”
Formou-se então um trio de amigos, Dé, Cazuza e o produtor Ezequiel Neves (1935-2010), que, durante alguns anos, circulava junto direto. “A gente ia ao teatro, depois jantava na casa do Cazuza. Parecíamos umas velhotas, uns velhotes”, diverte-se. “Eu sinto falta do Cazuza até hoje, tenho saudade de telefonar para ele. Outro dia, ouvindo o novo disco dos Stones, fiquei com vontade de ligar, de saber o que ele achou.”
Para além do legado artístico e dos exemplos de coragem e insubordinação, o cabeludo do Gurgel conversível daquela tarde em 1981 deixou uma lição preciosa para Dé e outras pessoas de seu círculo próximo. “Ele me ensinou a ser amigo e a cultivar amizades. Era uma coisa que fazia com maestria.”
Publicado em BRAVO! de agosto de 2026, edição nº 193