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A nova Revolução dos Bichos de Bruce Gomlevsky

Carioca ousa eliminar artifícios cênicos de “Outra Revolução dos Bichos” e transforma privação em inventividade na adaptação da obra-prima de George Orwell

Por Gabriela Mellão
Atualizado em 25 mar 2025, 11h41 - Publicado em 25 mar 2025, 07h00
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 (Michel Langer/divulgação)
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Aconteceu há 3 anos “A Revolução dos Bichos”, primeira adaptação de Bruce Gomlevsky como encenador a partir da obra literária de mesmo nome, escrita por George Orwell. A montagem da cia. Teatro Esplendor, fundada pelo artista carioca, colocou todos os recursos cênicos a serviço do espetáculo. Reuniu 20 atores caracterizados como animais, trilha sonora, figurino e um cenário que recriava um curral no palco, cobrindo-o de feno. A peça foi bem recebida por público e crítica, não tanto por seu próprio encenador. 

Um ano depois, Gomlevsky estreou “Outra Revolução dos Bichos”, que pode ser vista na cidade este mês no recém reinaugurado Teatro D-Jaraguá, como parte da primeira mostra de repertório em São Paulo do grupo sediado no Rio de Janeiro. Até o fim de março também está em temporada “Um Tartufo”, adaptado do clássico de Molière. O solo “Raul Seixas – O Musical”, único trabalho da programação em que Bruce está em cena como ator, está programado para abril e junho. 

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(Michel Langer/divulgação)

O romance contemporâneo de Orwell conta a história de uma revolta organizada pelos animais de uma fazenda contra a exploração humana. Lançada em 1945, a sátira se tornou  um marco literário do século XX, uma resposta satírica de Orwell às distorções dos princípios de liberdade e igualdade que nortearam os ideais políticos na Revolução Russa de 1917. Expôs a relação que a história provou existir entre corrupção e defesa dos direitos humanos.

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(Companhia das Letras/divulgação)

O foco recai na selvageria de um dos líderes da rebelião, o porco Napoleão, personagem que deve seu nome ao imperador francês Napoleão Bonaparte. O porco acaba por repetir a conduta do líder deposto transformando em autoritarismo um movimento libertário. “Todo animal é igual, mas alguns animais são mais iguais do que os outros” é seu lema.

Se o livro é a revolução de Orwell, “Outra Revolução dos Bichos” é  a revolução de Gomlevsky. O artista faz da nova versão da obra do inglês um exercício radical de investigação. Abre mão de qualquer dispositivo cênico cuja função seja menos do que primordial para concentrar-se na essência do teatro. Conserva o texto de Daniela Pereira de Carvalho escrito para o original. Altera o restante da montagem, tendo o trabalho de atuação como foco. 

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(Michel Langer/divulgação)

De parte integrante de um elenco numeroso do primeiro espetáculo, Gustavo Damasceno torna-se protagonista absoluto do segundo. A obra renasce como monólogo e ele passa a interpretar todos os animais que compõem a trama, numa atuação pujante inspirada pelo métodos de mímica dramática ancoradas no corpo do intérprete. 

Não há figurino, acessório ou visagismo. O ator surge de cara lavada, calça e blusa pretas. Se não fosse pela proximidade que está do palco antes do início do solo observando o público entrar seria confundido como espectador. Metamorfoseia-se por completo quando, num salto, adentra a cena – já como narrador da trama que se inicia, na pele do porco Napoleão. Desdobra-se nos diversos personagens da fazenda que compõem a alegoria de Orwell, apoiado apenas em sua capacidade corporal e vocal.

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(Michel Langer/divulgação)

É surpreendente notar como um simples movimento de dedo pode “presentificar” um porco em cena, como um acenar de braço e uma entonação esgarçada dão contornos quase concretos a um corvo, e um andar altivo traz ao palco a alma de um cavalo. 

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Além de não haver caracterização, a encenação dispensa trilha sonora e cenário. Gomlevsky não abre mão de luz, — e com ela cria atmosferas, sugere espaços físicos e transforma algumas cenas em poesia visual de rara beleza —, não sem antes dar à iluminadora Elisa Tandeta o desafio de trabalhar com um número mínimo de refletores, cerca de 15.

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(Michel Langer/divulgação)

A dupla Gomlevsky e Damasceno se alia para dar prova do poder espetacular da arte teatral. Na ousadia da busca pelo exercício de síntese, contando com um trabalho memorável de concepção e interpretação, convoca a força imagética do espectador e subverte a precariedade da falta de recursos cênicos.

Como resultado, de um solo árido consegue extrair a exuberância da inventividade fazendo das evocações criativas sugeridas no palco a mais cristalina realidade. A parceria rendeu ao espetáculo a indicação do Prêmio Shell de melhor direção e do prêmio APTR de melhor ator.

Investigação de Bruce Gomlevsky

A revolução de Bruce é a investigação teatral, trabalhada sem concessão nos quase vinte anos de pesquisa à frente da Cia. Teatro Esplendor, muitas vezes na raça, sem apoio ou financiamento, como ato de resistência e devoção à arte. A busca é pela formação de um teatro de repertório de excelência, sem linha específica, norteado por textos dramatúrgicos de qualidade – tanto faz se clássicos ou contemporâneos, nacionais ou internacionais.

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Até hoje o grupo havia trazido apenas duas de suas criações a São Paulo: “Volta ao Lar”, do inglês Harold Pinter (entre outros prêmios e indicações, vencedor do Questão de Crítica para a atuação de Arieta Corrêa e indicado ao Shell pela direção e atuação de Tonico Pereira) e “Festa de Família”, do cineasta dinamarquês Thomas Vinterberg (entre outras indicações, o Shell de direção). 

O realismo é a linguagem da primeira década dos trabalhos da Cia., baseado nos preceitos do sistema de atuação desenvolvido pelo russo Constantin Stanislavski, popularizado pela escola de teatro do Actors Studio, em Nova Iorque. Stanislavski propunha aos atores que começassem o estudo prático de uma peça pelas ações. Sem o uso de palavras. O exercício acabou por ditar o conceito de “Um Tartufo”, em 2018.

A obra marca uma virada nas diretrizes de pesquisa do grupo carioca. Do naturalismo eles se voltam ao desenvolvimento de uma linguagem não figurativa por meio de uma exploração coreográfica transbordante de teatralidade gerada a partir do cruzamento de vertentes diversas, como o Expressionismo alemão, a mímica de Chaplin e Decroux, e o Teatro do Absurdo.

Degeneração social e política

O corrompimento das estruturas de poder é problematizado em cena desde os primórdios da civilização. No século V a.c. Ésquilo já denunciava a tirania nos abusos sofridos por Prometeu a mando do Deus Zeus. Shakespeare leva a temática às últimas consequências em “Macbeth”.

O drama moderno torna a corrupção e a violência dos interesses econômicos questões centrais com o norueguês Henrik Ibsen, no clássico “Um Inimigo do Povo”, remontado na cidade no ano passado por José Fernando Peixoto. Com “O Rinoceronte”, criação que data da mesma época que “A Revolução…”, o romeno naturalizado francês Eugène Ionesco também traça seu retrato alegórico dos efeitos nefastos da deturpação moral do homem à sociedade. 

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Com sua adaptação, Gomlevsky entra no coro destes autores, nesta breve viagem na linha do tempo teatral. Segundo evidencia, a epidemia que faz os homens agirem como animais é generalizada e não há sinal de imunização ao contágio, ao menos até o momento.

Quando sobe ao poder como líder autoritário, perverso e amoral, o porco Napoleão aprende a andar sobre duas patas. Apenas ao provar-se desumano é que passa a compor a humanidade. A transmutação surge como retrato da evolução do homem. Através dela, também se vislumbra seu destino: “A carne humana só serve mesmo para salsicha”.

Outra Revolução dos Bichos

Onde: Teatro D-Jaraguá | Rua Martins Fontes, 71
Quando: Sextas, às 20h; até 28/03
Quanto: R$ 100
Classificação: 14 anos

Um Tartufo

Onde: Teatro D-Jaraguá | Rua Martins Fontes, 71
Quando: sextas e sábados, às 20h e domingos, às 19h; até 30/03
Quanto: R$ 100
Classificação: 14 anos

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