Depois de ser mutante, produtor e CEO, Liminha prepara disco solo
O músico e executivo paulistano elege os seus álbuns favoritos, fala de I.A e lembra o fim da sua ex-banda: “O som ficou extremamente branco”
Liminha, 75, sentiu a música pela primeira vez aos 4 anos. Filho de uma professora de piano e um farmacêutico com talento no violino, formava com eles um power trio na sala de casa. O pequeno Arnolpho Lima Filho gostava de batucar nos móveis, até os pais aparecerem com um pandeiro. “Me lembro bem dessa cena: eles tocando e eu sentado do lado em uma cadeira, com o pandeiro entre as pernas, batendo com ambas as mãos.”
Naquele dia em São Paulo, em meados dos anos 1950, começou uma longa e simbiótica relação entre Liminha e ela… a música. “Música é como ar, ilimitada”, “a guitarra, para mim, é um elemento da natureza”, “tocar é como respirar”. Não há distinção: para ele, vida é som. Com os dedos no baixo, liderando o estúdio ou sentado na cadeira de CEO, Liminha atendeu a todos os chamados da arte, sem deixar a canção chegar ao fim.
“A guitarra, para mim, é um elemento da natureza.”
Em casa, no estúdio ou no escritório, as paredes guardam um arsenal de instrumentos. O primeiro elétrico foi um baixo Del Vecchio, presente do seu pai. Mas sua paixão mesmo é a guitarra. “Cada vez que pego uma Fender, o meu pensamento é arremetido para a Califórnia dos anos 1960. Não é só um instrumento, ela mudou o comportamento, trouxe o rock, uma das maiores invenções do século passado”, conta. Instantes antes de atender a ligação para a entrevista, disse que estava dedilhando o clássico Apache, da banda The Shadows, em sua Fender Fiesta Red. “Tem gente que coleciona obra de arte, eu coleciono instrumentos.”
Começo e fim dos anos mutantes: “O som ficou extremamente branco”
Em casa, Liminha gosta de sentar e tocar trechos das muitas músicas que se acomodaram na sua memória. Esta que, vale pontuar, é invejável (ele se recorda até da calça exata que usou no VII Festival Internacional da Canção, de 1972). Para Liminha, cada modelo de guitarra ou baixo carrega as lembranças de uma década, uma banda, um riff.
Do seu acervo pessoal, um dos itens míticos é o baixo Regvlvs, criação de Cláudio César Dias Baptista, irmão de Arnaldo e Sérgio, d’Os Mutantes. Foi o companheiro de Liminha nos anos de banda, entre 1969 e 1974, criando com Rita Lee (1947-2023) e companhia discos inesquecíveis como Jardim Elétrico (1971). “Com 15 anos, eu falava para a minha namorada: ‘O meu sonho é tocar nos Mutantes’. Eu tinha visto eles no programa do Ronnie Von. E só de ver uma vez já consegui tirar a música que tocavam”, rememora.
Na adolescência, passou pela banda Os Baobás, que acompanhou Caetano Veloso em alguns shows no fim dos anos 60. “Minha primeira viagem de avião foi para tocar com Caetano no Rio.”
Após conhecer Sérgio Dias, recebeu o aguardado convite, aos 18 anos, quando estudava para o vestibular. “Um belo dia, cheguei em casa e minha mãe falou assim: ‘Passaram dois cabeludos com uma loira em um carro todo pintado, deixaram esse telefone e pediram para você ligar (risos).” Em 1970, o baixista ainda cursou um ano de economia, mas não poderia haver universos mais distintos. “Fomos tocar no Olympia em Paris, em setembro ou outubro. Perdi o ano na graduação, mas não queria saber. A faculdade era um ambiente muito careta comparado à loucura dos Mutantes.”
Para Liminha, os anos loucos e maravilhosos com o grupo terminaram pela mudança sonora, decretada com a saída de Rita, em 1972. “Com ela, o nosso trabalho era superespirituoso, ela trazia uma boa dose de humor.” Influenciados pelos discos de bandas como Yes e Emerson, Lake & Palmer, os Mutantes enveredaram pelo rock progressivo. “Quando o Arnaldo saiu (em 1973), a banda ficou meio acéfala. Era o nosso líder”, conta.
“A música é como o ar: ilimitada.”
Liminha deixou o conjunto em 1974, antes das gravações do disco Tudo Foi Feito pelo Sol, lançado no mesmo ano. “Estava chato para mim, fui desanimando. Tenho uma veia na música black, e o som estava extremamente branco. Foi desinteresse mesmo, não tinha mais graça”, diz.
Sair dos Mutantes foi como pendurar aquelas chuteiras que tanto desejou. “Foi meio quando o Pelé parou de jogar e nunca mais voltou, deixei aquilo (a banda) para trás.” O ex-mutante seguiu em frente, realizou um sonho antigo de morar no Rio de Janeiro e ali se descobriu produtor, após um ano atuando como músico freelancer. “Fui convidado para trabalhar como assistente na Warner. Meu primeiro trabalho foi produzir as Frenéticas. Foi o primeiro disco de ouro da gravadora”, relembra.
Capítulo dois, produtor: “Sempre busquei artistas de verdade”
Ali começou o segundo capítulo da carreira, no qual assinou a produção de quase 200 discos. Passou pelas mãos e ouvidos de Liminha o melhor do pop e rock brasileiro dos anos 80 para a frente, álbuns como Tempos Modernos (1982), de Lulu Santos, Selvagem? (1986), d’Os Paralamas do Sucesso, Cabeça Dinossauro (1986), dos Titãs, O Canto da Cidade (1992), de Daniela Mercury, Da Lama ao Caos (1994), de Chico Science & Nação Zumbi, e Essa Boneca Tem Manual (2004), de Vanessa da Mata.
Em 1981, iniciou uma das parcerias mais importantes da sua trajetória, com Gilberto Gil. Foram catorze álbuns do mestre baiano produzidos entre 1981 e 2009, além de composições em dupla como Nos Barracos da Cidade e o sucesso Vamos Fugir. “Is This Love (de Bob Marley) foi a minha inspiração”, diz, sobre o hit.
Os dois fundaram, em 1984, o estúdio Nas Nuvens, no Jardim Botânico, no Rio de Janeiro, em atividade até hoje como base de trabalho do produtor. Dos estúdios, Liminha foi para os cargos executivos. Foi vice-presidente artístico da Sony Music e atualmente é CEO da Nas Nuvens Music Group, empresa de gerenciamento de catálogos que acaba de comprar os direitos do repertório de… Gilberto Gil. “Mas continuo produzindo, estou com um projeto em homenagem ao Arlindo Cruz. Caminho com as duas coisas, o que para mim é fundamental.”
Na trajetória pelos bastidores, Liminha revela o que aprendeu. “Na Warner, tínhamos um critério: contratar compositores. Os intérpretes tinham dificuldade em conseguir repertório.” Mas tem outro ponto comum ainda mais importante entre os artistas produzidos por ele. “Eles são inteligentes. Claro que tem a sensibilidade, mas tem que ter inteligência para saber o que falar para o público. Nunca fui fã de produzir discos vistos como produtos de marketing. Sempre busquei artistas de verdade”, afirma.
Disco solo, biografia e o futuro: “A inteligência artificial preocupa”
Se o papo é música, a conversa com Liminha vai longe. Dos Beatles, o seu álbum favorito é Rubber Soul (1965). “O Paul McCartney resolveu botar as manguinhas de fora e criar as maiores linhas de baixo. Para mim, é um marco de qualidade”, opina.
Entre as obras essenciais na sua vida está Amoroso (1977), de João Gilberto. “Eu tirei todas as harmonias quando foi lançado. Ele tocando é a verdadeira bossa nova.” É fã de Bob Marley. “Tenho todos os vinis dele.” E também do rock dos anos 50 e 60, como The Ventures e The Jet Blacks. Mas também ouviu muito o jazz de Dave Brubeck (1920-2012).
Dos discos brasileiros em que não esteve envolvido, ressalta Na Pressão (1999), de Lenine, Rita Lee (1980) e O Passo do Lui (1984), d’Os Paralamas do Sucesso. Da nova geração, destaca cantoras como Duda Beat, Agnes Nunes e Luedji Luna, além do grupo Gilsons.
O ouvido também está antenado para as transformações tecnológicas. “A inteligência artificial preocupa. É muito complicado. A velocidade com que se faz uma música hoje é covardia.” Sem saudosismo, Liminha relembra os pontos altos da produção analógica. “Gravar em fita desenvolveu muito a minha escuta, porque não tem aquele auxílio visual luxuoso. Cheguei a ficar dezoito horas mixando uma música.”
Além das facetas de instrumentista, produtor, compositor e executivo, Liminha tem o seu lado nerd. “O disco Luar, do Gil, foi a primeira vez que mixei nos Estados Unidos. Foi um marco para mim. Eu era muito CDF, cheguei com um calhamaço, desenhei a mesa e as equalizações. O engenheiro gostou de mim e me ensinou muito. Voltei outra pessoa”, conta.
Inquieto, Liminha está cozinhando a sua autobiografia e um primeiro disco solo. O projeto do álbum começou após um convite do movimento americano Jazz Is Dead para liderar um show em um festival, que acabou não acontecendo. “Não sou cantor, não tinha nada preparado. Então, pensei em fazer alguma coisa dos Mutantes. Acho que comecei com Ando Meio Desligado. Fui gravando e surgiu um repertório interessante, só que veio a pandemia e parei”, conta.
A ideia é que seja um álbum com novas versões de músicas da sua trajetória, além de uma inédita. “É um disco sem compromisso comercial. Tem coisas bem ousadas que fogem totalmente do padrão de música pop. É um compromisso artístico.”
Liminha também pinta nos palcos vez ou outra. Em 2023, viajou com os Titãs tocando guitarra na turnê Encontro e, em 23 de agosto, em São Paulo, tocou com Marina Lima no show do disco Fullgás (1984), no festival C6 no Rock.
Sua única tatuagem é um desenho encomendado a Antonio Peticov de uma guitarra preenchida pela palavra “Sapiens”, no braço direito. A música está no DNA, na pele, é da sua espécie (e da sua alma). “Eu gosto de estar próximo da música. Então não tenho do que reclamar.” ■
Publicado em BRAVO! de agosto de 2026, edição nº 193