Onde o som fala mais alto: a onda de listening bars pelo Brasil
Com curadoria e qualidade acústica, conheça lugares onde a trilha sonora é protagonista em São Paulo, Curitiba, Rio de Janeiro e mais
Uma escuta ativa. É o que buscam os listening bars, ou bares de audição, uma categoria que ganhou força em São Paulo nos últimos anos e tem se espalhado pelo país. Mais do que coquetéis e acepipes, o grande foco desses lugares é a trilha sonora, tocada em geral a partir de discos de vinil. Ali, o som não entra como coadjuvante, mas sim como protagonista. A regra é não ficar indiferente a ele.
“Você não tem como escapar da música em nenhum momento — não é uma música de elevador”, enfatiza Flávio Seixlack, ex-jornalista musical e sócio do Domo, um dos primeiros endereços do gênero a ser aberto na capital paulista, três anos atrás, pertinho do Minhocão, no centro da cidade.
O bar tem um ambiente de 52 metros quadrados e apenas 35 clientes por vez se acomodam em pequenas mesas ou nas banquetas do balcão, atrás do qual se posta um DJ ou “seletor musical” (um entendido que não seja, necessariamente, profissional). A clientela, enquanto esvazia taças de coquetéis, de vinhos ou saquês e pratos com receitas de inspiração latino-asiática, nunca deixa de prestar atenção às canções de boogie, soul, R&B, jazz, pop japonês ou brasilidades disparadas durante a noite.
Parecem instalações decorativas, mas as “nuvens” vermelhas de lã de rocha que descem do teto são placas de absorção de ondas sonoras, em prol do conforto acústico. Pelo mesmo motivo, foram instaladas mantas do material nas paredes, e o teto foi construído de forma angulosa para que o som, emitido de caixas de som de estilo vintage posicionadas estrategicamente no balcão curvado, não chegue muito alto ao comensal.
Esse tipo de cuidado é muito levado em conta nos listening bars. “Se você tem um vinil ruim, uma agulha ruim, não vai ter um som bom, porque uma característica do som analógico é ser o mais fiel ao que está sendo tocado”, conta Guga Roselli, criador da plataforma Mareh, DJ e fundador do bar Conselheiro. Para montar a casa, em 2023, em um casarão centenário no histórico bairro paulistano do Bixiga, chamou um engenheiro especializado e diz ter buscado tecnologias de ponta para simular um som de estúdio no salão.
Ali, o público acima dos 30 anos observa colecionadores de discos e DJs soltarem ritmos que costumam variar de noite a noite. Com um ano de existência, a Formosa Hi-Fi aprofunda essa ideia juntamente com o conceito de ser um bar “high fidelity”, ou de alta fidelidade.
O conceito foi exemplificado pelo empresário Facundo Guerra, um dos sócios. “Você pega uma tecnologia que encontra na Sala São Paulo, por exemplo, tanto de acústica quanto de sonorização, e transplanta para um bar, para a música popular”, explicou à época da abertura.
A experiência de som remete à de um bom show, mas tocado em discos e no conforto de um bar. O estabelecimento foi criado numa galeria subterrânea, embaixo do Viaduto do Chá, no centrão de São Paulo, a mesma onde consta que Elis Regina ensaiou, em 1975, seu mais importante espetáculo, Falso Brilhante. Sim, a acústica também guiou o projeto da casa e ficou a cargo do escritório Acústica & Sônica, responsável pela própria Sala São Paulo e pelo Cultura Artística, entre outros espaços.
Desde a abertura da Formosa, casais e turistas se sentam nos sofazinhos ou no balcão em meandros para escutar os vinis ressoarem de caixas de som da prestigiada marca francesa L-Acoustics espalhadas pelo salão. Não raro, há audições de discos completos, como Criolo, Amaro & Dino, encontro do rapper paulistano Criolo, do pianista pernambucano Amaro Freitas e do cantor português do Algarve Dino DíSantiago. “Gostamos de garantir a diversidade musical e a liberdade de quem é escolhido para a noite”, conta o gestor cultural Alê Youssef, outro dos fundadores.
O ato de escutar discos em comunhão com os outros remonta às origens dos listening bars. Esse tipo de espaço ganhou força no Japão sobretudo após a Segunda Guerra Mundial. Os embriões foram os chamados jazz kissa, cafés onde o público se reunia para as audições. O silêncio, às vezes, imperava, quase como um ritual, e esse formato foi evoluindo e ganhando novos contornos.
Embora muitos listening bars no Brasil mirem o modelo japonês, a realidade por aqui é bem diferente — a conversa faz, sim, parte do serviço. “No início, pedíamos para as pessoas falarem mais baixo, estarem mais atentas, só que começou a trazer problema, o público não estava acostumado, não entendeu o conceito e vinha só pelo hype, sem muito interesse”, revela Menandro Rodrigues, sócio e chef executivo do carioca [111] Bar, listening bar instalado em cima do restaurante nipônico Haru, com jeito de estúdio e curadoria musical do produtor Danny Dee.
O público ali ouve hits de Michael Jackson e Sade, nem sempre em vinil. “Hoje, conseguimos um meio-termo muito interessante entre o excesso e o silêncio absoluto.” Além da conversa permitida, e tudo bem, muitos bares do gênero têm recebido ares de festinhas, com o público de pé, por vezes, circulando e dançando. O Matiz, no alto de um prédio no centro de São Paulo, tem excelente acústica e conquista frequentadores que chacoalham os corpos, inclusive a cantora britânica Dua Lipa, que visitou o endereço quando esteve na cidade.
“Este momento tem a ver com um contrafluxo da hiperdigitalização e conectividade que as pessoas estão vivendo.” Alê Youssef, sócio da Formosa Hi-Fi
No Starlane São Paulo, numa antiga residência no bairro paulistano de Pinheiros, onde pizzas e coquetéis andam de mãos dadas, as mesas são afastadas às sextas e aos sábados, e uma pista é improvisada. A casa se originou de um bar de Londres, cidade onde os endereços musicais ganharam novos formatos, assim como Nova York, Paris, Seul… “Listening bar é uma trend mundial, não é só por aqui”, observa Guga Roselli.
Pelo Brasil, os estabelecimentos musicais começam a se espalhar ainda mais. Belo Horizonte ganhou em março o Ototoi, que se autodenomina bar de discos, e já tinha o Vizú, um pizza-bar com música.
Em Curitiba, observa-se a cena se desenhando com nomes como o PurpleCat., onde se vendem LPs de dia, o público é incentivado a levar álbuns de vez em quando e uma placa avisa que é “proibido dançar”. “Tive vivências no Japão e tentei trazer o mais próximo disso para cá”, garante a idealizadora Livia Shimamura. “Lá tem desde os lugares mais rigorosos, para escutar mesmo, aos mais descontraídos.”
Salvador se prepara para ganhar um endereço inspirado no gênero, o Limbo, com mais jeito de balada, dos mesmos donos do badalado ponto de coquetelaria Purgatório. “É um espaço onde a música deixa de ser pano de fundo para se tornar protagonista”, divulgaram os sócios.
O sucesso é tanto que há estabelecimentos que, só por soltarem um som em volume mais alto, já dizem estar dentro da categoria, embora as canções não estejam exatamente em primeiro plano. “No Brasil, a coisa se desvirtuou um pouco”, opina Flávio, do Domo. “Tem muito bar que se chama de listening bar e não é. Não é simplesmente colocar umas caixas de som em um boteco, ou um bar que seja, e achar que isso o torna um listening bar”, pontua. “Na verdade, eu diria que a maioria que se diz listening bar é, na verdade, um club que está surfando a trend”, apimenta Guga, do Conselheiro.
Mas o fenômeno sonoro só evidencia que o público quer escutar um som cada vez mais de forma ativa e conjunta. “Os clubbers estão mais velhos e querendo continuar a ouvir música, mas agora com serviço, com qualidade, não mais vodca com energético”, acredita Guga. “E os clubs perderam espaço na cena para as festas itinerantes, que não acontecem sempre”, segue o empresário, que produz o Mareh Festival há vinte anos.
Há quem vá além na explicação. “Este momento tem a ver com um contrafluxo da hiperdigitalização e conectividade que as pessoas estão vivendo, buscando músicas não algorítmicas, mas selecionadas por humanos, buscando encontro, troca, conversa, olho no olho”, teoriza Alê Youssef. “Acho que a Formosa e todos esses outros bares importantes de audição que abriram têm isso em comum. É um desejo cada vez mais presente da sociedade em relação ao consumo musical.” No fundo, trata-se de uma escuta ativa. ■
Publicado em BRAVO! de agosto de 2026, edição nº 193





