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O voo solo e as raízes de Marcelo Falcão: “Nunca ganhei a chancela do Leblon”

Prestes a estrear a turnê 'O Legado', o ex-vocalista d'O Rappa fala sobre o subúrbio carioca, seus discos favoritos e planos para o futuro

Por Tomas Novaes 30 jul 2026, 19h44 | Atualizado em 31 jul 2026, 16h16
Homem negro com dreadlocks e barba, usando óculos escuros, camisa preta e lenço no pescoço, estende as mãos para frente em um fundo escuro
Marcelo Falcão, em voo solo: voz d'O Rappa, cantor e compositor lançou seu segundo disco próprio, 'O Legado'  (30e/divulgação)
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O voo solo e as raízes de Marcelo Falcão: “Nunca ganhei a chancela do Leblon” Priorizar nos meus resultados Google

Marcelo Falcão, 53, sabe bem de onde veio. Mas confessa que não sabe para onde vai. Resta uma certeza: “quero dar continuidade”. Em voo solo (desde 2018) ou com O Rappa, o cantor e compositor carioca sempre atendeu ao chamado da música, sem perder as raízes nem o clássico timbre grave da voz.

A ponte entre passado e futuro sustenta o disco Legado (2025), o segundo do artista após a pausa da ex-banda. O projeto ganha os palcos a partir de agosto, com grande turnê que estreia no Rio de Janeiro, dia 8.

Cartaz de show com Marcelo Falcão, dreadlocks, barba, óculos escuros e moletom cinza, olhando para frente. O título Marcelo Falcão em dourado texturizado está acima. Abaixo, Turnê O Legado e uma lista de datas, cidades e locais de shows em agosto e setembro, como Rio de Janeiro, Fortaleza, Porto Alegre e São Paulo. No rodapé, Mais datas em breve e o logo 30 anos
As datas da turnê ‘O Legado’: produção da empresa 30e (30e/reprodução)

O título do trabalho traduz bem o momento de Falcão. O “legado” está nas letras densas sobre problemas sociais e pessoais, que soam como mensagens para quem escuta. E na tarefa de levar adiante a sua história de mais de trinta anos na música. “Sigo fazendo o que me emociona. Que o mundo e o amor me deem motivos para continuar canetando sobre eles. E que a gente nunca se esqueça de onde veio”, declara.

O reggae, o rock e o pop seguem como pilares do som do cantor. Seu primeiro disco solo foi Viver (mais leve que o ar) (2019), e nessa caminhada a sós vieram hits com participações em projetos alheios, como a faixa Pesadão, dueto de 2017 com Iza, e Não Desista Agora, lançada em 2021 com Filipe Ret.

Eu não vim de uma época de like, e sim de um tempo em que as pessoas faziam músicas que ficavam para sempre. Então, toda vez que olho para a minha história, tenho orgulho de tocar cada canção“, diz.

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Nesse recomeço da carreira, a vontade é criar e construir novas pontes. “Estou no trilho do sonho do músico. De novas parcerias, novos produtores”, diz Falcão, que hoje vê os pais levando os filhos nos seus shows. E a nova geração se aproximando do seu som, após colaborações de rappers como L7NNON, Orochi e Major RD no disco Legado. “Lá atrás o Rappa não foi abraçado. Então eu quero ser esse cara que incentiva a minha geração a ouvir coisas novas”.

Homem de dreadlocks e óculos escuros, vestindo jaqueta escura e camisa clara, sentado em uma cadeira coberta por tecido cinza, com as mãos cruzadas e anéis nos dedos, contra um fundo azul escuro texturizado
Marcelo Falcão, 53: novo disco e turnê solo, ‘O Legado’ (30e/divulgação)

Caneta na mão

Todas as faixas de  O Legado trazem a assinatura de Falcão na composição. “Hoje eu caneto e já quero ir logo para o estúdio. Quando faço uma melodia, eu ‘grunho’ ela. Por isso nunca tiro os jargões”, detalha. Entre os parceiros do novo trabalho estão Lula Queiroga e Ademir Custódio, seu pai. “Todo domingo a gente senta para almoçar, quando volto de viagem. Ele é o meu herói, ele me ensinou tudo”, conta.

A inspiração tem propósito. “Estou sempre vivendo na esperança de que, cantando algo do meu coração, possa mudar a minha vida e a de outras pessoas. Sabemos que o mundo não é totalmente positivo, é pesado para todos nós, poderia ser mais leve. Então canto para que, naquelas duas horas de show, a vida das pessoas seja transformada”.

A música Crença e Fé, de Legado, é um exemplo, com os versos: Faz diferença a minha fé num mundo desigual/Superficial/Ser capaz de vencer sem se envolver com o mal. A trilha de Falcão é a organicidade, tanto nas palavras quanto no som. “Mensagens como essa fazem diferença. As pessoas ganham o direito de cantar e cantam com playback, ou ficam com medo de errar e colocam um VS (sons pré-gravados). Respeito muito, mas venho de uma escola em que quero ouvir o barulho, o grave, a porrada”, defende.

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Origem e cura

A desigualdade e os problemas sociais brasileiros são temas recorrentes nas letras da carreira solo de Falcão e dos discos d’O Rappa. “Entre tantos remédios e injeções para a cura, existe a música. As pessoas estão precisando disso. É a mesma necessidade que tenho de cantar. Venho do subúrbio, minha família ainda mora lá. E hoje está pior do que quando saí. Quando vou visitá-los, volto canetando, desabafando. É tudo muito verdadeiro”.

Falcão nasceu e cresceu no Engenho Novo, na Zona Norte carioca. “Não é falar da favela por falar da favela. É se emocionar com as coisas, e as pessoas sentem isso. A minha voz é um instrumento para levar esperança. Não é flores. É guerra. São vários nãos, a minha vida foi sempre assim. Nunca ganhei a chancela do Leblon, foi sempre uma briga solitária”, diz.

Essa luta solitária teve desde o começo um escudeiro fiel: o violão, seu melhor amigo. “Comecei a aprender com revistinhas, e gostava de incorporar os cantores, tentava imitar Renato Russo, Djavan, Titãs, João Gilberto...”, relembra.

O cantor chegou a estudar violão flamenco, inspirado pelo ídolo Paco de Lucía (1947-2014). “Sempre tive o violão como amigo. Morava em um conjunto habitacional, no 4o andar. E a acústica era muito maneira, o som se espalhava pelos corredores. Eu tocava e via as pessoas abrindo as portas pelos andares para me ouvirem cantar, até lá embaixo. O violão sempre me deu acolhimento”, conta.

Logo depois, no início dos anos 90, começou a história d’O Rappa, com Falcão acompanhado de Marcelo Yuka (1965-2019), Xandão, Marcelo Lobato e Nelson Meireles, que saiu em 1994 para a entrada de Lauro Farias. E vieram sucessos como Anjos (Pra quem tem fé), Minha alma (A paz que eu não quero), Pescador de ilusões, Auto-reverse

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Homem negro de dreads e barba, vestindo regata branca e calça preta, segurando um espelho que reflete sua imagem, em preto e branco. Ele olha para cima, com tatuagens nos braços, em um ambiente externo com parede de pedra e plantas.
Música e mensagem: “Minha voz é um instrumento para levar esperança” (Leo Gussi/divulgação)

O Rappa vai voltar?

O grupo anunciou uma “pausa sem previsão de volta” em 2018. Sobre o futuro, Falcão deixa claro que o momento do retorno não é este. Mas virá. “Estamos felizes com o que a gente se propôs. Tenho compromissos, todo um planejamento. O Rappa será sempre o amor da minha vida, mas nesse momento tenho mais um disco para entregar”, adianta.

Em 2027 virá o terceiro disco solo do artista com a Virgin Music Group. O álbum terá participação de Alcione. “Depois de entregar esse disco, penso em ficar um tempo na Austrália, minha mulher tem cidadania e inglês fluente, quero que meu filho tenha também”, anuncia.

Mas a ideia do futuro retorno está clara. “É um clima meio Oasis, depois que o cantor entregou três discos, se sentiu confortável para voltar com a banda. Então, levemente falando, eu me vejo assim. Talvez leve menos tempo do que o Titãs (risos)”, brinca. Por enquanto, Falcão segue cuidando bem do seu próprio legado.

Marcelo Falcão em 5 discos e artistas

  • Samba Esquema Novo (1963), de Jorge Ben Jor.
Jorge Ben, jovem negro de camisa polo vermelha e calça azul, toca violão com a perna direita levantada. O título JORGE BEN SAMBA ESQUEMA NOVO aparece à direita
A capa de ‘Samba Esquema Novo’ (1963): disco de estreia de Jorge Ben Jor (Jorge Ben Jor/reprodução)
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  • Led Zeppelin IV (1971), de Led Zeppelin.
Quadro antigo com moldura preta ornamentada pendurado em parede com papel de parede descascado. A imagem dentro do quadro mostra um homem idoso, curvado, com barba, chapéu e roupas marrons, carregando um feixe de galhos secos nas costas, apoiado em um cajado, em um campo verde com árvores ao fundo
‘Led Zeppelin IV’ (1971), de Led Zeppelin. (Led Zeppelin/reprodução)
  • “Sou apaixonado no Jack White, me amarro muito.”
Jack White, músico de cabelos escuros e camisa jeans, olha sério para frente, com a mão direita na cabeça. Um microfone vintage e um violão aparecem em primeiro plano, com um selo azul no canto superior direito com os dizeres Jack White Acoustic Recordings 1998-2016
O guitarrista, cantor e compositor americano Jack White: carreira solo e à frente da banda The White Stripes (Divulgação/divulgação)
  • “Sobre discos, se eu não tenho todos, tenho quase todos do Fela Kuti (1938-1997).”
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Fela Kuti, sem camisa, com um colar de corrente grossa, ergue os dois punhos cerrados acima da cabeça, olhando fixamente para frente
Fela Kuti em 1986: artista nigeriano pioneiro do afrobeat (Domínio público/divulgação)
  • “Sade também. Ela pode estar no tom mais alto, mas com delicadeza, aquela suavidade.”
Sade Adu cantando com os olhos fechados, usando brincos de argola grandes e gola alta, segurando um microfone com a mão direita, em preto e branco
A cantora britânica-nigeriana Sade: grande nome do soul, pop e R&B (Nick Souza/divulgação)

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