Fernanda Torres: “Voltar aos palcos, depois da volta ao mundo, é como voltar para casa”
Atriz carioca retorna com a peça 'A Casa dos Budas Ditosos' em São Paulo e tem plano de ir para outras cidades do país
Fernanda Torres volta aos palcos com A Casa dos Budas Ditosos neste feriado e fim de semana. Após rodar o mundo com Ainda Estou Aqui, de Walter Salles, uma multidão de fãs compareceu em peso às bilheterias para garantir a oportunidade de ver a peça emblemática na carreira da artista. Os ingressos estão esgotados para sábado (6) e restam poucos para quinta-feira (4) e domingo (7).
A obra, adaptada de um romance de João Ubaldo Ribeiro, apresenta uma senhora baiana, de 68 anos, que narra suas memórias sexuais e visões libertinas sobre a vida e o corpo, sem qualquer pudor ou censura. Residente do Rio de Janeiro, a narradora é chamada de CLB.
“Ainda não cheguei na idade dela, sinto que me aproximo da CLB a cada retorno da peça”, conta a atriz, em entrevista por e-mail. Ela conta que a reação dos fãs com o anúncio do retorno foi de “imensa alegria”. “Muita gente que não viu quer rever. Tem muita gente que nem era nascida ou que era menor de idade. Os Budas é uma festa.”
Retornar aos palcos depois de ganhar um Globo de Ouro pelo papel de Eunice Paiva no longa de Walter Salles, vencedor do Oscar, traz uma sensação especial. “Meu sentimento é o d’O Retorno da Velha Senhora (obra de 1955 do dramaturgo suíço Friedrich Dürrenmatt). Voltar a pisar num palco, com a minha baiana, depois da volta ao mundo com o Ainda Estou Aqui, é como voltar para casa. São experiências muito diferentes”, relata Fernanda.
A atriz lançou a adaptação teatral, aclamada pela crítica, em 2004. O monólogo em primeira pessoa tem direção do dramaturgo Domingos de Oliveira. Para a nova edição, promete seguir fiel à essência criada pelo diretor e pelo escritor, com pequenos ajustes.
“Os Budas é uma obra fechada, uma parceria com o Domingos e o Ubaldo que eu levo pela vida”, afirma. “Já fiz ajustes finos e, até hoje, descubro entonações, ironias, dramas, no meu lado da partitura da peça. Eu vejo Os Budas como música mesmo, é como se eu voltasse a tocar uma peça de câmara que sempre volta a me impressionar. Você não se cansa de uma ópera, pelo contrário, você espera o agudo, o dó de peito.”
As mudanças são acompanhadas pelas transformações que vêm com o tempo, tanto da sociedade quanto da própria atriz, que relata se sentir mais segura. “O melhor é atingir um estado de calma, de tranquilidade em cena. Quando comecei, eu tinha ansiedade, medo de que o público não viesse comigo. Atualmente, faço sem esforço, sem insegurança, com um imenso prazer no tempo presente.” Na visão de Fernanda, o mundo mudou e ficou mais conservador desde a estreia, há mais de 20 anos.
Para ela, trata-se de uma obra sobre a moral. “O Ubaldo escreveu o livro porque ele acreditava que a luxúria não era uma obra do demônio, mas de Deus. Ele compara o sexo a um ato de bondade, a uma iluminação divina, e isso era muito caro ao Ubaldo. Os Budas não é um texto ‘pra frentex’, sobre a liberdade sexual, ele dialoga com algo muito arcaico, sobre o fundamento da sexualidade.”
O plano da artista é aproveitar o momento e fazer uma turnê pelo Brasil. Recife, Salvador e Porto Alegre são cidades que estão no radar. “Minha vida, nos últimos dois anos, foi cheia de surpresas, está difícil fechar datas com antecedência e uma turnê pelo Brasil exige tempo e planejamento.”
O sentimento é de tremenda felicidade pelo retorno. “Os Budas é engraçadíssimo e profundíssimo, é inteligentíssimo e chulíssimo, para usar as hipérboles do Ubaldo. É romântico e pornográfico, é a reunião da sensibilidade do Domingos com a imaginação delirante, baiana, do Ubaldo.”