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Como Daniel Kondo constrói um cancioneiro visual brasileiro em seus livros

Em parcerias com artistas como Gilberto Gil e Djavan, ilustrador propõe um novo gênero: “Cada compositor obriga você a esquecer o livro anterior”

Por Ramon Nunes Mello 15 out 2026, 11h58
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Livro de Daniel Kondo (Nelson Konlow/divulgação)
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O leitor segura Açaí e Seca (WMF, 2024) nas mãos e hesita por um instante. Há uma capa de um lado. Outra do lado oposto. Não existe verso. Há dois percursos de leitura que revelam muito sobre aquilo que Kondo entende por livro. O gesto de escolher por qual lado iniciar a leitura deixa de ser uma decisão prática para transformar-se em parte da própria obra: uma experiência de leitura. Realizado em parceria com Djavan – vencedor do Prêmio BTG Pactual da Música Brasileira de 2026 –, o livro nasce da percepção do compositor de que as duas canções formam uma espécie de espelho. O leitor não observa uma interpretação visual da Música; ele a percorre.

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O ilustrador Daniel Kondo (Jess Nolte/divulgação)

Esse livro-objeto – híbrido de literatura e artes visuais, onde a materialidade e o design contam a história tanto quanto as palavras – resume aquilo que Daniel Kondo vem construindo ao longo de mais de uma década: um cancioneiro visual brasileiro. Nesse gesto aparentemente simples, que revela a singularidade de seu trabalho, reside uma das características mais marcantes da obra do artista. Ao longo de mais de uma década, Kondo vem construindo um conjunto de livros que desafia as fronteiras entre literatura, artes visuais e edição. Em vez de utilizar a imagem para comentar uma canção, ele procura criar outro campo de experiência, no qual desenho, tipografa, papel, formato, encadernação e projeto gráfico participam da produção de sentido com a mesma intensidade das palavras.

Kondo parece interessado em construir outro arquivo possível: um repertório de livros capazes de transformar canções em objetos de leitura.

“O traço do Daniel Kondo opera uma espécie de reencarnação estética nas minhas canções.”

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Gilberto Gil

“O projeto gráfico não vem depois da leitura da música. Ele é a própria leitura. A canção já nasce da convivência entre dois sistemas de linguagem: a palavra e a música. Meu trabalho começa nessa tensão. Em alguns momentos, a imagem surge de um verso; em outros, do ritmo, da harmonia ou da maneira como determinada canção ocupa o tempo. Não procuro ilustrar a letra nem representar a música. O que me interessa é construir uma terceira leitura. Encontrar as cores de um compositor é, para mim, uma maneira de encontrar seu timbre”, afirma Kondo.

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‘Nós, a Gente’, em parceria com Gilberto Gil (Nelson Konlow/divulgação)
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A explicação sintetiza um método de trabalho que se consolidou ao longo de diferentes parcerias. Para ele, a música pertence ao tempo; o livro pertence ao espaço. Enquanto a canção acontece de maneira contínua, conduzindo o ouvinte do primeiro ao último acorde, o objeto editorial oferece outra experiência temporal. O leitor pode interromper o percurso, voltar algumas páginas, permanecer longamente diante de uma imagem ou descobrir relações que jamais apareceriam durante uma audição linear.

A marca de seu trabalho está justamente na busca da construção de um vocabulário visual próprio, por uma precisão cromática e formal para cada compositor, de descobrir qual linguagem visual cada obra parece pedir. O cancioneiro visual de Daniel Kondo aproxima-se da tradição do livre d’artiste, na qual escritores e artistas plásticos produzem uma terceira obra a partir do encontro entre palavra e imagem. Por exemplo, o artista André Derain realizou esse gesto ao lado do escritor Guillaume Apollinaire em L’Enchanteur Pourrissant. Kondo, contudo, desloca essa tradição para outros territórios, a música e a literatura.

“Não existe uma fórmula. Cada compositor obriga você a esquecer o livro anterior.”

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Daniel Kondo

Cada livro torna-se uma leitura visual de um compositor, em que desenho, cor, tipografia, projeto gráfico e objeto editorial funcionam como uma interpretação crítica da própria canção. A forma, a cor e o próprio livro interpretam a canção da mesma maneira que um ensaio interpreta uma obra literária. Através dessa intersecção de linguagens, cada compositor passa a revelar um repertório visual próprio, que vai muito além do que está explicitamente dito.

“Leio biografas, assisto a entrevistas, procuro manuscritos, fotografias, apresentações históricas, acompanho diferentes momentos de sua produção. Depois vem uma fase de escuta intensa, vivo cercado por aquelas canções. Ouço discos, gravações ao vivo, regravações e versões até que um certo imaginário começa a se formar. Tenho muita vontade de ampliar esse cancioneiro com outros compositores fundamentais, especialmente Caetano Veloso, Chico e Cazuza…”, revela.

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Duas capas de livros sobre Djavan e Daniel Kondo, uma marrom com listras diagonais e outra azul com círculos concêntricos em laranja e verde, sobre um fundo vermelho
‘Açaí’ e ‘Seca’, com Djavan (Divulgação/divulgação)

Conheça a trajetória de Daniel Kondo

O artista é um legítimo gaúcho com orgulho da sua herança oriental. Nascido em Passo Fundo, no Rio Grande do Sul, é descendente de imigrantes japoneses, uma fusão cultural que moldou profundamente a sua identidade e o seu universo criativo. Desde 2015 radicado em Punta del Este, no Uruguai, Kondo traduz estas raízes numa estética pop minimalista, onde a precisão técnica oriental se encontra com a vivacidade das narrativas brasileiras, marcando sua trajetória pela fusão inventiva entre design gráfico, poesia e narrativa visual.

É casado há vinte anos com a designer Adriana Fernandes, sua principal parceira de trabalho, com quem desenvolve projetos criativos na literatura e partilha a vida, e eles são pais de Julia, de 14 anos. “Daniel é um workaholic, obstinado pelo trabalho. Ele é uma fábrica de ideias, tudo se reverte para a criação artística. Um profissional apaixonado por pesquisar referências, tem uma mente de artista inquieto”, relata Adriana, que assina junto com o parceiro inúmeros projetos, entre eles, a capa, projeto gráfico e edição de arte do boxe com a obra de Cazuza, Meu Lance É Poesia e Protegi Teu Nome por Amor — fotobiografa (WMF, 2024). Kondo possui uma formação essencialmente prática e autodidata nas artes visuais, construída diretamente no mercado de trabalho e nas redações. O artista desenvolveu sua sensibilidade ainda na infância, folheando as enciclopédias no escritório de seu pai.

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“Daniel Kondo criou um gênero”

O professor, linguista e tradutor Caetano Galindo acredita que a originalidade da obra do artista consiste em criar uma nova obra a partir das canções. Seus livros funcionam como uma tradução entre linguagens, na qual a imagem conquista autonomia sem romper o diálogo com a música. “É importante registrar o que existe de inovador, o Daniel Kondo criou um gênero, uma forma de fazer livros. Ele encontra o maior patrimônio brasileiro do século XX, nossa grande canção popular, e transforma em grandes obras visuais literárias. Ele passa a ser coautor das obras, produzindo versões que independem da música. É uma síntese maravilhosa entre memória, patrimônio e inovação. Ele traduz as canções em imagens, produz uma espécie de poesia visual”, analisa Galindo.

Essa distinção é decisiva. Historicamente, boa parte da ilustração editorial foi compreendida como uma arte subordinada ao texto. A imagem explicava, ornamentava ou reforçava aquilo que já estava escrito. Nos livros de Kondo acontece o contrário. O desenho não confirma o sentido da canção; ele o amplia. A página passa a dizer aquilo que a música apenas sugeria. O que está em jogo é uma operação mais complexa: uma transcriação, para usar um termo caro à tradição concretista brasileira. A canção muda de linguagem sem perder sua identidade. Continua sendo a mesma obra, mas passa a respirar em outro corpo.

Kondo, Lulu Santos e Gilberto Gil

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Livro em parceria com Lulu Santos (Divulgação/divulgação)

Essa lógica torna-se particularmente evidente em Lulu — Traço e Verso (Jubarte Editora, 2021). Se Djavan levou Kondo à investigação das formas geométricas e da materialidade do livro, Lulu Santos o conduziu ao universo da cultura pop. Antes de desenhar qualquer página, Daniel mergulhou nas referências visuais que atravessaram os anos 1980: Roy Lichtenstein, Andy Warhol, o design gráfico da época, os videoclipes, as revistas, a explosão cromática da pop art.

O resultado é um projeto marcado por cores saturadas, contrastes intensos, linhas precisas e uma capa espelhada que transforma o próprio leitor em parte da composição. Quem segura o livro compreende que a solução gráfica dialoga profundamente com a própria trajetória de Lulu Santos: o trânsito entre o pop internacional, a tradição da canção brasileira, o rock, a eletrônica e a cultura urbana. Lulu — Traço e Verso procura recriar uma atmosfera cultural, representando um tempo histórico, uma sensibilidade estética e uma maneira específca de ocupar a cidade.

Quando perguntei a Kondo se havia um procedimento comum a todos os seus livros, sua resposta surpreendeu pela simplicidade: “Não existe uma fórmula. Cada compositor obriga você a esquecer o livro anterior”. A afirmação ajuda a compreender por que sua produção nunca se organiza em torno de uma identidade visual fixa. Sua assinatura não está na repetição de um traço, mas na capacidade de inventar uma linguagem adequada a cada universo musical.

A recusa em transformar estilo em fórmula talvez explique por que seus livros conservam frescor mesmo quando abordam canções amplamente conhecidas. Kondo trabalha como um leitor radical. Em vez de perguntar “Como desenhar esta música?”, ele formula outra questão: “O que esta música faz com o espaço de um livro?” Essa mudança de perspectiva desloca completamente o papel do projeto gráfico: o livro passa a ser pensamento. É nesse ponto que Kondo aproxima design, literatura e artes visuais de maneira rara no cenário editorial brasileiro. Sua obra demonstra que o projeto gráfico não vem depois da interpretação; ele constitui a própria interpretação.

Tal percepção prepara o leitor para compreender aquela que talvez seja a colaboração mais profunda de sua trajetória: o longo diálogo construído ao lado de Gilberto Gil. Em Andar com Fé (WMF, 2023), a exuberância cromática cede lugar a uma linguagem mais sintética. A paleta torna-se contida. A geometria assume protagonismo. Formas elementares passam a organizar a página como se o livro procurasse reencontrar uma gramática visual capaz de reunir referências muito distintas: a arte africana, Rubem Valentim, Mestre Didi, o construtivismo soviético, o modernismo brasileiro e a própria tradição tropicalista. “Foi uma tentativa de construir visualmente as mesmas travessias que existem na obra do Gil entre África, Brasil, tradição, modernidade, espiritualidade e invenção. Em certo sentido, eu estava tropicalizando o tropicalista”, resume Daniel.

A obra de Gil foi ganhando uma presença cada vez mais ampla no percurso do artista, com as canções Andar com Fé, Refazenda, Reforesta, Sítio do Picapau Amarelo, Sol de Maria e Cérebro Eletrônico. Os trabalhos nasceram em conjunto, revelando uma pesquisa contínua sobre as relações entre canção, imagem, cor, memória cultural e forma editorial. Se a música de Gil aproxima universos aparentemente distantes, o projeto gráfico precisa produzir esse mesmo movimento. Em suas mãos, a geometria deixa de ser apenas forma. Transforma-se em pensamento.

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Capa de ‘Refazenda’ (Divulgação/divulgação)

A pesquisa amadurece em Nós, a Gente (WMF, 2023), obra em que o rigor construtivo permanece, mas convive com outra dimensão da obra de Gil: a intimidade. As canções dedicadas a Nara, Flora, Bela e Pedro transformam o livro num retrato afetivo de uma família. A ancestralidade continua presente, mas é atravessada por gestos cotidianos, memórias domésticas e relações de cuidado. Kondo percebe que o universo de Gil não é composto apenas de conceitos flosóficos ou grandes temas políticos; ele também nasce da delicadeza dos vínculos.

A parceria começou por iniciativa de Flora Gil, que conheceu o trabalho do artista numa postagem nas redes sociais de Lulu Santos. Encantada pela síntese gráfica e pela potência cromática dos desenhos de Kondo, ela o convidou inicialmente para criar a identidade visual da turnê Nós, a Gente (2022). “Eu me apaixonei pela obra do Daniel. Eu e o Gil gostamos muito do trabalho dele. A parceria começou com a identidade visual do show familiar e, por sugestão do próprio Daniel, se transformou em livros ilustrados inspirados nas canções. Foi quando percebemos que estávamos diante de um artista capaz de reinterpretar a obra do Gil com uma linguagem própria”, afrma Flora.

Dois livros Refloresta de Gilberto Gil e Daniel Kondo, com capa azul, amarela e branca, ilustrada com pássaros vermelhos voando sobre um rio
Capa de ‘Refloresta’ (Divulgação/divulgação)

Os livros Refazenda e Refloresta (Elo Editora, 2025) expandem essa pesquisa. O último acaba de ser escolhido para o catálogo anual The White Ravens 2026, da International Youth Library, de Munique, dedicada às melhores produções literárias infantis e juvenis do mundo. Já não se trata apenas de traduzir um cancioneiro; trata-se de pensar a relação entre natureza, política e regeneração. Em Refazenda, a ideia de refazer aponta para uma reconstrução da relação entre humanidade e terra. Em Refloresta, a urgência ambiental aparece inseparável da possibilidade de renascimento. É nesse momento que a obra de Kondo ultrapassa os projetos individuais e revela um programa estético consistente.

Para o editor Alexandre Martins Fontes, responsável por acolher a parceria ilustre entre canção e imagem em sua editora, os livros de Kondo aproximam-se de experiências em que palavra, imagem, projeto gráfico e materialidade deixam de atuar separadamente para constituir uma única obra. “Com uma obra premiada e reconhecida internacionalmente, Daniel Kondo é um dos mais importantes artistas visuais em atividade no Brasil. Ninguém melhor do que ele para traduzir visualmente — com inteligência, sutileza e requinte — a infinita riqueza do universo poético de Gil. Por isso, Andar com Fé e Nós, a Gente são muito mais do que edições ilustradas. Aproximam-se do que chamamos de livros de artista: obras em que o livro deixa de ser apenas suporte para textos e imagens e passa a ser, ele próprio, a obra de arte”, afirma Martins Fontes.

O que diz Gil

“O traço do Daniel Kondo opera uma espécie de reencarnação estética nas minhas canções. Ele tem a rara sensibilidade de tocar temas complexos, como fez em Não Tenho Medo da Morte, e, ao mesmo tempo, captar a espiritualidade e a leveza que atravessam minhas letras. Essa parceria é um sopro que dá pernas novas à música, permitindo que a canção mude de formato e continue sua caminhada pelo mundo. Em Refloresta, nossa colaboração converteu o clamor urgente pela regeneração ambiental em pura geometria, cadência e cor”, elogia Gilberto Gil.

A imagem é precisa. Em vez de ilustrar uma música, Kondo lhe oferece outro corpo. É aí que surge uma questão que atravessa toda a sua produção: afinal, é preciso conhecer previamente essas canções para compreender seus livros? Talvez não. Talvez aconteça exatamente o contrário. Talvez o livro produza uma experiência autônoma, capaz de conduzir novos leitores de volta à música.

O poeta, tradutor e crítico Guilherme Gontijo Flores identifca nessa operação algo que ultrapassa o campo da ilustração. “O que encontramos na obra é uma tradução poética. A imagem não repete aquilo que o texto já diz; revela aquilo que ainda não estava visível. É um pensamento artístico que considera o livro inteiro como linguagem.” Para Augusto Massi, poeta, crítico e um dos mais atentos estudiosos da história do livro no Brasil, os projetos de Kondo escapam às classificações habituais. Não são apenas livros ilustrados. Tampouco podem ser reduzidos ao campo do design gráfico. “Ao longo do tempo, tenho acompanhado o crescimento de Daniel Kondo como um artista inquieto e moderno que busca, através de seus livros, uma nova linguagem na literatura, reunindo a experiência de ilustrador, designer, colorista e autor. Em seu cancioneiro, o trabalho revela-se através da pesquisa e da experimentação da linguagem, um diálogo bem-sucedido entre canção e imagem. Ele tornou-se um coautor junto aos parceiros de seus livros. Tanto nos livros com Gilberto Gil e Lulu Santos como nos livros Monstros do Cinema (Sesi-SP Editora, 2016) e Eletricista (Elo Editora, 2025) – narrativas verbovisuais que realizamos juntos”, afirma Massi.

É por tudo isso que a expressão “cancioneiro visual brasileiro” não funciona apenas como metáfora. Livro após livro, Kondo documenta e constrói um arquivo afetivo e estético da música popular brasileira. Sua sensibilidade faz a música transcender e respirar no corpo-livro.

Publicado em BRAVO! de agosto de 2026, edição nº 193.

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