Carnaval em casa: os melhores lançamentos de fevereiro para ler no feriado
Para quem escolhe o aconchego de casa e o silêncio, a literatura surge como uma das melhores companhias para atravessar esses dias de descanso
Nem todos se identificam com o agito e o caos do Carnaval. Há quem prefira a reclusão, o sossego e a distância do barulho das ruas e das multidões. Para quem escolhe o aconchego de casa e o silêncio, a literatura surge como uma das melhores companhias para atravessar o feriado. Pensando nesse público fiel ao aconchego e à leitura, reunimos alguns dos principais lançamentos do fim de janeiro e de fevereiro, com boas histórias, personagens e temas densos e aquele toque de drama que marca a melhor produção da literatura contemporânea.
Garota sobre garota: Como a cultura pop colocou uma geração de mulheres contra si mesma (Todavia, 2026), de Sophie Gilbert
Sophie Gilbert investiga como a cultura pop do início do século XXI apropriou e esvaziou pautas feministas, transformando discursos de empoderamento em mercadoria. A partir de referências como revistas, videoclipes, reality shows e filmes dos anos 2000, a autora analisa como a indústria do entretenimento incentivou a rivalidade entre mulheres, intensificou a sexualização e associou poder feminino ao apelo sexual. O ensaio propõe uma leitura crítica desse período e convida o público a repensar a maneira como consome produtos culturais que moldam comportamentos e visões de mundo.
Uma história da literatura brasileira contemporânea – a narrativa (Todavia, 2026), Regina Dalcastagnè
O livro traça um panorama crítico e abrangente da ficção produzida no Brasil nas últimas décadas. A partir da análise de centenas de obras, a autora evita classificações rígidas para destacar a diversidade de vozes, temas e formas narrativas, relacionando os textos ao contexto histórico e social do país, marcado pela modernização e pela intensificação da urbanização. Resultado de anos de pesquisa, o livro propõe uma renovação da historiografia literária brasileira e oferece uma leitura acessível e consistente da produção contemporânea.
10 melhores livros brasileiros segundo a BRAVO!
Três cães selvagens (e a verdade) (Intrínseca, 2026), Markus Zusak,
O autor de A menina que roubava livros estreia na não ficção ao narrar as transformações provocadas pela chegada de três cães resgatados à sua família. Reuben, Archer e Frosty — cada um com temperamento imprevisível e indomável — viram a rotina de cabeça para baixo, acumulando confusões, brigas, acidentes e situações tão caóticas quanto cômicas. Entre idas ao hospital, visitas ao veterinário e constrangimentos públicos, o livro combina humor e emoção para refletir sobre afeto, convivência e os laços familiares, em uma memória pessoal que funciona também como uma declaração de amor aos animais.
O supercatastrófico passeio ao zoológico (Intrínseca, 2026), Joël Dicker
O autor constrói uma aventura investigativa protagonizada por Joséphine e um grupo de crianças atípicas que, após uma inundação suspeita interditar sua escola, são transferidas para outra instituição. Inconformados com a mudança, eles decidem descobrir quem está por trás do incidente. Com a ajuda da avó de um dos colegas, passam a reunir pistas, levantar suspeitos e testar hipóteses, mas a apuração é atravessada por uma sequência de desventuras cômicas que fogem do controle. Entre mistério e humor, a trama culmina em um episódio caótico durante uma excursão ao zoológico, enquanto o autor aborda temas como democracia, liberdade e diversidade para leitores de diferentes idades.
A solidão das aranhas (Companhia das Letras, 2026), Diogo Bercito
O escritor narra a volta de Gabriel à cidade natal após a morte dos pais. Diante da casa em ruínas e da paisagem tomada pela mata e por pequenos animais, ele cruza o caminho de Domingos, um jovem cientista que percorre o interior coletando diferentes espécies de aranhas enquanto também lida com perdas recentes. A aproximação entre os dois nasce desse luto compartilhado e se transforma em afeto, à medida que exploram o sítio e buscam respostas na natureza que os cerca.
Ilhas suspensas (Companhia das Letras, 2026), Fabiane Secches
Fabiane Secches estreia no romance mesclando ensaio e ficção para explorar temas como maternidade, luto, deslocamento e pertencimento. A protagonista, Mariana, enfrenta uma sucessão de perdas — a morte da mãe, tentativas frustradas de fertilização in vitro e a mudança para outro país, onde se vê afastada da própria língua —, experiências que a conduzem a um quadro depressivo e a um sentimento de isolamento. Enquanto tenta se adaptar ao novo ambiente, ao clima e à rotina do marido, ela encontra refúgio nos livros, na escrita de sua tese sobre a presença de animais na literatura e na companhia do cachorro, Quincas. Entre citações, leituras e reflexões, a literatura surge como espaço de acolhimento, ao lado do vínculo criado com outras mulheres imigrantes, que apontam para a possibilidade de reconstrução.
6 livros infantis clássicos que você precisa ter em casa
O ano do cometa (Fósforo, 2026), Maria Brant
Em 1986, enquanto o mundo aguarda a passagem do cometa Halley e o Brasil atravessa a redemocratização após duas décadas de ditadura, três meninas tentam compreender perdas íntimas e silêncios familiares. Ao longo de um ano, Íris, Rosa e Violeta observam o luto por diferentes ângulos: a morte de um tio, o sentimento de deslocamento, o retorno de um exílio invisível e as perguntas sem resposta que atravessam a infância. Ao revisitar esse período, Maria Brant transforma a crônica familiar em uma reflexão delicada sobre ausência, crescimento e a capacidade infantil de resistir e reinventar o mundo.
Enquanto você está aqui (Fósforo, 2026), de Camila Appel
Misturando investigação jornalística, memória pessoal e reflexão íntima, a obra enfrenta uma pergunta evitada por muitas famílias: como falar sobre a morte antes que seja tarde demais? Impulsionada pelo desejo de conversar com a própria mãe sobre envelhecimento e finitude, a autora transforma sua pesquisa iniciada no blog Morte sem Tabu em um ensaio sensível e direto sobre o tema. Ao reunir depoimentos de médicos, pacientes, ativistas e familiares, além de propor um questionário prático para orientar decisões sobre rituais e despedidas, o livro convida o leitor a encarar a morte como um gesto de cuidado e, ao aceitá-la, viver com mais presença e consciência.
Faltas (DBA Literatura, 2026), Cecilia Gentili
Em Faltas, Cecilia Gentili transforma memórias de infância e adolescência em cartas dirigidas a pessoas de seu passado, revisitanto a pequena cidade argentina onde cresceu para confrontar violências, silêncios e afetos que marcaram sua formação. Entre raiva, ironia, ternura e desejo de reparação, a autora reflete sobre o que significa tornar-se uma mulher trans em um ambiente hostil e reivindica o direito básico de existir e ser amada. Misturando confissão, denúncia e compaixão, o livro constrói um testemunho íntimo e político sobre identidade, sobrevivência e resistência.
O olhar e a cena (COSAC, 2026), Ismail Xavier
O livro investiga como o cinema constrói historicamente a experiência de ver e ser visto, analisando a formação da “cena” como imagem do mundo e o papel do espectador diante do espetáculo. Em diálogo com o teatro, a literatura, o melodrama e o drama burguês, o autor percorre das formas clássicas de Hollywood às rupturas do cinema moderno e brasileiro, examinando cineastas, gêneros populares e a teleficção. Com destaque para o encontro entre o Cinema Novo e Nelson Rodrigues, o livro revela o melodrama como chave cultural para compreender conflitos sociais e afetivos, propondo uma reflexão crítica sobre as políticas da representação e a centralidade das imagens na vida contemporânea.
O Castelo de Vidro (Rocco, 2026), de Stephen P. Kiernan
Ambientado na França logo após a Segunda Guerra Mundial, O Castelo de Vidro, de Stephen P. Kiernan, acompanha Asher, um judeu que perdeu a família no conflito e vaga pelo país em ruínas até encontrar abrigo em um castelo convertido em ateliê de restauração. Ao lado de outros sobreviventes, ele aprende o ofício dos vitrais e passa a reconstruir catedrais bombardeadas, transformando a areia em luz e cor. Inspirado na trajetória de Marc Chagall, o romance entrelaça arte, memória e luto para mostrar como a criação estética pode ajudar a curar feridas individuais e coletivas, tornando-se símbolo de esperança na reconstrução de um país devastado.