A polêmica da 36ª edição da Bienal que pode mudar os rumos do evento
Jornal sugere mudanças após questionamento sobre comunicação das obras na última edição; mudanças não foram confirmadas pela instituição
A Fundação Bienal de São Paulo passou a ser alvo de questionamentos após a publicação de um texto do jornalista Sílas Martí, na Folha de S.Paulo, que menciona possíveis mudanças nos contratos com os curadores das próximas edições da mostra. O artigo foi publicado na quinta-feira (19). Na reportagem, que combina análise crítica e ensaio, Martí afirma que a programação futura sofreria alterações contratuais após o que descreve como “extravagâncias” da 36ª edição, encerrada em janeiro deste ano.
A publicação retoma críticas dirigidas à edição mais recente, com curadoria do camaronês Bonaventure Soh Bejeng Ndikung, realizada sob o título “Nem todo viandante anda estradas – Da humanidade como prática”. Organizada pela Fundação Bienal de São Paulo, a mostra integra uma das mais importantes plataformas de arte contemporânea do mundo. Entre os pontos mencionados no artigo estão a dificuldade de acesso a informações sobre obras e artistas, a ausência de legendas visíveis e escolhas expográficas que, segundo parte do público, teriam interferido na experiência de visitação.
De acordo com o texto da Folha de S.Paulo, o conselho da Fundação teria decidido criar “guardrails” — termo usado por uma fonte ouvida pelo jornal —, descritos como mecanismos contratuais destinados a evitar que decisões curatoriais comprometam a clareza das informações ao público. A informação, entretanto, ouviu vozes de bastidores e não foi confirmada e tornada oficial pela organização.
Procurada pela reportagem da Bravo!, a Fundação Bienal não confirmou nem negou alterações específicas nos contratos. Em nota, a instituição apenas afirmou que realiza avaliações internas ao fim de cada edição, como parte de sua política de revisão de procedimentos.
“A Fundação Bienal de São Paulo é uma instituição cultural privada, sem fins lucrativos, cuja missão é ampliar e democratizar o acesso à arte contemporânea, fomentar a produção artística e desenvolver projetos educacionais no âmbito cultural. Esses três eixos estruturam e orientam a atuação da instituição.
Como parte de sua política permanente de aprimoramento institucional, ao término de cada edição da Bienal são realizadas avaliações conduzidas pela Diretoria Executiva, com o objetivo de analisar resultados e aperfeiçoar processos, fluxos e parâmetros de trabalho.
A Fundação Bienal revisa e otimiza seus procedimentos continuamente, sempre orientada pela responsabilidade na gestão de recursos, pelo fortalecimento do projeto artístico e pelo compromisso com a acessibilidade e a democratização do acesso ao público.”
Sobre os pontos ainda não esclarecidos, a reportagem enviou novos questionamentos à instituição, solicitando informações sobre possíveis alterações nos contratos de curadoria, novos parâmetros para apresentação das obras e avaliações internas sobre a recepção pública da última edição. As respostas foram fornecidas conjuntamente pela Fundação Bienal de São Paulo. Segundo a instituição, qualquer alteração no modelo de contrato será avaliada após a indicação do novo corpo curatorial.
BRAVO!: Sobre a alteração no contrato, podem confirmar se essas mudanças realmente ocorreram? Em caso afirmativo, poderiam detalhar quais foram os principais pontos de alteração nos contratos dos curadores e como essas alterações impactam a forma como a curadoria será conduzida e as obras apresentadas ao público?
Fundação Bienal de São Paulo: A Fundação Bienal revisa periodicamente seus procedimentos administrativos e contratuais como parte de sua política permanente de aperfeiçoamento institucional. No momento, o comitê de seleção curatorial encontra-se no processo de indicação da curadoria da 37ª Bienal de São Paulo. Eventuais atualizações nos modelos contratuais serão analisadas após a nomeação da equipe responsável pela próxima edição, à luz das necessidades específicas do projeto.
B: Existem diretrizes ou parâmetros formais que orientem a exposição e montagem das obras, de modo a equilibrar liberdade criativa e acessibilidade para o público?
A Fundação Bienal dispõe de um manual de diretrizes e boas práticas institucionais, compartilhado com todos os colaboradores, incluindo as equipes curatoriais. O documento estabelece parâmetros operacionais e de governança que dialogam com a liberdade conceitual de cada projeto e é revisto a cada edição. É importante lembrar que, desde 2009, a instituição opera com equipes técnicas permanentes, o que permite consolidar conhecimento acumulado e garantir continuidade institucional entre as edições.
B: A Fundação possui relatórios ou avaliações sobre a percepção do público e dos artistas em relação à clareza das informações sobre as obras na 36ª Bienal? Se sim, poderiam compartilhar dados ou exemplos de conclusões relevantes?
Há um histórico de pesquisas realizadas em parceria com o Datafolha a cada edição da Bienal, com o objetivo de compreender o perfil do público e avaliar sua experiência. Na 36ª edição, a 1 taxa de satisfação foi de 96%, em linha com as últimas quatro mostras, e a nota média de recomendação alcançou 9,2 (em uma escala de 0 a 10).
B: Qual é o diagnóstico da Fundação sobre a última edição da Bienal em termos de recepção do público e aprendizado institucional? Há mudanças específicas previstas para futuras edições com base nesse feedback?
No caso específico da 36ª Bienal, a partir do monitoramento contínuo da experiência de visitação, que inclui acompanhamento de imprensa, redes sociais e interações diretas com o público –, a Fundação reavaliou a proposta de sinalização ainda nas primeiras semanas da mostra.
Em diálogo com a curadoria, foram implementadas placas adicionais com o nome dos artistas e QR Codes ao lado das obras, buscando um equilíbrio entre a proposta conceitual da exposição e a acessibilidade da informação ao visitante. Também foi realizada uma segunda tiragem do fôlder-mapa, em formato ampliado e com conteúdo mais detalhado, com o objetivo de incrementar a acessibilidade de conteúdo. Cabe lembrar que a exposição é acompanhada por um sólido programa educativo e de mediação, que atendeu 113 mil pessoas – mais de 90 mil delas crianças e adolescentes –, e que conta com uma série de iniciativas de acessibilidade. Um dos destaques desta edição é o projeto Bienal Prática, um inovador aplicativo web fluente em português, inglês e espanhol que utiliza recursos de inteligência artificial, reconhecimento de imagem e realidade aumentada para interagir com o visitante em linguagem coloquial em um percurso composto por 30 artistas da mostra. Cada Bienal constitui um processo de aprendizado. A partir da análise dos resultados de cada edição, como dados de público, avaliações internas e contribuições das equipes envolvidas, a Fundação revisa procedimentos e aperfeiçoa fluxos de trabalho.