O voo solo e as raízes de Marcelo Falcão: “Nunca ganhei a chancela do Leblon”
Prestes a estrear a turnê 'O Legado', o ex-vocalista d'O Rappa fala sobre o subúrbio carioca, seus discos favoritos e planos para o futuro
Marcelo Falcão, 53, sabe bem de onde veio. Mas confessa que não sabe para onde vai. Resta uma certeza: “quero dar continuidade”. Em voo solo (desde 2018) ou com O Rappa, o cantor e compositor carioca sempre atendeu ao chamado da música, sem perder as raízes nem o clássico timbre grave da voz.
A ponte entre passado e futuro sustenta o disco Legado (2025), o segundo do artista após a pausa da ex-banda. O projeto ganha os palcos a partir de agosto, com grande turnê que estreia no Rio de Janeiro, dia 8.
O título do trabalho traduz bem o momento de Falcão. O “legado” está nas letras densas sobre problemas sociais e pessoais, que soam como mensagens para quem escuta. E na tarefa de levar adiante a sua história de mais de trinta anos na música. “Sigo fazendo o que me emociona. Que o mundo e o amor me deem motivos para continuar canetando sobre eles. E que a gente nunca se esqueça de onde veio”, declara.
O reggae, o rock e o pop seguem como pilares do som do cantor. Seu primeiro disco solo foi Viver (mais leve que o ar) (2019), e nessa caminhada a sós vieram hits com participações em projetos alheios, como a faixa Pesadão, dueto de 2017 com Iza, e Não Desista Agora, lançada em 2021 com Filipe Ret.
“Eu não vim de uma época de like, e sim de um tempo em que as pessoas faziam músicas que ficavam para sempre. Então, toda vez que olho para a minha história, tenho orgulho de tocar cada canção“, diz.
Nesse recomeço da carreira, a vontade é criar e construir novas pontes. “Estou no trilho do sonho do músico. De novas parcerias, novos produtores”, diz Falcão, que hoje vê os pais levando os filhos nos seus shows. E a nova geração se aproximando do seu som, após colaborações de rappers como L7NNON, Orochi e Major RD no disco Legado. “Lá atrás o Rappa não foi abraçado. Então eu quero ser esse cara que incentiva a minha geração a ouvir coisas novas”.
Caneta na mão
Todas as faixas de O Legado trazem a assinatura de Falcão na composição. “Hoje eu caneto e já quero ir logo para o estúdio. Quando faço uma melodia, eu ‘grunho’ ela. Por isso nunca tiro os jargões”, detalha. Entre os parceiros do novo trabalho estão Lula Queiroga e Ademir Custódio, seu pai. “Todo domingo a gente senta para almoçar, quando volto de viagem. Ele é o meu herói, ele me ensinou tudo”, conta.
A inspiração tem propósito. “Estou sempre vivendo na esperança de que, cantando algo do meu coração, possa mudar a minha vida e a de outras pessoas. Sabemos que o mundo não é totalmente positivo, é pesado para todos nós, poderia ser mais leve. Então canto para que, naquelas duas horas de show, a vida das pessoas seja transformada”.
A música Crença e Fé, de Legado, é um exemplo, com os versos: Faz diferença a minha fé num mundo desigual/Superficial/Ser capaz de vencer sem se envolver com o mal. A trilha de Falcão é a organicidade, tanto nas palavras quanto no som. “Mensagens como essa fazem diferença. As pessoas ganham o direito de cantar e cantam com playback, ou ficam com medo de errar e colocam um VS (sons pré-gravados). Respeito muito, mas venho de uma escola em que quero ouvir o barulho, o grave, a porrada”, defende.
Origem e cura
A desigualdade e os problemas sociais brasileiros são temas recorrentes nas letras da carreira solo de Falcão e dos discos d’O Rappa. “Entre tantos remédios e injeções para a cura, existe a música. As pessoas estão precisando disso. É a mesma necessidade que tenho de cantar. Venho do subúrbio, minha família ainda mora lá. E hoje está pior do que quando saí. Quando vou visitá-los, volto canetando, desabafando. É tudo muito verdadeiro”.
Falcão nasceu e cresceu no Engenho Novo, na Zona Norte carioca. “Não é falar da favela por falar da favela. É se emocionar com as coisas, e as pessoas sentem isso. A minha voz é um instrumento para levar esperança. Não é flores. É guerra. São vários nãos, a minha vida foi sempre assim. Nunca ganhei a chancela do Leblon, foi sempre uma briga solitária”, diz.
Essa luta solitária teve desde o começo um escudeiro fiel: o violão, seu melhor amigo. “Comecei a aprender com revistinhas, e gostava de incorporar os cantores, tentava imitar Renato Russo, Djavan, Titãs, João Gilberto...”, relembra.
O cantor chegou a estudar violão flamenco, inspirado pelo ídolo Paco de Lucía (1947-2014). “Sempre tive o violão como amigo. Morava em um conjunto habitacional, no 4o andar. E a acústica era muito maneira, o som se espalhava pelos corredores. Eu tocava e via as pessoas abrindo as portas pelos andares para me ouvirem cantar, até lá embaixo. O violão sempre me deu acolhimento”, conta.
Logo depois, no início dos anos 90, começou a história d’O Rappa, com Falcão acompanhado de Marcelo Yuka (1965-2019), Xandão, Marcelo Lobato e Nelson Meireles, que saiu em 1994 para a entrada de Lauro Farias. E vieram sucessos como Anjos (Pra quem tem fé), Minha alma (A paz que eu não quero), Pescador de ilusões, Auto-reverse…
O Rappa vai voltar?
O grupo anunciou uma “pausa sem previsão de volta” em 2018. Sobre o futuro, Falcão deixa claro que o momento do retorno não é este. Mas virá. “Estamos felizes com o que a gente se propôs. Tenho compromissos, todo um planejamento. O Rappa será sempre o amor da minha vida, mas nesse momento tenho mais um disco para entregar”, adianta.
Em 2027 virá o terceiro disco solo do artista com a Virgin Music Group. O álbum terá participação de Alcione. “Depois de entregar esse disco, penso em ficar um tempo na Austrália, minha mulher tem cidadania e inglês fluente, quero que meu filho tenha também”, anuncia.
Mas a ideia do futuro retorno está clara. “É um clima meio Oasis, depois que o cantor entregou três discos, se sentiu confortável para voltar com a banda. Então, levemente falando, eu me vejo assim. Talvez leve menos tempo do que o Titãs (risos)”, brinca. Por enquanto, Falcão segue cuidando bem do seu próprio legado.
Marcelo Falcão em 5 discos e artistas
- Samba Esquema Novo (1963), de Jorge Ben Jor.
- Led Zeppelin IV (1971), de Led Zeppelin.
- “Sou apaixonado no Jack White, me amarro muito.”
- “Sobre discos, se eu não tenho todos, tenho quase todos do Fela Kuti (1938-1997).”
- “Sade também. Ela pode estar no tom mais alto, mas com delicadeza, aquela suavidade.”