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Frejat sobre o legado de Cazuza: “Ninguém veio ocupar um espaço parecido”

O guitarrista, cantor e compositor lembra do parceiro afiado, meio hippie e ingênuo, em mais de cinquenta canções

Por Pedro Só 23 ago 2026, 08h00
Dois homens em preto e branco se apresentam em palco lotado. À esquerda, um guitarrista com camiseta clara e gravata, boca aberta. À direita, um cantor com regata branca, faixa na cabeça, braço erguido e boca aberta. Ao fundo, um público desfocado e uma placa com A-C
Frejat e Cazuza: sinergia no palco e em canções imortais (Acervo Lucinha Araujo/divulgação)
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Foi o ex-deputado federal José Frejat, morto em abril, aos 102 anos, quem chamou a atenção de seu filho Roberto para uma força não tão evidente de seu parceiro Cazuza: “Em uma letra como Maior Abandonado, ele deixa bem claro para todo mundo do que se trata”. “Meu pai era um cara que leu poesia, mas não era ligado em letra de música. O Cazuza conseguia captar o que estava no dia a dia das pessoas ou do chamado inconsciente coletivo. Ele conseguia traduzir de uma forma que todo mundo se via ali. E que não soa anacrônica, não fica perdida no tempo, datada”, explica o cantor e guitarrista.

Leia a capa especial de BRAVO! sobre o legado de Cazuza 

Em janeiro, Roberto Frejat estreou Frejat in Blues, cristalizando em um elogiado espetáculo certa linguagem híbrida com algumas das influências que geraram identificação com Cazuza nos primeiros encontros (Luiz Melodia e Angela Ro Ro, entre outros). No repertório, o show recupera pérolas dos primeiros anos de parceria, como Bilhetinho Azul e Quem Me Olha Só, além de Down em Mim.

Como Cazuza mudou o mundo e reverbera até hoje

Ao mesmo tempo, o cantor e guitarrista segue com a turnê de arenas Encontro, reunido ao Barão Vermelho e seus integrantes originais Guto Goffi, Maurício Barros e Dé Palmeira. E o setlist carinhosamente abre espaço para hits da carreira solo de Cazuza, como Exagerado, Ideologia e Codinome Beija-Flor.

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Coautor de vários dos clássicos de Cazuza, Frejat é um dos grandes responsáveis pela força e permanência de seu cancioneiro, que vem divulgando em mais de quarenta anos de estrada pós-saída do parceiro do Barão Vermelho.

Quais eram as maiores qualidades do Cazuza como letrista?

Essa clareza e capacidade de comunicação que meu pai apontou. Mas é lógico que a faca era afiada, né? Tem frases sensacionais, com toda essa coisa da agressividade do rock’n’roll. Isso é inerente ao rock. Uma das minhas frases favoritas de letra dele é “Dias sim / dias não / eu vou sobrevivendo sem um arranhão / da caridade de quem me detesta” (O Tempo Não Para). Eu acho isso muito cruel, muito duro. E muito real. É de um nível muito alto e pega as pessoas. Contundência total nessa imagem. Por mais que você tenha coisas do Chico Buarque que sejam duras, não é nada assim.

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No Barão Vermelho, as letras não falavam diretamente de política. Depois é que Cazuza passou a escrever canções como Brasil e O Tempo Não Para, influenciado, talvez, por Renato Russo, que ele cita em entrevistas. Como era o Cazuza em termos de pensamento político?

Eu não acho que foi o Renato quem despertou isso. Acho que foi a doença, a urgência do tempo de vida reduzido, que fez ele parar para refletir sobre o que precisava falar e qual era o papel dele aqui. No Barão, fizemos Milagres, que entrou no Maior Abandonado (disco lançado em 1984), mas sempre tive cuidado para não soar panfletário. Cazuza era uma pessoa extremamente generosa politicamente, era um cara preocupado com a desigualdade social, com a pobreza no país, com esse saque que as elites calhordas fazem nos cofres públicos desde as capitanias hereditárias. Mas ele tinha uma ingenuidade política muito grande, tínhamos algumas discussões.

Você e Cazuza, cada um com sua bagagem leve de iniciante, aprenderam juntos a compor. Como foi isso?

O Leoni dá aulas sobre composição, e outro dia estava comentando para os alunos que, diferentemente de mim, não tem tanta naturalidade para trabalhar com formas que não são simétricas ou naturais. Quando o Cazuza e eu começamos a compor, a gente não tinha a menor ideia de como é que se fazia uma canção. Nosso processo, na maior parte das vezes, era ele me dar uma letra, eu levar para casa, fazer a música e depois mostrar para ele como eu tinha musicado. E aí a gente fazia uns últimos ajustes juntos. Às vezes, não precisava de ajustes. Depois, a gente foi descobrir que a tradição de composição na história da música popular brasileira e internacional é o oposto. As pessoas letram as músicas. Então, a coisa vai para outro lugar completamente diferente. Descobri que isso aconteceu também com o Elton John e com o Lionel Richie. É muito louco isso, porque, além de a gente estar fazendo ao contrário, eu nunca tive esse rigor de dizer ‘assim não, Cazuza, essa frase aqui não está terminando com o mesmo final de sílaba’. Para mim, aquilo era uma história, e eu tinha que achar a música daquele papo ali. Acabei desenvolvendo um estilo em que eu não estou vinculado às rimas. Quando a gente fazia as músicas, elas tinham que passar as ideias. Muitas vezes, não tinha rima. Acho que fomos salvos da nossa inexperiência por isso, porque o recado sempre foi a prioridade.

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Quando lhe perguntam como era o Cazuza, como você costuma responder?

É impossível passar a realidade de uma pessoa assim, né? Mas eu geralmente falo: era um cara muito inteligente. Se perguntam do temperamento, eu digo: “Era um temperamento instável, tinha hora que ele era um doce, tinha hora em que era o cão chupando manga, entende?”. Era uma pessoa muito especial, sensível, delicada, doce, agregadora.

Como você vê a imagem do Cazuza em filmes?

Em Homem Com H, o espectador pode achar que era uma pessoa insuportável… Isso é uma coisa que eu questionava muito. Teve um filme de ficção com atores ótimos, todos, mas o roteiro, meio mais ou menos. Mas, realmente, quando o Cazuza queria ser insuportável, ninguém o superava. Ninguém. Ali no Homem com H tem uma cena que flagra um momento típico dele descaralhado, virado há vários dias, e ele achando que aquilo estava tudo normal. Ele era completamente desapegado assim. Era uma coisa meio de filosofia dele. Ele era desapegado das coisas e do que alguém podia estar pensando. Aí, ele podia chegar na casa do Ney Matogrosso, virado há três dias, sem tomar banho… Ele era muito desapegado também com as coisas. As pessoas não conseguem entender muito, é uma herança hippie, uma coisa que está muito longe hoje para as pessoas. Essa filosofia hippie de não se apegar às coisas materiais, de estar querendo gostar das pessoas em princípio. O paz e amor. Isso para ele era muito forte, né? Ele era louco por Joe Cocker, Janis Joplin. Woodstock era uma coisa muito presente ainda na cabeça da nossa geração. Era uma referência moral, um padrão de conduta. É difícil hoje entenderem esse grau de desapego, esse grau de inconsequência.

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Como você viu esse mesmo Cazuza se tornar um símbolo libertário?

Na conscientização sobre a aids ele teve um papel muito importante. Primeiro, por ter se assumido e ter sido massacrado. Ele era uma pessoa que as pessoas em geral gostavam muito, aquele massacre foi extremamente malvisto. Era uma pessoa muito querida por pessoas muito caretas. No momento em que ele assume aquela bronca de bater de frente com a doença, de enfrentar, de se expor publicamente, tendo toda a deterioração física, aquilo foi muito poderoso para a sociedade brasileira. E aí isso veio associado também ao fato de a gente ter um Ministério da Saúde que teve uma postura muito corajosa em relação à quebra de patentes, né? Eu acho que isso tudo fez do Brasil uma sociedade que reagiu à questão da aids de uma forma muito mais agressiva do que em outros países.

Hoje você diria que Cazuza venceu?

A presença dele dentro da música e da sociedade brasileira é vitoriosa. É a presença de um artista extremamente consistente com o discurso que atravessa gerações, a contundência dele continua a mesma. Acho que não tem ninguém que veio para ocupar um espaço parecido. O hip-hop, com um contexto forte de contestação, é diferente. Mas, mesmo pessoas do hip-hop, quando vão citar referência de música pop, citam Cazuza. As mães dos cantores de hip-hop ouviram. Ele tem uma presença nessa geração que o próprio rock brasileiro talvez não tenha.

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Publicado em BRAVO! de agosto de 2026, edição nº 193

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