Obra vencedora Prêmio Jabuti inspirou o enredo da Pérola Negra
Vencedora do Grupo de Acesso 2 em São Paulo, a escola levou o enredo Exu-Mulher, inspirado no livro de Claudia Alexandre, que ressalta o lado feminino de Exu

Quando iniciou sua carreira no jornalismo, Cláudia Alexandre, apaixonada pelo Carnaval, teve a oportunidade de cobrir a inauguração do Sambódromo do Anhembi, no início dos anos 1990.
Mais de duas décadas depois, a jornalista — agora doutora em Ciência da Religião e pós-doutoranda em Antropologia Social pela USP — tornou-se uma referência para as escolas de samba e, de certo modo, coautora de um dos enredos que atravessaram a avenida em 2025. Isso porque a pesquisadora, vencedora do Prêmio Jabuti Acadêmico em 2024, inspirou o samba-enredo da Pérola Negra, grande campeã do Grupo de Acesso 2 em São Paulo. A escola, aliás, foi a única a receber nota máxima pelo enredo entre suas concorrentes.

O tema foi Exu-Mulher, resultado do esforço de Cláudia para desmistificar visões enraizadas no Brasil sobre as religiões de matriz africana pré-diaspóricas, como o candomblé. Em especial, sobre uma das entidades mais complexas — e fascinantes — das tradições iorubás: Exu. Em sua pesquisa e no livro Exu-Mulher e o Matriarcado Nagô, a autora investiga como Exu foi demonizado e masculinizado ao longo do processo de colonização, apagando-se aspectos fundamentais da história dos candomblés.
A pesquisadora explica que Exu possui uma característica única entre as divindades: a dualidade entre o masculino e o feminino. “Foram os encontros dos exploradores e missionários no século XV-XVI, na África, que geraram narrativas deturpadas sobre os cultos em devoção a Exu. Narrativas que excluíram deliberadamente a presença da parte feminina e associaram o orixá ao demônio, sendo que a devoção a este elemento dinâmico estava relacionada às práticas de celebração da vida”, disse em entrevista à Bravo!.

Durante o desfile, um dos carros alegóricos exibiu uma imponente escultura da Mãe Negra, uma homenagem às mulheres que tiveram papel essencial na história do samba. A obra reverencia as matriarcas dos terreiros, as Tias Baianas e Paulistas, figuras centrais na preservação das tradições afro-brasileiras e na fundação das primeiras escolas de samba. Cláudia participou do desfile no segundo carro alegórico, ao lado de membros de terreiros de Umbanda e Candomblé, além da Velha Guarda da Pérola Negra. O desfile das campeãs, que inclui a Pérola Negra, acontece neste sábado, 8, a partir das 20h.
Conversamos com a autora, que explicou o fundamento de sua pesquisa e como ela foi adaptada para o samba-enredo. Cláudia também rebateu uma declaração recente do carnavalesco Paulo Barros, responsável pelo enredo da Unidos de Vila Isabel, do Rio de Janeiro. Barros afirmou que há um excesso de enredos com temáticas africanas e que boa parte do público não compreende o que está sendo apresentado na avenida.
“Quando eu pego para ver como vai ser a trama que uma escola vai contar sobre um Orixá, é uma confusão danada. Um apaixonado por fulano, tendo filho de ciclano. Filho de quem? Orixá de outro? É o que rege a cabeça de quem? Sinto muito, eu não assimilo. Eu sou brasileiro, então sou meio macumbeiro, meio católico, meio budista, tudo junto. Todo bom católico é um ótimo macumbeiro”, declarou o carnavalesco.
Cláudia, por sua vez, lembra que as escolas de samba são parte da africanidade no Brasil, uma ferramenta de comunicação, resistência e liberdade nascida em cativeiro. Além disso, destaca que o Carnaval tem o papel de contar narrativas apagadas da cultura nacional. “Quando ele afirma que é repetitivo e ninguém entende nada, ele generaliza e dá munição aos intolerantes. Está enganado, pois a escola de samba é escola. Tem a obrigação, ao escolher um tema, de explicar o enredo na avenida. Se explicar mal, não ganha o campeonato.”
Sua pesquisa aborda a masculinização e demonização de Exu na travessia atlântica. Como você enxerga o papel do carnaval, especialmente da Pérola Negra, na ressignificação dessa imagem e na reconstrução de narrativas sobre Exu-Mulher?
Foi uma surpresa incrível ter recebido a ligação, no ano passado, do carnavalesco Rodrigo Meiners pedindo autorização para adaptar minha tese de doutorado para o enredo da Pérola.
É um tema inédito no campo dos estudos afro-brasileiros e ainda um tabu na história dos candomblés que se organizaram no Brasil, no século XIX. Não se trata de ressignificação, mas sim de trazer mais uma consequência da violência que foi a escravização africana e as resistências pelo sagrado que resultou na formação das tradições afro-brasileiras. Exu-Mulher vem demonstrar que muito antes de ser inserido no sistema religioso brasileiro, Exu já havia sido masculinizado, pois em várias localidades de países como Nigéria e Benin, ele é representado em pares (masculino e feminino); e demonizado no processo violento da colonização por narrativas ocidentais, hegemônicas e judaico-cristãs.
Nada melhor que enredos afros para que o povo negro e o Brasil conheça e debate sobre as “histórias que a história não conta”, porque dificilmente irá para os livros escolares.
Acho importante o uso das linguagens da literatura para compor as narrativas da festa das escolas de samba. A escola de samba é resultado de estratégias de tecnologias negras, embora ao longo do tempo a espetacularização e a midiatização da festa tenha ocultado a verdadeira origem destas expressões culturais como sendo expressões afro-brasileiras.
Um dos papéis da escola de samba é amplificar as vozes dos marginalizados e suas visões sobre o cotidiano social e exaltar os valores ancestrais. Quando uma escola começa a buscar sua própria história para exaltar no carnaval e encontra as pesquisas acadêmicas produzidas sobre (e pelo) povo negro está ampliando formas de enriquecer seus enredos. Isso já tinha acontecido em 2024 com o livro Um Defeito de Cor, de Ana Maria Gonçalves, na Escola de Samba Portela (RJ). Em 2009, a Escola de Samba Vila Nova, em Santos, usou meu primeiro livro, “Na Fé de Vivaldo de Logunedé, um pouco do candomblé na Baixada Santista” (2006), para retratar a história do babalorixá Vivaldo, que faleceu em 2005.

A adaptação de sua pesquisa para o enredo da escola de samba exigiu um processo de síntese considerável. Como foi para você ver sua tese traduzida para a linguagem do carnaval e quais aspectos da narrativa mais te emocionaram na avenida?
Sim. Foi o que me preocupou por conta da complexidade do tema da pesquisa, que já tinha sido lançada em uma linguagem menos acadêmica em 2023, no livro Exu-Mulher e o Matriarcado Nagô (Editora Fundamentos de Axé), inclusive recebeu o Prêmio Jabuti Acadêmico 2024, o maior reconhecimento literário da categoria.
Mas o carnavalesco me apresentou a sinopse e foi incrível a compreensão que ele teve dos principais pontos, dos objetivos da tese. Eu brinco que a pesquisa teve quase 600 páginas, o livro 460 páginas e ele conseguiu sintetizar numa apresentação de 50 minutos. Eu tive a oportunidade de dar uma palestra sobre o tema para a comunidade e tirar dúvidas dos chefes de Alas e diretores da escola. O Rodrigo me apresentou o projeto do desfile, as alegorias. Eu não fiz nenhuma mudança. Ele é um carnavalesco experiente e conhecedor da religião afro-brasileira.
O que mais te emocionou no processo?
Foi a maneira como a comunidade abraçou o tema e me acolheu. Além disso, ver o pavilhão estampado com o símbolo Exu-Mulher me deixou extremamente emocionada. Há muito significado na bandeira de uma escola de samba. Meu primeiro contato com o casal de porta-bandeira e Mestre sala, girando o pavilhão do enredo, com certeza vou levar para toda a vida.

O desfile da Pérola Negra trouxe uma representação dramatizada da exclusão e do retorno de Exu-Mulher. Como essa encenação dialoga com as tensões de gênero que você analisa em sua pesquisa?
Sim, o ponto inicial desta dramatização na comissão de frente estava irretocável! Eles mostraram uma parte do livro onde eu apresento um dado mitológico, de que Olodumare (Senhor da Criação do povo iorubá) teria criado Exu como elemento dinâmico do sistema de crenças iorubá, com um poder não entregue a nenhum outro orixá, sendo o de portar os princípios masculino e feminino. Somente Exu pode ser feminino e masculino ao mesmo tempo. Só ele teria o poder de distribuir estes princípios em partes iguais para todos os seres viventes. Por esta razão, em cidades de culto a Exu, ele é sempre representado por estatuetas em pares, cada uma representando o homem e a mulher. Ele com o pênis e ela com seios e vagina, expostos e proeminentes.
Foram os encontros dos exploradores e missionários no século XV-XVI, em África, que gerou narrativas deturpadas sobre os cultos em devoção a Exu. Narrativas que excluíram deliberadamente a presença da parte feminina e a associação do orixá com o demônio, sendo que a devoção a este elemento dinâmico estava relacionado às práticas de celebração da vida, da procriação, fertilidade, prosperidade, fecundidade e continuidade do mundo. Assim eu afirmo ter ocorrido a masculinização e a demonização de Exu.

O crescente número de enredos sobre culturas e religiões de matriz africana no carnaval de 2025 indica uma valorização maior dessas narrativas. Você acredita que essa visibilidade pode impactar como Exu e outras entidades afro-brasileiras são compreendidas na sociedade?
Sim. É altamente positivo e está no papel da escola de samba, enquanto uma criação do povo negro e sua herança negro africana, de tradição oral, valorizar sua história e a conexão com a ancestralidade. A escola de samba é um espaço político, de memórias negras e de uma tradição que tem sido ameaçada pela crescente intolerância e o crescimento dos ataques às religiões de matrizes africanas.
Nenhum enredo que exalta as africanidades é ingênuo, nunca foi! Exu é a divindade que está no centro destes ataques e do racismo religioso. Mas também é o orixá que está relacionado à festa do carnaval das escolas de samba.
As escolas de samba na sua origem estão ligadas aos terreiros dos candomblés, umbandas e macumbas, porque nasceram sobre a proteção de muitos babalorixás e ialorixás. No terreiro, Exu é o orixá da precedência, o que dá movimento, axé e vem primeiro. Assim, ele é parte destas expressões do samba. Quando Exu e outros orixás são enredo no Carnaval, se reforça esta lógica e com certeza é um instrumento de luta contra a intolerância religiosa e a demonização das tradições de matrizes africanas.

O carnavalesco Paulo Barros afirmou recentemente que não gosta de trabalhar com temas africanos e que não tem obrigação de abordá-los. Como você vê essa posição dentro do contexto das escolas de samba?
Achei um desserviço à luta atual contra a intolerância religiosa e um desrespeito à cultura que o popularizou. Não é sobre o direito que ele tem de trabalhar, é propor enredos que se identifica, mas o discurso de desqualificação que ele usou. Quando ele afirma que é repetitivo e ninguém entende nada, ele generaliza e dá munição aos intolerantes. Está enganado, pois a escola de samba é escola. Tem como obrigação, ao escolher um tema, explicaram o enredo na avenida. Se explicar mal, não ganha o campeonato.
Cada enredo nos ensina muito sobre o que a história não ensina. Quantos Sambas enredos históricos revelaram fatos importantes. Exemplo é Xica da Silva, que foi enredo do Salgueiro em 1963, foi quando Cacá Diegues idealizou o filme e popularizou essa personagem brasileira, uma mulher negra revolucionária. Recentemente, 2022, a Grande Rio, levou pela primeira vez Exu como enredo e se sagrou campeã. Tenha certeza que ficou muito mais fácil compreender que Exu não é o diabo cristão.
Por outro lado, Paulo Barros no Carnaval de 2022 preparou para a Tuiuti o enredo “Ka Ríba Tí Ye – Que nossos caminhos se abram” que foi o primeiro enredo afro de sua carreira e ele não se deu bem, ficando em 11º lugar.

Ele também mencionou que “todo bom católico é um ótimo macumbeiro”. Como você interpreta essa afirmação no contexto das relações entre religião e cultura no Brasil?
Acho que só um “bom católico” pode responder essa pergunta. Eu sempre fui das religiões afro-brasileiras. Há estudos que mostram que não existe pureza em nenhuma tradição religiosa no Brasil, que apesar de ter sua sociedade formada sobre a hegemonia da Igreja Católica, sempre recebeu forte influência dos sistemas indígenas e africanos, além das europeias. Não existe nenhum país do mundo onde tantas denominações convivam num mesmo campo religioso como no Brasil, apesar dos conflitos e misturas.
Você acredita que há falta de compreensão sobre os enredos afros por parte do público, como ele sugere?
Acho que enredos são pedagógicos também. Além disso, não à toa os desfiles são julgados em quesitos que exigem que jurados compreendam os enredos e a comunidade demonstre que está totalmente inteirada do que está apresentando. Exemplo quesito enredo, samba-enredo, alegoria, harmonia, evolução… ou está bem explicado, ou não terá nota máxima, independente do tema. Por isso, me admira um carnavalesco dizer sobre repetição, quando a criatividade e ineditismo é obrigatório nos enredos, mesmo em temas conhecidos e já abordados. E ainda dizer que ninguém entende nada… a quem será que ele se referiu?

Como enredos de matriz africana impactam o Carnaval e sua representatividade cultural? Qual a importância de preservar e transmitir narrativas afro-brasileiras na avenida?
A escola de samba enquanto criação do povo negro é parte das africanidades no Brasil. É lugar de contar a própria história, valorizar as heranças, memórias, personagens num país onde o racismo é estrutural, porque a formação social está ainda ligada a um processo histórico da escravização negra mais longa das Américas. Mesmo assim somos um país de maioria negra (pretos e pardos) onde a desigualdade racial ainda é vergonhosa, assim como a apropriação das expressões afro-brasileiras. É importante que estes temas estejam no centro da festa do carnaval pelo alcance e apelo popular. É pedagógico e certamente contribui para a melhoria nas relações étnico-raciais.
Há alguma informação adicional que gostaria de acrescentar?
Comecei minha carreira no final dos anos 1980, cobrindo desfiles de escolas de samba. Minha primeira grande reportagem foi a inauguração do Sambódromo do Anhembi, nunca imaginei que um dia desfilaria em um carro alegórico por inspirar um enredo, que seria campeão.
O livro Exu-Mulher foi vencedor do Prêmio Jabuti Acadêmico 2024 e o próximo projeto é adaptação do livro para o público infantojuvenil (já recebi convite de uma editora) e um musical, que já está em negociação.
Exu-Mulher também aborda sobre a questão das mulheres de terreiro, quando fala do matriarcado nagô, pois as mulheres negras foram atingidas diretamente pela demonização de Exu e até hoje são as mais atingidas pelo racismo religioso.