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No teatro, Silvero Pereira reflete sobre as memórias da violência

“Pequeno Monstro”, espetáculo escrito por Silvero, reflete sobre a discriminação e as agressões sofridas por crianças LGBTQIAPN+

Por Humberto Maruchel
Atualizado em 20 jun 2024, 17h37 - Publicado em 20 jun 2024, 09h00

“Essa não é uma peça de militância ou manifesto, é uma peça sobre a sociedade”, defende o ator Silvero Pereira. Há duas semanas, ele estreou o espetáculo mais íntimo de sua carreira, “Pequeno Monstro”, em cartaz no Teatro Poeira (RJ). O texto, criado por Silvero, entrelaça relatos pessoais com histórias de outras pessoas, todas ligadas por um ponto comum: a violência sofrida por pessoas LGBTQIAPN+ na infância.

Silvero relembra inúmeras violências, incluindo um estupro que sofreu aos 7 anos. Ele explica que não se trata de um expurgo íntimo: “Hoje, não tenho mais nenhuma questão com relação às minhas violências. Sou uma pessoa que se considera solucionada dentro da terapia e de todos os processos de reestruturação pelos quais passei. Mas me coloco também como artista e membro da sociedade.”

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Infância (Silvero Pereira/arquivo pessoal)

Para construir o espetáculo, Silvero convidou Andreia Pires, amiga de longa data com quem estudou Artes Cênicas no Instituto Federal do Ceará. “O teatro nos conecta. Vinte anos depois, temos a chance de nos reconectar. Andreia é uma das maiores diretoras de teatro da produção cearense. Ela é uma coreógrafa, diretora e dramaturga fenomenal.” Para Silvero, essa também é uma oportunidade de trazer mais visibilidade para a diretora.

O nome da peça vem de um conto de Caio Fernando Abreu, “Pequeno Monstro”, em que um jovem na praia se sente um monstro ao lado do primo, considerado mais bonito, por não se encaixar nos padrões de beleza, sendo uma criança LGBT+.

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sala de ensaio (Silvero Pereira/arquivo pessoal)

Embora o tema seja pessoal, Silvero garante que a peça não busca reparar o passado, mas refletir sobre uma enfermidade social. “A violência imposta pelo adulto durante a infância constrói os traumas de outro adulto. Continuaremos construindo uma sociedade doente se não cuidarmos das crianças e das violências que sofrem hoje, sejam físicas ou verbais.”

Além da peça, Silvero está envolvido em outros grandes projetos: um filme com Fernando Meirelles, “O Maníaco do Parque”, e um EP com músicas de Belchior. A música tem sido uma linguagem importante em sua trajetória. “Nos últimos anos, tenho dito que sou um ator que canta. Estudei música e ganhei o The Masked Singer Brasil, usando todos os meus artifícios. Não fui o melhor cantor da competição, mas usei tudo o que tinha para dar conta.”

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(Tainá Cavalcanti/divulgação)

Bravo! conversou com o ator sobre sua nova peça e seus projetos mais recentes. Confira o papo na íntegra abaixo:

Silvero, sabemos que a peça reflete uma violência pessoal que você sofreu quando ainda era criança. Não posso deixar de perguntar, quando você conseguiu falar sobre esse trauma? E o que te levou a tratar dessa questão num espetáculo teatral?

Nos últimos sete anos, eu decidi voltar para entender melhor sobre a minha ancestralidade, sobre a história da minha família. O ponto de partida foi esse. Eu queria entender quem são as pessoas que compõem essa família. Então, fui descobrindo as minhas duas avós indígenas. Uma avó que vem do Cariri, no Ceará, e outra de Manaus. Ambas chegaram ao sertão central. Uma se casou com um homem preto retinto. Quando eu era criança, nem fazia ideia de que eu tinha um avô preto retinto. A outra se casou com um homem branco de olhos azuis. As duas tiveram 18 filhos cada, ou seja, 36 crianças. E depois eu descobri um tio macumbeiro, o que fez todo o sentido para mim em relação à minha religiosidade e à busca constante que tenho pelas religiões de matriz africana.

Ao resgatar todo esse processo, fui identificando minha criança viada, minha criança LGBT+, que passou por várias violências: não só abuso sexual e violência física, mas também violências verbais. Para mim, as verbais foram muito mais dolorosas do que qualquer outro tipo de violência física que sofri, porque pareciam coisas que as pessoas não achavam problemáticas ou violentas; elas faziam piadas e achavam que estava tudo bem. Estamos falando de uma criança da década de 1980 para 90 no interior do Ceará. Então, a partir dessa nova visão que tive da minha infância e das violências que sofri, hoje, como homem de 42 anos, estou resolvido com relação a isso.

A peça não é sobre a violência do Silvero, é sobre a violência social. Sobre como ainda hoje a sociedade é muito cruel, de como algumas piadas, algumas frases, algumas violências verbais podem reverberar no adulto daqui a 20, 30 anos.

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Família (Silvero Pereira/arquivo pessoal)

Gostaria de retomar um ponto na sua fala. Quando você decidiu investigar as suas origens, você tinha a intenção de transformar isso em uma peça?

Não tinha essa intenção, era um desejo pessoal. Fui em busca disso exatamente por um vazio dentro da minha existência. Isso aconteceu quando eu tinha 36, hoje estou com 42. Queria antes resolver esse vazio existencial, esse vazio ancestral. Por que tenho tanto interesse na religião de matriz africana? Por que me envolvo tanto com relação aos orixás? Por que meu rosto é assim? Por que minha boca é de um jeito? Por que meu cabelo é cacheado? Por que meus olhos são grandes?

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Comecei a me perguntar sobre minha própria estrutura física e emocional, e religiosa com relação à minha fé. E aí, fui encontrando essas explicações. Minha estrutura física está amparada na formação que tenho de duas avós indígenas, um avô branco e um avô preto retinto. Quanto à minha religiosidade, resgatei na memória que fui levado para terreiros quando era criança, mas eu não sabia que eram terreiros. Minha mãe me levava a esses lugares por causa desse meu tio, que era macumbeiro, e fazia com que a família também frequentasse, embora minha mãe seja extremamente católica. Fui resgatando essas memórias e encontrando justificativas para a pessoa que sou hoje.

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(Tainá Cavalcanti/divulgação)

Você se sente uma pessoa diferente por fazer essas descobertas?

Isso me transformou completamente. Mudou completamente minha perspectiva de vida. O ponto de partida mais crucial de toda essa história é que convivi com meu avô preto retinto, mas nunca o enxerguei como tal. Não era porque eu era uma criança e crianças não fazem distinção de raça ou etnia. Eu não enxergava porque era obrigado a não enxergar meu avô preto retinto. Era uma questão de racismo mesmo, eu não podia reconhecer que tinha um homem preto dentro de casa. Essa foi mais uma violência, a violência de não reconhecer minha origem por ser uma origem em uma estrutura racista. Comecei a levar para dentro de casa essas informações: “Vocês se lembram que a gente tinha um tio macumbeiro? Hoje, eu sou macumbeiro por conta desse tio que estava aqui.”

Minha avó, que é indígena, trouxe para dentro da família a relação com os encantados. Foi minha avó quem trouxe a religiosidade dos encantados, que fez com que meu avô buscasse religiões de matriz africana. Diversas vezes fomos curados na infância por essa coisa do interior do Ceará, pelas rezadeiras. Quando transformo em uma peça de teatro, estou querendo cutucar a sociedade, questionar, provocar, trazer informações sobre o quão necessário é que a gente realmente vá em busca das nossas origens para entender quem somos.

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Desenhos (Silvero Pereira/arquivo pessoal)

Você comentou sobre sua família e sobre o diálogo que teve com eles, sobre mostrar e apontar o porquê da sua religião e espiritualidade. Sua família chegou a assistir ao espetáculo?

Eles assistiram. Esse trabalho teve uma experiência durante a pandemia de forma online. Naquela época, ele se chamava “Bicha Viado Frango”, e eu o estreei durante a pandemia com uma estrutura online. Obviamente, o “Pequeno Monstro” sofreu transformações. Ao decidir colocar esse trabalho no palco de maneira presencial, há outros artifícios, é outra linguagem. Estreamos agora, estamos na segunda semana no Rio de Janeiro, então minha família ainda não teve a oportunidade de ver ao vivo. Mas a base desse trabalho, 60% do texto, é o que eles viram durante a performance virtual.

Foi muito engraçado porque minha mãe chegou a me perguntar: “Nossa, quer dizer que na nossa família realmente aconteceu isso e aquilo?” E eu respondia: “Não mãe, isso aqui é uma ficção, uma obra de arte. Estou misturando coisas, nem tudo que está acontecendo aqui é sobre nós. Quero dizer que somos um exemplo de sociedade e que as pessoas vão se identificar com isso porque obviamente existem casos parecidos em toda a sociedade, em toda família.”

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Infância (Silvero Pereira/arquivo pessoal)

E como foi esse outro processo de investigação dessas outras histórias? O que você estava buscando com elas?

Estava em busca de dois temas muito importantes: ancestralidade e violência na infância LGBT. Quando decido montar um trabalho e escrever uma dramaturgia sobre isso, sei que a minha dramaturgia é bem fragmentada porque eu escrevo uma dramaturgia quase cinematográfica, em formas de cenas, e depois vou compondo essas cenas conforme o fio condutor das histórias que vão vindo na minha cabeça. Esses dois temas são os principais: ancestralidade e violência LGBT na infância. E aí, quando me debruço sobre isso, vou em busca dessas informações. Vou em busca na dramaturgia clássica, por exemplo, tem trechos de “Hamlet” que eu uso e reescrevo dentro do “Pequeno Monstro” com a mesma métrica shakespeariana, mas com a minha linguagem, com a minha forma de falar, de denunciar essas coisas.

Me aprofundo nesses dois temas a partir de outras referências literárias, jornalísticas, redes sociais pessoais, e depois misturo tudo isso. A música também é bastante central. Nos últimos anos, ela tem feito parte da minha dramaturgia. Desde o BR-Trans, quando tive uma imersão com a Companhia do Latão, assisti pela primeira vez ao Círculo de Giz Caucasiano há uns 20 anos.

Eles me disseram que a música, principalmente nas peças do Brecht, é extremamente importante porque ela é dramaturgia; não é colocada em cena só para compor uma atmosfera, ela precisa continuar contando essa história. Então, desde essa informação de 20 anos atrás, venho trazendo a música para as minhas peças como dramaturgia. Eu não paro uma peça para cantar uma canção; paro a peça para interpretar essa canção conforme o tema do que estou falando. Por isso, nesse projeto, tem “Fera Ferida,” que é uma música sobre amor. Não é uma música sobre abuso, mas, no contexto em que está inserida, pode ser levada para outra interpretação, e pode ser uma cena extremamente violenta, dependendo da maneira como a conduzimos.

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tios e primos (Silvero Pereira/arquivo pessoal)

Teve algum momento específico que você percebeu que isso daria uma peça de teatro?

Eu percebi isso porque meus últimos trabalhos envolviam esse lugar do autobiográfico. Desde “Uma Flor de Dama,” o primeiro processo que faço dentro das Travestidas, em que pego um conto do Caio Fernando Abreu, “Dama da Noite,” e falo sobre transformismo, sobre transexualidade e tal. Só que eu pego o conto do Caio, misturo literatura com dramaturgia e com a minha história. Então, se lá em “Uma Flor de Dama,” eu já falava sobre o abuso que tinha sofrido na infância, colocava isso dentro dessa estrutura dramatúrgica que era “Flor de Dama,” só que ficava muito mais disfarçado porque existia uma personagem que contava isso e não era o Silvero, não era tão exposto. E aí essa é a minha primeira experiência dramatúrgica.

Depois de “Flor de Dama,” fui fazer o “BR-Trans,” que já era uma dramaturgia em que eu tinha uma exposição maior da minha pessoa porque a dramaturgia do “BR-Trans” tem como base a minha viagem do Ceará até o Rio Grande do Sul e sobre as meninas que conheci ao longo dessa viagem, como elas modificaram a minha maneira de conviver, de pensar e de respeitar a diversidade de gênero.

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Então, depois desses dois trabalhos, fui construindo uma dramaturgia que buscava essa linha de misturar literatura, fatos, tese, dramaturgia e autobiografia. Quando comecei a pesquisar sobre a minha origem, pensei que poderia dar uma peça.

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(Tainá Cavalcanti/divulgação)

Gostaria de pedir para você compartilhar um pouco como é o seu processo, tanto de dramaturgia quanto na atuação. Como funcionam essas duas ramificações? Como elas se cruzam?

Primeiro, eu tenho um trabalho de dramaturgia. Decido o tema. Depois vou para a pesquisa, e essa pesquisa passa por todos esses lugares que já mencionei: dramaturgia, literatura, redes sociais, essas coisas todas. E aí, eu me coloco no lugar de escrita. Faço essa escrita a partir do intuitivo; as cenas vão vindo da inspiração que vai surgindo. Vou compondo e escrevendo essas cenas em quadros, colocando-as na parede com post-its, dando nomes para elas e anotando tanto o tema da cena quanto de onde veio essa pesquisa.

Depois que faço isso, começo a olhar para ela como se fosse um grande filme. E aí, começo a fazer um processo de edição, por isso digo que meu processo é cinematográfico. Vou editando esse filme na minha cabeça, de início, meio e fim, qual a cena que funciona primeiro, qual a cena que segue depois, e vou compondo tudo isso. Depois desse processo feito, escrevo o trabalho todo, escrevo a dramaturgia. Aí, faço o processo de escrever a dramaturgia.

Terminado isso, vou para a sala de ensaio e começo a experimentar coisas. E essas coisas eu experimento a partir do que tiver na sala para mim. Fico horas dentro da sala de ensaio, levando material, levando caixa de som, levando plástico, enfim, todos os materiais que possam mexer com a minha imaginação, com o meu lúdico, com o meu cognitivo. E aí, convido a direção.

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Teste de movimentos (Silvero Pereira/arquivo pessoal)

Esse processo leva mais ou menos quanto tempo, ou nesse caso levou quanto tempo?

Em sala de ensaio, tivemos dois meses de processo cheio, ensaiando de segunda a sexta das duas às dez da noite. Esse era um processo diário, mesmo quando eu estava sozinho, mesmo quando a diretora não podia estar presente, eu estava na sala de ensaio, das duas às dez da noite, produzindo, construindo, criando. Mas o processo todo, desde a ideia do tema até ele se concretizar, levou sete anos.

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desenhos (Silvero Pereira/arquivo pessoal)

O que foi mais difícil no desenvolvimento da peça?

Foi voltar para o teatro depois de 12 anos sem entrar numa sala de ensaio. Meu último trabalho como ator foi o BR-Trans, exatamente há 12 anos.

Durante esses anos, fui absorvido pelo audiovisual e nos últimos sete anos, especialmente, não tinha tempo para voltar ao teatro, embora o desejo estivesse lá. Mesmo assim, eu não me afastei dos palcos. Até dois anos atrás, participei do “Silvero interpreta Belchior”, um espetáculo musical com direção dramatúrgica e um texto a seguir. O teatro estava presente de alguma forma, mas retornar ao ponto zero, onde um ator entra em cena com um texto e começa a criar, após 12 anos, foi um desafio.

Mesmo sendo formado em Artes Cênicas, senti uma grande inquietação durante o primeiro período de ensaios, questionando se conseguiria lidar com isso. Percebi que estava me sentindo enferrujado para o teatro e achei necessário resgatar esse conhecimento. Essa foi, sem dúvida, a parte mais difícil do processo.

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(Tainá Cavalcanti/divulgação)

Você já tem outros projetos em andamento, incluindo um filme com Fernando Meirelles. Tem alguma coisa que você pode adiantar sobre a sua participação?

Essa participação no “Corrida dos bichos” é de fato uma participação. Não faço parte do grande elenco do filme, só gravo cinco diárias. O prazer que estou tendo de fazer esse filme é trabalhar com Fernando Meirelles, assim, é uma figura que sempre esteve dentro do meu imaginário, é um grande diretor, eu sou um cinéfilo, tanto que eu falo: a minha dramaturgia passa primeiro pela cinematografia do que pela própria estrutura teatral. Quando eu estudei teatro, por exemplo, a minha monografia foi sobre a influência do cinema no processo criativo de teatro. Então, o Fernando é uma grande referência. Quando veio a proposta de trabalhar com ele, eu aceitei imediatamente.

Mas, para além deste projeto, estou lançando agora um EP do Belchior, onde finalmente me coloco nesse lugar de cantor, onde me enxergo como cantor.
Tem “Maníaco do Parque” que estreia já agora no segundo semestre. Tem “Vudu Delivery” que é outro filme. Começo a montar um show em homenagem a Ney Matogrosso para 2025, que é outra grande referência para mim.

Pequeno Monstro

Temporada: de 30 de maio a 28 de julho
Teatro Poeira | Rua São João Batista, 104 – Botafogo – Rio de Janeiro
Horário: quinta a sábado, às 20h | Domingo, às 19h
Ingressos: 80,00 (inteira) | 40,00 (meia)

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