Ed Motta: “É pouco um cara de 55 anos pedir quatro desculpas públicas”
Em entrevista à Bravo!, cantor comenta o novo álbum, 'Toc-Toc', o episódio que gerou polêmica em um restaurante no Rio e a amizade com Mano Brown
O verso derradeiro do novo disco de Ed Motta, 55, Toc-Toc (2026), lançado nesta sexta-feira (25), declara: “Voltei pra mim”. Não que o músico carioca tivesse sido outro nos seus projetos anteriores, mas parece que, neste momento, ele se reaproxima do garoto tijucano que cresceu nos anos 1980 obcecado pelo melhor da música black mundial.
É a trilha sonora daquela década que inspira a estética do álbum de inéditas, com baladas e grooves que evocam o electro-funk e o soul de bandas como Cameo, S.O.S. Band e Enchantment.
A “volta” também tem outro sentido: é o primeiro trabalho em português do cantor e compositor em 13 anos, desde o disco AOR (2013) — que também tem uma versão com todas as letras em inglês. É o primeiro projeto somente na língua-mãe do artista desde Piquenique (2009).
São onze faixas inéditas, dez parcerias entre Ed e Edna Lopes, sua esposa, e uma com Leoni, Glamour Hotel. A produção e os arranjos são do próprio cantor com Michel Limma. Os instrumentistas Marcelo Martins e Paulo Zuckini completam a formação de músicos do disco, que traz identidade sonora mais enxuta e minimalista do que os trabalhos anteriores de Ed.
Lançado pela Dwitza em parceria com o selo alemão MPS, Toc-Toc também terá edições físicas em CD e LP no mercado internacional.
Em entrevista à Bravo!, o artista deu detalhes inéditos sobre o álbum, sua amizade com Mano Brown, a polêmica em que se envolveu neste ano em um restaurante carioca e também outra novidade: a série de quadrinhos As Aventuras de Ed Motta, em que o músico é o simpático personagem principal.
O primeiro volume da HQ, Aplausos e Enigmas, concebida por PH Tirre e Manoel Magalhães, será lançado em novembro. Confira o papo a seguir.
Ontem foi seu aniversário. Como comemorou?
Fui almoçar com minha mulher. É a comemoração de sempre, nossa celebração tradicional: almoçar e beber um vinho.
A safra de composições de Toc-Toc é toda recente?
As músicas são mais recentes. Mas tem uma música nesse disco, A Marina Acende, que eu tinha feito em homenagem ao João Donato. Tenho ela desde o início dos anos 2000. As outras são um pouco mais recentes, e, quando eu juntei as composições, vi que tinha uma característica que lembrava muito o que me interessava nos meus dois primeiros discos, e que continua me interessando. Escuto Cameo e S.O.S. Band ao lado dos discos de jazz, de música brasileira, de soul, de Billie Holiday, de Broadway, tudo junto. O disco foi gravado na minha casa, faço isso desde o As Segundas Intenções…, de 2000. As demos eu faço no celular, gravo com o GarageBand (aplicativo de produção musical da Apple).
Como é fazer um disco com produção mais enxuta depois de projetos com arranjos grandiosos, como Behind the Tea Chronicles (2023)?
Fiquei uma década gravando discos em inglês, com essa formatação de muitas camadas e instrumentos, e o Behind the Tea Chronicles é o ápice. É o melhor disco dessa fase em inglês. A forma de dissipar isso era fazer algo completamente diferente, o oposto da estética proposta no disco anterior. Eu não queria fazer uma imitação ou uma continuação daquele trabalho. Eu precisava dar um tempo daquilo, e um descanso na minha mente também, daquela estética. É cansativa, uma colcha de retalhos, um trabalho pesado de artesão. Gravar instrumentos de verdade, vários músicos, organizar tudo isso no estúdio, mixar… Nossa senhora. Mas, mesmo gravando com menos instrumentos, vi que o trabalho é o mesmo. O perfeccionismo continua. Aí você passa a ficar horas em um som de bumbo, um dia inteiro, até o som perfeito. Foi bem demorado até chegar na sonoridade que eu desejava.
Ao fazer referência a essas bandas que citou, você se preocupa em criar algo novo sem soar datado?
Não é uma preocupação, mas naturalmente você acaba saindo do que seria datado se tem um contato mínimo com o que acontece no mundo. É evidente que é uma ótica nova sobre essas referências todas. Tem no disco um sabor de Rio de Janeiro noturno, anos 80, Lincoln Olivetti, mas não é um estereótipo disso, uma caricatura. É uma reverência estética, ampliada pelo olhar de hoje.
As músicas são todas parcerias suas com sua esposa, Edna, a não ser uma: Glamour Hotel, assinada por você e Leoni. Qual a história dessa?
Essa música tem um tempo já. Era para entrar no Manual Prático para Festas, Bailes e Afins, de 1997. Ela ficou guardada esse tempo todo. À época achei que ela não ornava com as outras, mas nesse disco tinha tudo a ver. Retomei, fui atrás das fitas antigas para achar a música com a letra e tudo.
Quero saber mais sobre o seu processo de composição com a Edna. Vocês vêm assinando músicas juntos desde o disco Piquenique (2009). Como funciona essa parceria?
A gente senta e disseca uma música. É parecido com o jeito que faço sozinho. É como um trabalho de arranjo: “Vamos pegar essa música hoje”. É claro que têm ajustes ao longo dos dias, mas o bojo daquela letra é preparado em um dia.
Em maio você fez um show no Circo Voador, dias após uma confusão envolvendo a taxa de rolha de um restaurante. Essas polêmicas que reverberam digitalmente têm efeitos ao vivo, nos shows?
É um outro mundo. Um mundo completamente diferente daquele em que eu cresci. Apareci como artista e protagonizei minha carreira em um período em que os valores e o olhar para as coisas eram completamente diferentes. Enfim, eventualmente vou sofrer os impactos do mundo digital, uma simples opinião sobre um artista ou um gênero musical virar uma celeuma imensa, uma coisa hiper amplificada. De forma que você vira um cara que pede desculpa de forma contumaz, mas não é nada disso. Eu pedi desculpa três, quatro vezes. Eu acho que é pouco, um cara de 55 anos pedir quatro desculpas públicas. Acho que está tudo bem. O ideal é que você, na sua biografia, não tivesse precisado pedir desculpas. Mas não consegui isso.
Naquele show e nas redes sociais você tocou a música Coleção, do Cassiano (em homenagem ao estado natal do compositor, após vazarem áudios em que Ed chama um dos funcionários do tal restaurante, pejorativamente, de “paraíba”). Vai entrar de vez no seu repertório?
Não, não, eu toquei por conta do incidente, tinha a ver com a narrativa toda. Não está no repertório, até para não ficar reverberando essa história.
Nos últimos dois anos você começou a tocar as músicas da trilha sonora do filme Tarzan ao vivo. Em que momento se reconectou com esse trabalho?
Aconteceu depois do meu disco AOR. Ele tem uma estética que, em algum lugar, comunga com Tarzan. Apesar da influência do Steely Dan, dos acordes de jazz e tal. Quando fui pesquisar o AOR (sigla em inglês para ‘rock para adultos’, que define um gênero musical proeminente entre os anos 70 e 80 com refrões fortes e camadas grandiosas), os discos que comprei, como os do Toto, eram completamente Tarzan. Então eu tive um outro olhar, porque eu não gostava tanto quando gravei. Depois achei incrível. Então decidi fazer alguma coisa, porque era muito pedido pelos fãs. E ainda tem a questão contratual, que não pode ter minha versão (nas plataformas digitais só está disponível a versão da trilha em inglês, de Phil Collins).
Recentemente você teve de cancelar alguns shows fora do país por questões de saúde. Como está isso?
Está controlado. Eu me mediquei, fiquei bem. Mas arrumei outro problema em seguida, que não está relacionado com isso. É um problema que acaba afetando a minha vida, que estressa a gente, esse negócio todo de cancelamento. Mas vou fazer uma turnê em junho do ano que vem, na Europa.
Por que voltar a lançar um disco em português, treze anos depois?
Eu estava com necessidade disso. O mesmo elemento que me impulsionou a gravar durante uma década em inglês, de querer realizar essa estética que cresci escutando, me deu a vontade de retomar de onde eu venho, de onde a coisa toda começou. Tem um impacto diferente quando eu canto em português, a forma de cantar, de pronunciar as palavras. Mexe em todo o colorido da obra.
Com essas “pazes” com a trilha do Tarzan e com o português, você vive um momento de reconexão?
Olha, tem um processo de composição que me encaminhou para isso. Mas, sobre a minha experiência como ouvinte de música, posso dizer que não estou 100% dentro disso. Escuto milhares de outras coisas ao mesmo tempo. Toca um disco do Henry Mancini, toca The Zombies, toca Marku Ribas, toca Stravinski, toca jazz, toca rock da Tailândia, tudo. Nunca estou ouvindo só aquilo que estou fazendo no disco, por ter essa experiência de ouvinte obsessivo. Eu escutava com livros e enciclopédia, hoje em dia ouço com a IA (inteligência artificial), que conversa comigo sobre música. A IA sabe tudo, é um bate-papo de alto nível.
E qual a sua obsessão musical mais recente?
Tenho 55 anos. Venho pesquisando e lendo desde os 13… nesse momento não chega a ser uma exaustão, mas sim uma qualidade de sossego. Mas estou sempre aprendendo. Toda semana descubro um artista novo. O último foi King Errisson, nunca tinha ouvido falar, conheci na semana passada. Aí já fico atrás. É tudo motivo para comprar mais discos, achar os melhores preços, essa coisa toda. Não para…
Sobre a nova geração de artistas e instrumentistas brasileiros, qual a sua visão?
Vejo sempre com ótimos olhos, tem muita gente boa, competente em instrumentos diversos. Eu fico de olho no Instagram, que hoje é fanzine, vitrine, tudo ao mesmo tempo. Eu consumo essa cultura digital. Mas não é o som que escuto na minha caixa. A minha pesquisa nunca é sobre a atualidade, nunca é sobre o novo, o que está acontecendo. É sempre sobre o que aconteceu. Desde garotinho.
Você virou personagem de quadrinhos em uma HQ que sai neste ano, Aplausos e Enigmas. Como nasceu esse projeto?
Sempre que se fala de uma biografia, nunca fico com vontade de fazer. Não que eu não me leve a sério ou que ache que eu não mereça uma biografia. Mas, se não têm biografias de tanta gente importante, por que eu vou fazer uma minha? Sempre quis fazer alguma coisa na área de quadrinhos, mas não sabia como. Essa ideia me foi trazida pelos dois autores, o PH e o Manoel, o desenhista e o roteirista. Inicialmente o nome do personagem era Édouard Jazz. Falei: “Não, assume que é Ed Motta”. Eu adoraria fazer parte desse universo e incluir um quarto personagem gordinho na história dos quadrinhos. O primeiro foi Asterix, depois o Achille Talon, e tem uma aventura do Professor Stratus, que parece com esse desenho que o Manoel fez de mim. Fica interessante por isso também, não é usual no mundo dos quadrinhos o herói ser um gordinho.
Em sua entrevista recente para O Globo, comentou que Mano Brown escutou o disco. Como é a sua relação com ele?
Ele é muito amigo, muito gente boa. Ele, Ice Blue, todos eles, KL Jay. Mas eles dois (Mano Brown e Ice Blue) têm o costume de me visitar aqui em casa. Eu falei: “Queria que vocês fossem os primeiros a escutar esse disco novo”. Eles vieram para o Rio especialmente para isso, Ice Blue e Mano Brown. Passaram o dia inteiro em casa e foram embora de noite, na última ponte aérea. Ficamos ouvindo música o dia inteiro. E o Mano Brown falou que ele se identificava mais com as baladas, o lado mais romântico, que ele adora, essa coisa Marvin Gaye. Quando entrou Eu Quero Ser Feliz, ele virou para mim e disse: “Surface”.
Afinal, vocês são da mesma geração…
Mesma geração, mesmas referências. Ele saca todas, ele vai atrás das referências naturalmente. E as inspirações não são assim: “Agora vou fazer uma música tipo Surface”. Quem dera fosse assim, senão eu acordava e falava: “Amanhã vou fazer uma ao estilo Duke Ellington” (risos). Não é, você faz uma coisa e depois nota. Eu que coloco nesses estilos, não tem essa coisa de “minha música não tem rótulo”. Eu adoro que rotulem, porque eu rotulo. Quando componho, coloco em pastinhas: pasta Broadway, pasta show, pasta “complicadas”, pasta sabor brasileiro. Eu gosto. Para mim não é uma cor só. E nem é uma cor única. Não tenho esse certificado de autenticidade. Não busco isso.
O Mano Brown e o Ice Blue foram as primeiras pessoas, além da equipe do disco, que ouviram?
Sim. Eles ouviram antes até que a minha empresária.
Sei que você é obcecado em cinema e, claro, música. E qual a sua relação com a literatura? Tem um livro favorito?
Eu não tenho o costume da literatura. A Edna, minha mulher, tem uma coleção imensa de livros e tem o hábito de ler. Eu leio quadrinhos. E os livros que tenho o hábito de ler são sempre sobre os assuntos que me interessam. Mais do que ficção, são obras sobre cinema, música. O que estou lendo agora são quadrinhos. Estou lendo Tif et Tondu, uma série infantojuvenil belga. É linda. Estou dentro dela, mergulhando. Agora, um livro de cabeceira eu teria que citar o MW, do Osamu Tezuka. É uma das obras-primas das histórias em quadrinhos. O Osamu Tezuka é o meu Steely Dan dos quadrinhos.
Qual é a sua primeira memória musical?
Minha primeira memória é You Are The Sunshine of My Life, do Stevie Wonder. Lembro que pedi para os meus pais comprarem esse compacto. E eles contam que eu me interessei quando ainda falava poucas palavras. O disco é de 1972, sou de 1971. Tinha uma novela que tocava essa música, e eles falam que eu ficava alucinado. Já eram os acordes e a forma de tocar do Stevie Wonder, isso estava na minha alma.
Sobre o futuro, qual o seu sonho para a sua carreira?
Ficar rico. É algo que não consegui até agora. Quero poder usar um roupão com um brasão da família Motta com pompa e circunstância.





