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Loulu Gilberto, caçula de João Gilberto, estreia como cantora: “Eu tinha medo”

Na entrevista, a jovem artista fala sobre o primeiro álbum, a herança musical do pai e o resgate de sambas antigos ouvidos na infância

Por Tomas Novaes 21 Maio 2026, 21h00
Mulher de pele morena clara, cabelo curto escuro, usando camisa social branca de manga curta e gravata vermelha, olhando para a câmera com expressão séria e postura confiante, mãos na cintura, em fundo branco
A jovem cantora Loulu Gilberto: caçula de João Gilberto (1931-2019) lança seu primeiro disco (Bob Wolfenson/divulgação)
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Loulu Gilberto, 21, venceu o medo e soltou a voz. A filha caçula do artista fundamental para a música brasileira como a conhecemos, João Gilberto (1931-2019), lança o seu disco de estreia nesta quinta-feira (21).

O álbum homônimo da jovem cantora se situa no mesmo universo sonoro de seu pai, em que os protagonistas são o cantar suave e o violão. O repertório também parte da referência paterna: a artista decidiu gravar sambas antigos e outras músicas que João tocava em casa, mas nunca gravou em estúdio.

Mulher jovem com cabelo curto escuro e maquiagem marcante, usando um vestido branco com babados e laço, olhando para cima. Luz e sombra de persianas criam listras na parede clara atrás dela
Loulu, 21: ensaio fotográfico de Bob Wolfenson (Bob Wolfenson/divulgação)

Nesse cancioneiro íntimo que agora ganha o mundo estão temas como Joujoux e Balangandãs (Lamartine Babo), Dorme Que Eu Velo Por Ti (Mário Rossi/Roberto Martins), Cuidado com o Andor (Mario Lago/Marino Pinto), Tea for Two (Irving Caesar/Vincent Youmans) e Mr. Sandman (Pat Ballard).

A excelência musical que acompanhou toda a carreira de João não poderia faltar neste projeto inaugural de Loulu. Por isso, ela reuniu um time de craques. A produção é assinada pelo arranjador Mario Adnet e o compositor Cézar Mendes, que toca os violões das faixas. As cordas foram gravadas pela St. Petersburg Studio Orchestra.

As participações especiais são de Tom Veloso, que canta Avarandado, de seu pai, Caetano, além de Daniel Jobim em Tea for Two e Maria Carvalhosa em Joujoux e Balangandãs.

O repertório de treze músicas, lançado pela Sony, ainda traz uma homenagem direta ao pai de Loulu, a música João, parceria de Cézar com Arnaldo Antunes lançada no disco O Real Resiste (2020) do ex-titã.

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Nascida em 2004, Luísa Carolina Gilberto, ou Loulu, é filha de João com a jornalista Cláudia Faissol. Pouco tempo após perder o pai, quando tinha 15 anos, a jovem se reconectou com o universo musical que esteve presente desde a infância, nos duetos caseiros com João.

Sobre a descoberta da própria voz, as referências de canto e os próximos passos da cantora estreante, confira a entrevista a seguir.

Mulher sorridente com cabelo curto, vestindo um vestido amarelo estampado com margaridas brancas e meias-calças rosa, chuta uma bola de futebol estilizada. No canto superior direito, um sorvete de casquinha com três bolas coloridas. O fundo é branco
Disco de estreia: ‘Loulu Gilberto’ (2026) foi lançado nesta quinta-feira (21), pela Sony (Bob Wolfenson/divulgação)

Em uma postagem sobre o álbum, você escreveu: “Tenho razões para crer que esse disco foi encomendado por forças maiores”. Qual o significado desse projeto?

Quando decidi e falei com o Cezinha (o compositor e violonista Cézar Mendes) que queria ser cantora e gravar um disco, tudo aconteceu muito rápido. Parecia que estava escrito nas estrelas. Tudo foi acontecendo de uma forma muito orgânica, com muita facilidade. Até nas escolhas das parcerias. Por exemplo, quando convidei Maria Carvalhosa para cantar Joujoux e Balangandãs comigo, depois ela me disse que a mãe dela cantava essa para ela dormir. Não sabia disso. Tem a coisa do acalanto, que está no disco.

Como aconteceu o encontro com o Cézar Mendes, e qual a importância dessa parceria?

Conheci o Cezinha com 11 ou 12 anos. Meu pai me levou lá porque queria que ele me desse aula de violão. Quando cheguei, ele falou: “Cézar, ela é a melhor cantora do Brasil, canta melhor que eu, vai cantar para você”. Super tímida, fiquei morrendo de medo e corri para a porta. O Cezinha falou: “Não, João, não force, ela vai no tempo dela…”. Acabou que fui no meu tempo, não quando meu pai queria. Só depois que ele faleceu, com 16 anos. Cheguei lá e falei para o Cezinha que queria fazer aula de canto. Ele disse que era professor de violão, e iria indicar alguém, mas insisti e ele cedeu. Viramos amigos, e comecei a contar dos sambas antigos que meu pai ensinou. Ele ficou maravilhado, porque não conhecia. Começamos a tirar esses sambas, eu cantando, ele acompanhando, até eu decidir que queria ser cantora.

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Qual foi a virada de chave para você decidir ser cantora?

Foi uma decisão difícil, eu tinha muito medo. Não achava que minha voz era boa o suficiente. Com a ajuda dos amigos e da família, fui gostando mais de mim. E tomando coragem. Eu tinha um cabelo enorme, e cortei. Nessa época, estava com um amigo em uma praça em Ipanema, quando ele falou: “Você tem que ser cantora”. Eu dizia que não, que tinha medo. Nesse dia, imbuída um pouco dessa fala dele, cheguei na casa do Cezinha e falei assim: “Eu quero ser cantora”. Falei com medo, mas falei.

Como foi selecionado o repertório desse disco?

As músicas surgiram a partir de uma pesquisa. Primeiro dentro da minha memória afetiva, das coisas que ele me cantava quando criança. Depois fizemos um processo de pesquisa no YouTube e no acervo da família. Pesquisamos o repertório dele que nunca foi gravado. A ideia era ir para esse lado, porque ele tinha infindas canções que não gravou e que tocava repetidamente em casa. O foco foi esse. Comecei a pesquisar cantores do rádio, compositores da década de 30, 40, 50, e fui me apaixonando. Esse cancioneiro popular brasileiro é muito impressionante e hoje não é tão conhecido. Isso tinha que ser lembrado. O repertório também partiu da necessidade de homenagear esses compositores. Foram eles que construíram a identidade cultural do Brasil. É muito importante lembrar e regravar, para que as novas gerações conheçam.

Tem alguma música do repertório que é mais marcante na sua vida?

Acho que Dorme Que Eu Velo Por Ti. Era uma música que eu não lembrava explicitamente. Mas, começamos a pesquisar no YouTube, me deparei com ela e lembrei a melodia inteira. Foi muito esquisito, eu não sabia que me lembrava. Foi bonito reencontrar essas canções que estavam esquecidas. Elas estavam aqui em algum lugar, veladas no meu inconsciente.

Loulu, você se recorda da sua primeira memória musical?

Talvez tenha sido Chega de Saudade. Antes de aprender os sambas antigos, aprendi todos os clássicos. A gente cantava muito também Você e Eu. Lembro de, com uns 4 anos, aprender Carinhoso para cantar no Dia das Mães do colégio. Ninguém vai se preocupar meticulosamente com a melodia que uma criança está cantando, né? Cheguei na casa do meu pai para mostrar e, quando terminei, ele disse: “Que lindo, minha filha. Mas a melodia não é essa não… É assim”. E ficou cantando para eu repetir. Ele me ensinava assim, com mil repetições.

Quem são as suas referências de canto?

A primeira cantora que pesquisei mais a fundo foi Nara Leão. Além dela, também Sylvia Telles, Dolores Duran. Aquele álbum da Sylvia Telles, Amor em Hi-Fi, nossa… O da Dolores também, Canta Para Você Dançar. A Astrud Gilberto é outra grande referência. O Lúcio Alves, Os Anjos do Inferno, um conjunto vocal que meu pai gostava muito. E tem os estrangeiros também, os The Hi-Lo’s. Aqui tinha o Bando da Lua. Orlando Silva, Johnny Alf, Dalva de Oliveira, Dóris Monteiro, Gal Costa, Maria Creuza, Lamartine Babo, Maísa, Elizeth Cardoso… muita gente.

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Qual foi o maior desafio na feitura desse disco?

Entrar no estúdio. Eu nunca tinha cantado diante de um microfone. Era algo que eu fazia em casa, foi um choque muito grande. Entrar no estúdio ao lado dos músicos, que são todos titãs, megaconsagrados. Ali eu me sentia um pardãozinho, mas fui desenrolando. Desceu pro play, tem que brincar (risos). Tive esse choque, de pensar “será que eu tenho cacife para isso?”. Mas saiu um resultado muito bonito, fiquei orgulhosa.

Após o lançamento, quais os próximos passos na sua carreira?

Gostaria muito de levar esse disco para a rua, nos quatro cantos do mundo. Isso está na agenda. Mas, por enquanto, estamos só preparando, estudando, ensaiando, talvez no segundo semestre venha um show de lançamento e uma turnê.

No processo de pesquisa, imagino que muitas músicas ficaram de fora. O que você pensa para o futuro?

Ficou muita coisa de fora. Algumas vamos completar no show. Mas essas canções vão ficar comigo. Em qualquer trabalho que eu fizer, vou gostar de relembrar um pouco o passado. Mas não vou cair em um lugar saudosista de gravar apenas compositores antigos. Tenho muita fé no futuro, nos artistas dessa geração. Mas sempre vou ter um pé nesse lado. Porque o cancioneiro popular é impressionante, esses compositores têm uma qualidade poética incrível. Eles formaram a identidade cultural do país.

Para fechar, qual o aprendizado mais importante que seu pai deixou para você?

O melhor presente que ele me deu certamente foi o ouvido. Aprender a ouvir. Perto dele não podia falar muito, tinha que sentar e ouvir. Escutar a canção. Foi uma grande lição que aprendi: ouvir mais do que falar. E uma coisa da interpretação dele, que carrego um pouco na minha, é que, quando você ouve o canto, vê imagens muito fortes. É sobre internalizar a canção e pensar nas imagens que aquilo provoca. Para que você possa passar isso para o outro que está ouvindo. Foram essas duas lições que aprendi com ele, a imagética e o ouvido.

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