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Jorge Drexler fala de Roberto Carlos, João Gilberto e um mistério da infância

Lembranças e melodias do cantor e compositor uruguaio, que revela uma relação antiga com a cantiga 'Marinheiro Só'

Por Tomas Novaes 4 Maio 2026, 16h34
Mistérios, memórias e melodias de Jorge Drexler: leia a coluna Atemporal
Mistérios, memórias e melodias de Jorge Drexler: leia a coluna Atemporal (Camilla Maia/Bravo)
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Você já teve a experiência de acessar uma memória pela primeira vez? Jorge Drexler, 61, passou por isso durante a entrevista para esta edição da coluna Atemporal da Bravo!.

Em turnê com o disco Taracá (2026), em que se reconecta com as raízes uruguaias, o cantor e compositor fará seis shows no Brasil neste mês, em Curitiba (21), São Paulo (23), Rio de Janeiro (27) e Porto Alegre (29, 30 e 31).

Na conversa, você verá que a influência brasileira acompanha Drexler desde os primeiros anos de vida. A nova seção da revista reúne memórias, frases, raridades e curiosidades de personalidades. Um baú afetivo a ser descoberto e revisitado. Entre no universo do artista uruguaio a seguir.

UM MISTÉRIO 

Perguntado sobre a sua primeira memória musical, Jorge acessou uma lembrança inóspita. “Eu, no meu aniversário, bem menino, subindo em uma mesa e cantando: ‘Yo no soy de aquí y no tengo amor/Yo soy de Bahía de San Salvador’. Essa música é de quem?”, questionou, surpreso com o próprio relato. O cantautor precisou de alguns minutos para pensar e pesquisar sobre Marinheiro Só, a cantiga tradicional brasileira que chegou aos seus ouvidos ainda criança. “É realmente uma revelação para mim, nunca tinha me lembrado desse momento. Foi a primeira vez que cantei em público, e nem sei porque que fiz isso, era muito tímido”, relembra. Agora, qual a tal versão espanhola que tocava nas rádios entre o fim dos anos 60 e começo dos anos 70 no Uruguai — Caetano Veloso lançou sua versão em 1969 — segue um mistério.

BRASIL DESDE SEMPRE

“Aos 7 anos eu estudava piano com uma vizinha. Disse a ela que vi na televisão alguém tocando e cantando ao mesmo tempo, e queria fazer isso. Ela me disse que não poderia ensinar, porque era uma professora clássica. Mas mesmo assim foi até a loja no centro da cidade e voltou com uma partitura. Era a versão em espanhol de Eu Quero Apenas, de Roberto Carlos. Com aqueles quatro acordes, escrevi 80% do meu repertório depois, devo confessar (risos). Primeiro grau, sexto grau, segundo grau, quinto grau.”

A capa do disco 'Roberto Carlos' (1974): referência
A capa do disco ‘Roberto Carlos’ (1974): referência (Divulgação/divulgação)
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AS PEDRAS TÊM NOME

“Em La Paloma (cidade no litoral sudeste do Uruguai), a minha casa ficava em frente ao mar, você saía e ia com continuidade até a areia. As rochas em frente são tão conhecidas pela família que todas têm um nome próprio.”

Frame do clipe de '¿Qué será que es?', versão de Drexler para 'O Que É O Que É?', de Gonzaguinha: filmagens em Super-8 da família
Frame do clipe de ‘¿Qué será que es?’, versão de Drexler para ‘O Que É O Que É?’, de Gonzaguinha: filmagens em Super-8 da família (YouTube/reprodução)

UM DIA PERFEITO NO VERÃO URUGUAIO

“Um dia perfeito para mim em na Paloma, de criança, era acordar, ir pescar, voltar para casa, tomar um banho em frente à praia, comer com a família, dormir a sesta e à noite sair para comer um chivito (sanduíche tradicional uruguaio).”

A família Drexler Prada: dias de descanso no Uruguai
A família Drexler Prada: dias de descanso no Uruguai (YouTube/reprodução)
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PRECOCE

“Tinha um cinema em La Paloma que íamos à noite. Em Montevidéu tinha mais censura, mas lá nós conseguíamos entrar e ver filmes de idades mais velhas. Me lembro de ver muito cedo Dona Flor e Seus Dois Maridos (1976), que me impactou profundamente (risos).”

Cartaz do filme 'Dona Flor e Seus Dois Maridos' (1976): longa brasileiro dirigido por Bruno Barreto
Cartaz do filme ‘Dona Flor e Seus Dois Maridos’ (1976): longa brasileiro dirigido por Bruno Barreto (Divulgação/divulgação)

CARDÁPIO

“A minha bebida uruguaia favorita é o mate. Sem dúvida. Acho uma bebida superior, realmente. E o vinho uruguaio agora também é bom, mas foi muito ruim nos anos 80 e 90. O Uruguai tem uma gastronomia que não é muito diferenciável dos vizinhos, na verdade. Mas gosto muito de uma coisa que tem praticamente só no Uruguai, que é o fainá. É como uma pizza, um pão de farinha de grão de bico.”

Drexler com seu mate: bebida típica do Uruguai
Drexler com seu mate: bebida típica do Uruguai (Dedoc/divulgação)
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DOUTOR JORGE

“Tenho grau de médico geral, mas não acabei a pós-graduação em otorrinolaringologia, abandonei e fui para a Espanha. Da medicina eu gostava da relação com as ciências básicas. Fisiologia, fisiopatologia, bioquímica, genética, semiologia, farmacologia. E tenho muito interesse hoje, gosto de ler sobre saúde, cérebro, consciência, inteligência.” 

Jorge Drexler, 61: novo disco 'Taracá' (2026)
Jorge Drexler, 61: novo disco ‘Taracá’ (2026) (Camilla Maia/Bravo)

OUTRO MISTÉRIO

“A família da minha mãe vem da fronteira com o Rio Grande do Sul, na minha casa sempre existiu uma fascinação pela cultura brasileira. Eu nem sei porque falo português, nunca tive aulas. Comecei a falar… cantando. E nem me lembro exatamente como apareceu em casa todo esse mundo, tanta música brasileira ao redor.” 

Drexler em sua nova turnê: shows no Brasil em maio
Drexler em sua nova turnê: shows no Brasil em maio (Simon Canedo/divulgação)
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NÃO É EXAGERO

“Durante muito tempo estudei violão instrumental clássico e, ao mesmo tempo, me interessava por literatura, escrevia prosa e poesia. Decidi juntar essas duas coisas e só fazer canções depois de ouvir Chega de Saudade, de João Gilberto. Isso mudou o curso da minha percepção da música. Uma composição com letra e violão muito inspirados e uma emissão vocal que posso atingir, porque não tenho uma voz enorme. Você vai achar que estou exagerando a minha relação com a música brasileira, mas é a verdade.”

A capa de 'Chega de Saudade' (1959): álbum de estreia de João Gilberto (1931-2019)
A capa de ‘Chega de Saudade’ (1959): álbum de estreia de João Gilberto (1931-2019) (Divulgação/divulgação)
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