Jorge Drexler fala de Roberto Carlos, João Gilberto e um mistério da infância
Lembranças e melodias do cantor e compositor uruguaio, que revela uma relação antiga com a cantiga 'Marinheiro Só'
Você já teve a experiência de acessar uma memória pela primeira vez? Jorge Drexler, 61, passou por isso durante a entrevista para esta edição da coluna Atemporal da Bravo!.
Em turnê com o disco Taracá (2026), em que se reconecta com as raízes uruguaias, o cantor e compositor fará seis shows no Brasil neste mês, em Curitiba (21), São Paulo (23), Rio de Janeiro (27) e Porto Alegre (29, 30 e 31).
Na conversa, você verá que a influência brasileira acompanha Drexler desde os primeiros anos de vida. A nova seção da revista reúne memórias, frases, raridades e curiosidades de personalidades. Um baú afetivo a ser descoberto e revisitado. Entre no universo do artista uruguaio a seguir.
UM MISTÉRIO
Perguntado sobre a sua primeira memória musical, Jorge acessou uma lembrança inóspita. “Eu, no meu aniversário, bem menino, subindo em uma mesa e cantando: ‘Yo no soy de aquí y no tengo amor/Yo soy de Bahía de San Salvador’. Essa música é de quem?”, questionou, surpreso com o próprio relato. O cantautor precisou de alguns minutos para pensar e pesquisar sobre Marinheiro Só, a cantiga tradicional brasileira que chegou aos seus ouvidos ainda criança. “É realmente uma revelação para mim, nunca tinha me lembrado desse momento. Foi a primeira vez que cantei em público, e nem sei porque que fiz isso, era muito tímido”, relembra. Agora, qual a tal versão espanhola que tocava nas rádios entre o fim dos anos 60 e começo dos anos 70 no Uruguai — Caetano Veloso lançou sua versão em 1969 — segue um mistério.
BRASIL DESDE SEMPRE
“Aos 7 anos eu estudava piano com uma vizinha. Disse a ela que vi na televisão alguém tocando e cantando ao mesmo tempo, e queria fazer isso. Ela me disse que não poderia ensinar, porque era uma professora clássica. Mas mesmo assim foi até a loja no centro da cidade e voltou com uma partitura. Era a versão em espanhol de Eu Quero Apenas, de Roberto Carlos. Com aqueles quatro acordes, escrevi 80% do meu repertório depois, devo confessar (risos). Primeiro grau, sexto grau, segundo grau, quinto grau.”
AS PEDRAS TÊM NOME
“Em La Paloma (cidade no litoral sudeste do Uruguai), a minha casa ficava em frente ao mar, você saía e ia com continuidade até a areia. As rochas em frente são tão conhecidas pela família que todas têm um nome próprio.”
UM DIA PERFEITO NO VERÃO URUGUAIO
“Um dia perfeito para mim em na Paloma, de criança, era acordar, ir pescar, voltar para casa, tomar um banho em frente à praia, comer com a família, dormir a sesta e à noite sair para comer um chivito (sanduíche tradicional uruguaio).”
PRECOCE
“Tinha um cinema em La Paloma que íamos à noite. Em Montevidéu tinha mais censura, mas lá nós conseguíamos entrar e ver filmes de idades mais velhas. Me lembro de ver muito cedo Dona Flor e Seus Dois Maridos (1976), que me impactou profundamente (risos).”
CARDÁPIO
“A minha bebida uruguaia favorita é o mate. Sem dúvida. Acho uma bebida superior, realmente. E o vinho uruguaio agora também é bom, mas foi muito ruim nos anos 80 e 90. O Uruguai tem uma gastronomia que não é muito diferenciável dos vizinhos, na verdade. Mas gosto muito de uma coisa que tem praticamente só no Uruguai, que é o fainá. É como uma pizza, um pão de farinha de grão de bico.”
DOUTOR JORGE
“Tenho grau de médico geral, mas não acabei a pós-graduação em otorrinolaringologia, abandonei e fui para a Espanha. Da medicina eu gostava da relação com as ciências básicas. Fisiologia, fisiopatologia, bioquímica, genética, semiologia, farmacologia. E tenho muito interesse hoje, gosto de ler sobre saúde, cérebro, consciência, inteligência.”
OUTRO MISTÉRIO
“A família da minha mãe vem da fronteira com o Rio Grande do Sul, na minha casa sempre existiu uma fascinação pela cultura brasileira. Eu nem sei porque falo português, nunca tive aulas. Comecei a falar… cantando. E nem me lembro exatamente como apareceu em casa todo esse mundo, tanta música brasileira ao redor.”
NÃO É EXAGERO
“Durante muito tempo estudei violão instrumental clássico e, ao mesmo tempo, me interessava por literatura, escrevia prosa e poesia. Decidi juntar essas duas coisas e só fazer canções depois de ouvir Chega de Saudade, de João Gilberto. Isso mudou o curso da minha percepção da música. Uma composição com letra e violão muito inspirados e uma emissão vocal que posso atingir, porque não tenho uma voz enorme. Você vai achar que estou exagerando a minha relação com a música brasileira, mas é a verdade.”